A dieta mata, as costas moem: qual é o estado da saúde no mundo?

Más notícias.

Foto de Shane Rounce via Unsplash

Temos más notícias. É isso que nos vem dizer o Global Burden of Disease 2017 (GBD 2017), a nova edição do relatório anual publicado pela revista científica Lancet sobre as principais causas de morte e de perda de qualidade de vida por doença no mundo inteiro. Desde que, há 10 anos, foi publicado o primeiro, tem sido possível observar enormes progressos na mortalidade e na melhoria da qualidade de vida das populações. Este ano, no entanto, as notícias perderam o tom animador que vinham tendo. Por pontos, elencamos algumas resposta do GBD2017 a perguntas comuns:

Quantas pessoas morrem no mundo? Quais são as grandes causas?

O professor Sobrinho Simões, famosíssimo patologista português e Prémio Pessoa, queixa-se regularmente que os portugueses não conhecem os grandes números. Um deles é o da mortalidade. Afinal, quantas pessoas morrem por ano? Morreram 180 mil pessoas por esteatose hepática (vulgo, fígado gordo) não-alcoólica – é muito ou pouco?

Em 2017 morreram cerca de 56 milhões de pessoas (entre 55,5 e 56,5, para ser mais exacto). Destas, a maior parte morreu pelas chamadas doenças não transmissíveis, conhecidas no meio como NCDs (Non-Communicable Diseases) – 44 milhões de mortes, divididas entre doenças cardiovasculares (18 milhões), cancro (10 milhões), e algumas outras. As causas de morte relevantes e não relacionadas com doença são os acidentes rodoviários (1,2 milhões), quedas e afogamentos (1 milhão), violência interpessoal (400 mil) e conflitos e terrorismo (130 mil).

Outra estatística curiosa é a estimativa de anos de vida perdidos. Morrer aos 20 ou aos 80 é diferente, e esta estatística pretende representar as doenças tendo isso em conta. Neste campeonato, as doenças maternas e infantis e os acidentes e a violência ganham um peso maior, apesar de as NCDs continuarem a liderar a tabela em termos absolutos. Em 2017, em todo o mundo, perderam-se 1,6 mil milhões de anos.

Quais as principais alterações? (dados sobre mortalidade ajustados para a idade)

Primeiro, as boas notícias. A mortalidade por VIH desceu 57% desde 2007; a mortalidade por défices nutricionais (vulgo, morrer à fome) diminuiu 34%; e a mortalidade causada por doenças infecciosas, sobretudo pela doenças tropicais negligenciadas – doenças que, como o nome indica, recebem muito pouca atenção por parte dos agentes de saúde, diminuiu 36%. As doenças materno-infantis, responsáveis por uma enorme quantidade de anos de vida perdidos, também diminuíram 27%.

Do outro lado às más; as doenças mentais, com um aumento de 7,5%, as doenças de pele e subcutâneas, com um aumento de 8,1%, e o abuso de substâncias, com um aumento de 2%.

A imagem abaixo ajuda a perceber alguns dados muito interessantes sobre as tendências entre 2007 e 2017. Podemos analisar as variações na mortalidade por várias causas decompostas em alterações provocadas pelo aumento da população, alterações pelo envelhecimento da população, e alterações que resultam realmente de um aumento da doença. Isto porque, se a população se expande e envelhece, é muito natural que determinadas doenças vejam o seu número de ocorrências aumentar, sem que isso se traduza necessariamente em dificuldades no seu combate.

Perante isto, podemos ver claramente que, dos grupos de causas ilustrados, só há dois que aumentam a mortalidade independentemente do envelhecimento e expansão populacionais: o abuso de substâncias e as doenças de pele e subcutâneas.

E a esperança média de vida?

A esperança média de vida (EMV) à nascença tem vindo a aumentar consistentemente, e a previsão que os autores fazem para 2040 é de um aumento de 4,4 anos relativamente à verificada em 2016. Também se prevê que este aumento ocorra sobretudo nos países que hoje têm a EMV mais baixa, diminuindo assim as desigualdades em saúde gritantes que se podem verificar no mundo. Nos países mais desenvolvidos, prevê-se que a EMV esteja a chegar a um plateau, podendo até vir a descer ligeiramente em alguns deles – as melhorias “fáceis” já foram todas implementadas, e a prossecução de uma EMV crescente passaria agora pela eliminação de factores de risco intimamente ligados aos estilos de vida (tabaco, sal e açúcar, consumo de carnes vermelhas e gorduras, sedentarismo, poluição ambiental, stress, etc.).

