Alvorada! Em 2008, a FlorCaveira acordou Portugal

Há 10 anos nasceu a editora que deu muitos dos EPs e discos que viraram Portugal do avesso.

Os músicos FlorCaveira (foto de Vera Marmelo/DR)

Mesmo sendo coisa do século passado, de 1999, este texto aponta para aquele que, para muitos, será o génesis da FlorCaveira. São 19h36 e, com a mudança de hora, já se escreve à noite. E não é uma noite qualquer: numa curiosa coincidência deu-me para pegar no teclado neste dia 31 de Outubro, é noite de Halloween e, bem mais importante para o universo FlorCaveira, dia de assinalar mais um aniversário de Reforma Protestante, o 501º.

Mas, embora o fundador e timoneiro Tiago Guillul já pregasse na Igreja Baptista de S. Domingos de Benfica, a FlorCaveira nunca foi apenas um exclusivo viveiro de músicos cristãos, embora o curto meio evangélico português tenha permitido a Guillul chegar facilmente a um talentoso tondense e à cave da Igreja Baptista de Queluz, a que guarda o maior segredo do rock português dos anos zero.

A imagem da FlorCaveira

Longe desta lógica protestante, estão uma boa parte dos nomes que há dez lançaram EPs e discos que viraram Portugal do avesso: João Coração, B Fachada e o católico Manuel Fúria. Mas se a orientação religiosa se divide num 50-50, sempre existiu unanimidade na uniformidade da língua destas canções, o português, e uma louvável rejeição da falsa modéstia: estes músicos aceitam que mudaram o estado das coisas enquanto uma crise avisava que piores dias viriam e Barack Obama assumir o trono americano.

Este texto não é tanto uma resenha crítica, é um olhar contemporâneo, conjuntos de anotações e histórias pessoais, formas como a memória tratou aquele tempo em que meia dúzia de então desconhecidos viraram o país de pantanas, com tudo o que isso tem de relativo para a maior parte das gentes. Para além dos autores dos discos aqui recordados, faz sentido mencionar outra malta que os ajudou a conceber: produzindo ou simplesmente abrindo as portas de sua casa: Jorge Cruz, Bernardo Barata, Tomás Cunha Ferreira, Alexandre Mano e Guell, devo ter-me esquecido de alguns, pois não olhei com exaustão para as fichas técnicas. Entre discos físicos, Spotify e Bandcamp: regresso a 2008.

Tiago Guillul – IV

Tem-se recordado muito pouco o que aconteceu há dez anos. As grandes iniciativas até parecem vir dos próprios protagonistas. Um dos mais entusiasmados tem sido precisamente Guillul. Foi o primeiro a anunciar a sua reedição que não é uma qualquer e, no dia do seu 41º aniversário, reuniu uma data de amigos, gente que, de uma maneira ou de outra, participou no “movimento” para, com base em IV, e tudo o que seguiu, debater o actual panorama português.

Está certo que o gancho de pastor e rocker resultam numa história potencialmente interessante, mas não estaríamos aqui para o recordar se os alicerces não tivessem cedido. O rock enquanto música demoníaca ainda será uma questão para meios cristãos mais conservadores e, vá, antigos. Guillul estará nos antípodas, não só na forma como viveu o hardcore (com uma banda) e como expõe em “Canção para o Rodrigo” que “ainda hoje é o punk rock que o seduz”. A canção é dedicada a Rodrigo Barradas, ex-X-Acto, influente banda punk/hardcore dos anos 90. O Rodrigo suicidou-se e esta é, ironicamente, uma canção enternecedora sobre um punk rocker.

Tudo isto é comovente e condizente com uma espécie de rock gospel a que podemos associar os Arcade Fire, embora Guillul seja bem mais óbvio na infinidade de referências bíblicas que ocupam IV. Aliás, de certa forma, o disco recorda-nos uma pregação: tem muitos versículos e histórias da Bíblia, momentos emocionais e outros ainda mais ríspidos, em que mete o dedo na ferida. Em tempos, Marcelo Rebelo de Sousa, o comentador, disse que todas as suas intervenções, mesmo aquelas que podem não parecer, têm como objetivo ajudar o seu partido. Cavaco (só para usar o apelido de um ex-Presidente da República) também é assim, mas em relação à Bíblia.

B Fachada – Viola Braguesa

O momento FlorCaveira é relativo e adaptável à realidade de todo e qualquer ser humano. No caso pessoal, só chego a Fachada com a edição do homónimo em 2009. Viola Braguesa, naquela ascensão meteórica do músico em 2009/10, terá a sua pequena quota de responsabilidade. Até aqui, segundo Benjamim (ex-Walter Benjamin), só Henrique Amaro para puxar pelos discos editados por Fachada com o selo Merzbau na Portugália.

