Um dos maiores arquivos de música livre pode fechar. E agora?

Com a ajuda de uma comunidade de curadores dedicados desde 2009, o Free Music Archive contabilizava mais de 128 mil temas, que podiam ser ouvidos e descarregados gratuitamente sem qualquer tipo de registo.

Ao fim de quase uma década de actividade, o Free Music Archive, um dos maiores arquivos de música livre online do mundo, prepara-se para encerrar. O duplo adiamento e ajuda financeira extra empurraram o final para 1 de Dezembro (em vez da primeira data anunciada, que era 6 de Novembro), mas o encerramento parece iminente. Além do site, o serviço fechará também a sua API, que ajuda a alimentar outros sites como as tabelas de música Creative Commons Starfrosch.

A notícia rebentou caiu como bomba através de um e-mail da directora, Cheyenne Hohman, para os vários curadores da plataforma no final de Outubro. Quando o abri, tinha acabado de chegar a casa vinda do CC Saloon, um evento que juntou parte da comunidade portuguesa à equipa Creative Commons no Hub Criativo da Mouraria e onde as experiências de criadores estiveram em destaque. Primeira pessoa no palco: Darksunn partilha a aventura da família Monster Jinx e explica como ter chegado ao FMA foi um ponto de viragem, com vários dos seus discos a ultrapassarem as 10 mil transferências. Para o colectivo independente, ter lá a sua música significou aparecer em vídeos de blogues populares na Argentina, por exemplo, e levá-la até recantos do mundo que nunca tinham considerado alcançar. A Monster Jinx não é caso isolado em Portugal. O Free Music Archive garantiu uma exposição sem par a outros artistas nacionais, como o produtor Roulet, cujos álbuns Beats d’Amor e Home Again acumularam mais de 125 mil descarregamentos. Também a portuense Enough Records alcançou valores de downloads na ordem das centenas de milhar – do seu catálogo, tanto a fusão de electrónica com guitarra portuguesa de M-PeX como o chiptune de AzureFlux cruzaram a barreira dos 100 mil.

O Free Music Archive funcionava como projecto paralelo da estação de rádio comunitária norte-americana, WFMU, disponibilizando milhares de temas sob Creative Commons – licenças que permitem a partilha digital de obras mediante condições estabelecidas pelos autores. Com a ajuda de uma comunidade de curadores dedicados desde 2009, o site contabilizava mais de 128 mil temas, que podiam ser ouvidos e descarregados gratuitamente sem qualquer tipo de registo. Uma boa parte deles podia também ser reutilizada noutras criações digitais. Apesar de não ser a única plataforma de música com temas CC, distanciava-se das restantes por ser uma iniciativa sem fins lucrativos dedicada exclusivamente à música sem fins comerciais e, por isso, desenvolvida à medida dessa comunidade. Apresentada como o maior arquivo de música livre do mundo, podia ser pesquisado por artista e título, mas também navegado de forma mais livre usando filtros como género musical ou tipo de licença. Apesar do design datado e de um site não responsivo, a utilização do FMA em computador era simples e intuitiva, deixando para trás plataformas semelhantes com estéticas mais apelativas.

Com o passar dos anos, tornou-se um recurso cada vez mais valioso para produtores de conteúdo digital, oferecendo bandas sonoras a inúmeros podcasts ou milhares de vídeos na rede. Contudo, esse valor chegou com um preço demasiado alto. Com um tráfego mensal a rondar 3 milhões e meio de visitas, em 2015, os custos de operação relacionados com a banda larga utilizada pelo site situaram-se nos 80 mil dólares. Apesar das campanhas anuais de financiamento comunitário, não conseguiu reunir os apoios necessários para manter o funcionamento de uma estrutura que garantia mais de 100 mil entradas por dia.

Para lá de youtubers, podcasters e outros criadores, o Free Music Archive era um bastião da música livre. Com a chegada de serviços como o SoundCloud ou Bandcamp, o movimento das netlabels (editoras online de música Creative Commons) que borbulhava pela segunda metada da década passada acabou por esmorecer, mas o FMA conseguiu manter o que restou desse espírito de comunidade vivo e bem de saúde, alargando o alcance de músicos independentes graças a uma postura quase sem barreiras nem preconceitos. Da música clássica ao techno, do spoken word ao metal, da folk ao experimentalismo, o FMA acolheu e promoveu qualquer género sem discriminação – tudo escolhido a dedo pelos mais de cem curadores que carregavam música para a plataforma. Depois, os utilizadores faziam o resto: escolhiam os seus favoritos, montavam playlists, comentavam discos e singles.

Nem tudo está perdido. A migração de todo o catálogo para o Archive.org e a preservação da maior parte das páginas web através do Wayback Machine ficaram asseguradas. O espólio musical também deverá ficar disponível através do novo motor de busca CC Search, embora só a partir de 2019. Apesar de haver alguma esperança para um ressurgimento do Free Music Archive debaixo de outra organização, as negociações tiveram início este mês. A ser fechado um acordo, este poderá chegar só daqui a vários meses.

A partir de 1 de Dezembro, devotos da música livre podem continuar a surfar por outras paragens, como as tabelas de música Creative Commons Starfrosch, as plataformas Jamendo, Ziklibrenbib e Auboutdufil, ou ainda a comunidade ccMixter.

Texto de Rute Correia