Uma imagem que ajuda a perceber o aumento da esperança média de vida é esta, que apresenta a idade a que ocorrem as mortes no mundo. O que podemos ver é que cada vez morre menos gente pertencente aos estratos etários mais baixos (primeiros anos de vida), e cada vez morre mais gente na sua nona e décima décadas.

Se conseguimos tratar a grande maioria das doenças com cada vez maior sucesso, quais são as más notícias?

Tal como antecipado acima, o estudo prevê que 3 dos 5 principais riscos para a saúde – hipertensão arterial, IMC (índice de massa corporal) elevado e glicose no sangue em jejum elevada (indicador relacionado com a diabetes) – irão ter efeitos 2,6 vezes maiores nos anos de vida perdidos. Só com medidas de saúde pública ambiciosas (e, de forma algo discutível, intrusivas nos estilos de vida) podemos combater algum do avanço destes factores de risco.

Há também o risco de termos o regresso de algumas doenças. A quebra das taxas de cobertura vacinal é um perigo latente nas sociedades ocidentais; se, há uns anos, se falava da forma de aumentar a cobertura na África subsaariana e no sudeste asiático, hoje é preciso também perceber o que está a falhar na Europa e em algumas outras regiões onde o problema parecia resolvido. Algo de semelhante pode ser dito, por exemplo, para o HIV, que precisa de maiores gastos para que possa ser mantido como uma doença crónica sem grandes limitações aos estilos de vida.

Outro dos problemas que o GBD nos apresenta é o crescimento acelerado de causas de morte “humanas”, isto é, decorrentes de problemas sociais, e não da biologia. As mortes causadas pelos conflitos armados e pelo terrorismo viram um aumento de 118% entre 2007 e 2017, e a dependência de opióides também se tem tornado um grave problema de saúde pública.

Fazendo a ligação entre este relatório e as metas estabelecidos pelas Nações Unidas, no âmbito dos Objectivos para o Desenvolvimento Sustentável (SDG), o panorama é desesperante. O GBD 2017 estima que nenhum país se encontra bem colocado para cumprir as metas em 2030. Os índices com piores perspectivas são, entre outros, a desnutrição infantil e a redução de mortes por violência. O Institute of Health Metrics Evaluation tem uma ferramenta digital brilhante para acompanhar estes indicadores, que pode ser consultada aqui.

E Portugal?

Ora então aqui vai uma coisa rara: Portugal é um exemplo no aumento da esperança média de vida (EMV) dentro do grupo dos países com elevados rendimentos. Prevê-se que a EMV suba 3,5 anos até 2040.

Não interessa apenas viver mais tempo; será que o vivemos de forma saudável? Entre 2007 e 2017, houve um crescimento maior da EMV que dos anos que vivemos de forma saudável, o que quer dizer que vivemos também cada vez mais anos com doença.

Relativamente ao cumprimento dos SDG, Portugal está no quarto superior da tabela, mas tem ainda graves deficiências ao nível da obesidade infantil, do consumo de álcool e de tabaco, da incidência de VIH, e também dos riscos laborais/ocupacionais para a saúde. Dos 25 objetivos, estima-se que Portugal cumpra 8, sendo que o país que mais objetivos cumprirá, segundo esta previsão, será o Luxemburgo, com 11.

Relativamente ao panorama epidemiológico em Portugal, o Expresso traz esta semana um bom artigo sobre o relatório, assinado pela Vera Lúcia Arreigoso. As demências e as doenças mentais tiveram um aumento significativo em Portugal, bem como as mortes devido a complicações da hipertensão. O combate ao cancro está bem encaminhado, com um sucesso cada vez maior na transformação desta doença, anteriormente muito mortal, numa doença crónica a ser gerida ao longo de muitos anos. Aliás, são já muitas as pessoas que vivem tempo suficiente para ter um novo cancro – dito assim, parece muito pouco positivo, mas a verdade é que é prova de sucesso da medicina no tratamento da doença à sua primeira aparição.