O que faz uma filósofa no Web Summit?

Materializei a vontade de aprender numa missão: recolher perguntas que sirvam para continuarmos a dialogar, depois da conferência. Estes são os primeiros resultados.

Ben Goertzel e a robô Sophia de regresso ao Web Summit (foto de David Fitzgerald/Web Summit)

Tenho tido a possibilidade de acompanhar o Web Summit desde que a conferência se mudou, de armas e bagagens, para a cidade de Lisboa. Assumi sempre o ponto de vista de “quero aproveitar para aprender coisas” – e depois, só depois, aproveito para rever amigos e conhecidos. Desta vez, materializei a vontade de aprender numa missão: recolher perguntas que sirvam para continuarmos a dialogar, depois da conferência.

Por que razão queremos tanto que os robôs se pareçam com os humanos?

Algures na Bíblia diz-se que Deus criou o Homem à sua imagem. Sejamos religiosos ou não, a criação do mundo é algo que permanece misterioso: a Bíblia tem uma versão literária, o Big Bang dá-nos uma teoria que é dominante, mas não consensual. O mistério permanece.

Enquanto não o desvendamos, resolvemos brincar aos deuses e criar robôs, à nossa imagem e semelhança. Queremos que sejam inteligentes, capazes de tomar decisões e que respondam emocionalmente. A robô Sophia já tem o estatuto de cidadã. Não sei se lhe é permitido votar, mas tenho curiosidade em perceber como votaria, que critérios iria adoptar para a sua decisão, que informação iria procurar e qual seria a sua lista de prós e contras de cada candidato.

Procuramos versões melhoradas de nós mesmos? E como somos capazes de procurar versões melhoradas de algo que conhecemos tão superficialmente?

O futuro passa por retomar coisas do passado?

Conhece-te a ti mesmo: eis uma frase que alguns filósofos têm vindo a repetir, ao longo de milhares de anos. Sócrates, o senhor que só sabia que nada sabia, defendeu esta máxima, cuja tradução prática conhecemos dos diálogos escritos pelo seu discípulo Platão. E não é que esta máxima foi ouvida, uma e outra vez, durante este evento super-hiper-mega-tech?

Ray Dalio, da Bridgewater Associates no palco principal do Web Summit (foto de David Fitzgerald/Web Summit)

Conhece-te a ti mesmo: tu, enquanto marca e tu enquanto pessoa (humana). As marcas que se conhecem bem, de dentro para fora, que estão confortáveis com as suas forças e fraquezas, que admitem pontos de vista, que erram e pedem desculpas – essas marcas que até parecem pessoas conquistam algo que é precioso nos dias de hoje: confiança.

No palco principal, um dos homens mais ricos do mundo, Ray Dalio (da Bridgewater Associates), partilhou aquilo que o move no seu quotidiano: os princípios. Segundo Ray, os princípios são formas de lidar, com sucesso, com a realidade, de maneira a conseguirmos o que queremos da vida.

Sempre que tomava uma decisão reflectia sobre a decisão e escrevia o critério que me levaram à decisão, tendo criado um algoritmo a partir daí. Sim, o trabalho dos algoritmos pode ajudar-nos na tomada de decisão, precisamente por nos ajudar a criar distância e a relativizar os pontos de vista (os nossos e os dos outros).

As dicas que o Ray partilhou para sermos bem sucedidos são simples, mas difíceis de realizar. Tomem nota:

  1. saber quais são os objectivos, de forma clara;
  2. identificar os problemas e lidar com eles, de forma criativa;
  3. diagnosticar os problemas, procurando a sua raiz;
  4. desenhar um caminho de mudança, para ultrapassar os problemas;
  5. realizar a mudança.

Muitos de nós não conseguem realizar estes passos, sobretudo pela dificuldade em reconhecer as nossas fraquezas, perante os outros e perante nós próprios.

Segundo Ray, uma das maiores tragédias da humanidade consiste em manter ideias erradas nas nossas cabeças e evitar colocá-las à prova. Em vez de procurarmos quem possa contrariar a nossa ideia, colocando-a à prova, rodeamo-nos de pessoas que confirmam a nossa ideia. O consenso é algo sedutor. Além disso, há lá coisa mais humana do que querer a aprovação dos outros?

Tal como Sócrates, Ray recomenda o conhece-te a ti mesmo, afinando a expressão no sentido de conhecer bem as forças e fraquezas, testares as tuas certezas, confrontar as nossas ideias com as dos outros e, o mais importante, ser honesto durante todo o processo.

Mais por escrever e publicar

Tenho mais perguntas e observações para partilhar convosco; nomeadamente sobre a responsabilidade e o uso da World Wide Web e a necessidade de humanizar a humanidade. Mas antes de escrever e antes de publicar, preciso de algum tempo para pensar. Parar para pensar: eis um luxo nos dias que correm.