Já ouviste falar da frente Progressista Internacional? Sanders e Varoufakis juntos contra o populismo

A ideia do lançamento da Frente Progressista Internacional surgiu há cerca de 2 meses mas à medida que se aproxima o seu lançamento, marcado para o dia 1 de Dezembro em Nova Iorque, as intenções vão sendo materializadas e ganham uma carga política ainda maior.

Yanis Varoufakis é fundador de um partido Pan-europeu, o DiEM25, antigo ministro da Economia do Governo grego e foi umas figuras mais efusivas e desalinhadas dos debates sobre a divida helénica nos círculos de discussão política europeus. Bernie Sanders foi o candidato derrotado das primárias Democratas no ano de 2016 e é uma das vozes mais sonantes de uma retórica anti-sistema, à esquerda até do seu partido.

Entre os dois representam consideravelmente aquilo que é a esquerda com expressão política actual — mainstream, se quiserem. Agora pretendem unir forças e materializar essa consonância com o lançamento de uma Frente Progressista Internacional, que albergue os vários movimentos de resistência ao autoritarismo, na sua óptica, representado por Donald Trump.

A ideia do lançamento da Frente Progressista Internacional surgiu há cerca de 2 meses mas à medida que se aproxima o seu lançamento, marcado para o dia 1 de Dezembro em Nova Iorque, as intenções vão sendo materializadas e ganham uma carga política ainda maior. O último movimento de relevo foi o convite endereçado a Fernando Haddad, o candidato do Partido Trabalhista derrotado por Jair Bolsonaro nas recentes eleições brasileiras.

As ideias base do seu movimento foram expostas em dois artigos publicados por Sanders e Varoufakis no jornal internacional The Guardian, que deram início à divulgação desta nova frente política. Em “A new autorithorian axis demands an international progressive front” (Um novo eixo autoritário exige uma nova frente internacional progressista) e “Our new international movement will fight rising fascism and globaslists” (O nosso novo movimento internacional vai lutar contra o fascismo emergente e os globalistas), Sanders e Varoufakis, respectivamente expõe as linhas programáticas que levaram à criação de uma frente comum – nas palavras de Varoufakis um New Deal Internacional Progressista.

Para Bernie Sanders, apesar das diferenças entre os vários regimes autoritários que vão sendo eleitos pelo mundo, existe muito em comum: hostilidade pelas normas democráticas, antagonismo face à imprensa livre, intolerância perante etnias e minorias religiosas e a ideia de que um governo deve ser egoísta financeiramente na gestão dos seus interesses. São essas características comuns que o democrata norte-americano procura confrontar.

“A verdade é que, seja como for, para nos opormos efetivamente ao autoritarismo de direita, não podemos simplesmente voltar ao status quo fracassado das últimas décadas. Hoje, nos Estados Unidos da América e em muitas outras partes do mundo, as pessoas trabalham mais horas por salários que estagnaram e temem que seus filhos tenham um nível de vida mais baixo do que eles. O nosso trabalho é lutar por um futuro em que as novas tecnologias e inovações funcionem para benefício de todas as pessoas, não apenas de algumas. Não é aceitável que o 1% mais rico da população mundial possua metade da riqueza do planeta, enquanto os 70% mais pobres da população em idade ativa representem apenas 2,7% da riqueza global.”

No seu extenso artigo de opinião publicado no The Guardian, Sanders elenca uma série de exemplos para si inaceitáveis do ponto de vista democrático, como os lucros milionários da indústria petrolífera pelo seu contributo para as emissões de carbono, a detenção dos pequenos media em grandes grupos controlados por milionários que controlam a circulação de informação no planeta ou que os países mais ricos do mundo gastem um total acumulado de 1 trilião de dólares por ano em armamento enquanto crianças morrem à fome.

Varoufakis faz o mesmo exercício; explicita porque se opõe a fascistas e à sua retórica populista capaz de polarizar e, de certo modo, manipular o debate eleitoral sujeitando-o a uma leitura maniqueísta ao estilo “nós contra eles”; e aos globalistas como Clinton ou Tony Blair por estarem demasiado comprometidos com os interesses financeiros globais, baseando-se na “falsa promessa de que toda a gente pode tornar-se melhor desde que nos sujeitemos ao comodismo”.

O grego é mais prático na abordagem à FIP, sugerindo como se pode operacionalizar:

“A nossa Internacional Progressista deve propor uma International Clearing Union (União Internacional de Compensação), como a que John Maynard Keynes propôs durante a conferência de Bretton Woods em 1944, incluíndo restrições bem desenhas aos movimentos de capital. Ao re-equilibrarmos os salários, as trocas comerciais e a finança a uma escala global, a imigração e o desemprego involuntário vão descrescer, fazendo diminuir o pânico moral sobre o direito humano de andar livremente pelo mundo.”

Numa das notas finais do seu artigo, Varoufakis apontava os potenciais instigadores deste movimento: Sanders e o seu momentum revolucionário, Corbyn nos trabalhistas britânicos, o próprio DiEM25 que terá nas Europeias de 2019 a sua primeira grande prova, o presidente recém eleito do México, Andrés Manuel López Obrador, também conhecido como AMLO, e os movimentos progressistas do Congresso Nacional Africano.