Hoje é complicado encontrar um nome que se destaque, embora Samuel Úria pareça estar em vantagem neste campo, mas no final da década passada, B Fachada era O nome. De certa forma, e com as devidas distâncias, podemos compará-lo ao fenómeno Conan Osiris. De repente, um tipo de maneirismos e com canções pouco convencionais vai de boca a boca e torna-se na perfeita representação de um momento. Um exemplo que é também uma história: num dia de Dezembro de 2009, na única vez que pisei o Frágil, Kurt Vile estreia-se (julgo eu) em Portugal, com 1ª parte de Fachada. Sala completamente lotada. B Fachada actua para uma casa cheia, chateia-se com o barulho que vem da plateia e dá a vez ao músico norte-americano que, 30 minutos depois, sobe a palco para menos de metade da lotação. Erro de casting: os papeis estavam invertidos.

E a história repetia-se por onde quer que Fachada tocasse. Disco atrás de disco, semestre após semestre, até ao hiato que o escondeu. Viola Braguesa, coisa caseira que conta com braguesa e outros instrumentos pouco convencionais tipo dicionário neerlandês-francês (o disco foi gravado na Bélgica) e cestas de molas, conhece agora nova e mais pujante roupagem, mais condizente com o B Fachada mais recente, que está disponível no Bandcamp . Deverá ser com esta nova caro que o vai revisitar no Jameson Urban Routes.

Os Pontos Negros – Magnífico Material Inútil

Nos fóruns e webzines melómenas, as comparações seguiam inevitavelmente para os Strokes. Mas oiça-se “Tempos de Glória” e destaque-se “eu só quero ver-me livre / Das tendências dos anos zero / Registar na minha memória / Tempos idos de glória”, e perceba-se que há uma relativa angústia em relação às comparações inerentes a um tempo em que já nada soa a novo e os Pontos Negros até soavam a novo no Portugal pós-2007.

São a única banda aqui representada e, na medida em que os Strokes se tornaram na melhor nova banda do mundo em 2001, os Pontos Negros também poderão dizer que foram a melhor nova banda de Portugal em 2008. Deve ser só a mim que o vídeo de “Magnífico Material Inútil” lembra o de “Sliver” dos Nirvana, mas sem tanto caos. Há comparações mais forçadas como poderão espreitar no resto do parágrafo. Tocaram em festivais, editaram por uma major, gravaram em Abbey Road. Hoje tocam de muito em muito tempo. À sua maneira também foram um motim. Reeditaram o disco em vinil.

Manuel Fúria – As Aventuras do Homem-Arranha

Para lá do fascínio com os 80s a que sempre se colou o homem do leme (cof cof, Heróis do Mar) da Amor Fúria, Manuel Fúria sempre pareceu mais interessado que os outros no Portugal rural, das festas, procissões, bailaricos, mas que paradoxalmente soa poético e culto. É uma ideia que se nota logo com este As Aventuras do Homem-Arranha, disco muito resumido, pessoal e intimista. Mais do que com adição deste EP, Fúria é preponderante na afirmação da FlorCaveira nesses anos 2000 e coiso. Ajudou-os a fazerem-se notar. Se por um lado, é com Os Golpes e “Vá Lá Senhora” que atinge o grande público, é na carreira a solo que parece querer fazer-se eterno. E isso começa logo nos títulos dos discos e eventos. A cultura pop, a idade média, a literatura nacional e as passagens bíblicas. Morra Fúria, Viva Fúria. Pim.

João Coração – Nº1, Sessão de Cezimbra

O desaparecido. De uma forma ou de outra, acompanhámos o rasto de todos os nomes aqui enumerados, à excepção de João Coração. De Daniel (nome de batismo), um dos que mais produziu nestes anos do final da década, sabemos que anda pelo empreendedorismo e sabemos pouco mais. Talvez o apanhem no Web Summit, embora ele seja mais Web Sumido. Enquanto Daniel foi João e João foi Coração, a FlorCaveira contou com pelo menos um romântico. Coração foi uma espécie de Gonçalo Gonçalves, mas em sério. A sua personagem era menos dada a exageros e maneirismos.

João Coração é o baladeiro que tentaram colar a Úria que tão bem descolou quando escreveu e editou “Fel” (estava por meses). O termo “balada” no título de uma canção do próprio Coração e o estereótipo do cantor romântico haveria de estar chapado na jucosa (seria?) capa de Muda que Muda. Coração, sempre de imagem cuidada, um daqueles tipos que faz tudo bem, de uma canção como “Dobra” à chanson francaise, num pitch ou no ping pong lá do secundário.

Samuel Úria – Em Bruto

Ainda quase desligado da corrente, mas já personalizado: e, no caso de Samuel Úria, é inevitável mencionar a lírica. Os jogos de palavras, trocadilhos, citações, metáforas, enfim, um domínio superior da língua portuguesa. Estão aqui duas canções que ainda hoje são convocadas a palco: “Teimoso” e “Barbarella e Barba Rala”. Dizer que “Ossos do Ofício” soa a Variações não será tão errado como a elaboração de uma ideia de que este Samuel seria um baladeiro, mesmo que a fechar o seu EP tenha “Tigre Dentes de Sabre” e no CV Os Ninivitas. Se nunca foi do progueroque é pelo menos do roque. Diz a história que foi incentivado a colocar as ideias em canções e deve ser por isso Em Bruto soe a esquisso.