Google está a criar um motor de busca filtrado, só para a China. Uns estão contra, outros não

Internamente questiona-se a ética do projecto Dragonfly da Google.

Foto de Hanson Lu via Unsplash com alteração Shifter

Em 2010, a Google decidiu encerrar o seu motor de busca na China alegando censura e intrusões de hackers. “A Google violou a promessa escrita que fez quando entrou no mercado chinês ao parar de filtrar o seu serviço de pesquisa e ao culpar a China insinuando alegados ataques de hackers”, respondeu, na altura, o Governo chinês. Oito anos depois, a gigante norte-americana quer voltar à China com um motor de busca próprio, preparado para a política de censura online que existe naquele território. Mas parte dos funcionários da Google está contra.

Uma história que começa em Agosto

Em Agosto, o The Intercept revelou, com base em documentos internos e pessoas familiarizadas com os planos da empresa, que a Google montou equipas de programadores e engenheiros para trabalharem numa aplicação de pesquisa que respeite as directrizes do Partido Comunista de Xi Jinping quanto ao conteúdo que pode ou não ser acedido naquele país. “O projecto – baptizado de Dragonfly (Libélula) – está em andamento desde o primeiro semestre do ano passado e acelerou após o encontro, em Dezembro de 2017, entre o CEO do Google, Sundar Pichai, e um alto funcionário do governo chinês”, escreveu aquele jornal.

O Governo chinês já teria visto a aplicação desenvolvida pela Google, estando, à data de 1 de Agosto (quando o The Intercept revelou o projecto), previsto o lançamento do serviço “dentro dos próximos seis a nove meses, dependendo da aprovação de autoridades chinesas”. Ou seja, se tudo tiver decorrido como previsto faltarão por esta altura dois a cinco meses para a versão final do Dragonfly estar pronta.

A Grande Firewall da China, isto é, a muralha de censura chinesa, impede que determinados sites e conteúdos online possam ser acedidos naquele país oriental. Conteúdos sobre oponentes políticos, liberdade de expressão ou sexo, estudos académicos, referências anti-comunistas, informações sobre o massacre da Praça Tiananmen em 1989, e livros como o 1984 de George Orwell que retratem negativamente governos autoritários são alguns exemplos das limitações da “Internet chinesa”. Serviços como o Instagram, Facebook e Twitter, e órgãos de comunicação norte-americanos como o New York Times também não podem ser acedidos. E o Google Search saiu da China em 2010.

As primeiras contestações

Quando o The Intercept denunciou o Dragonfly em Agosto já tinha dado conta de alguma contestação interna em relação aos planos da Google. “Eu sou contra grandes empresas e governos colaborarem na opressão de seu povo”, referiu em anonimato uma fonte próxima do projecto, que terá sido mantido em segredo entre apenas algumas centenas de funcionários da empresa. Depois das revelações do The Intercept, cerca de 1400 trabalhadores da Google assinaram uma carta interna a pedir mais transparência quanto ao Dragonfly, nomeadamente quanto às implicações éticas do mesmo. Mas não se ficaram pela carta: internamente terão existido outras pressões direccionadas aos executivos da tecnológica. De acordo com o New York Times, o CEO da Google, Sundar Pichai, e Sergey Brin, co-fundador da gigante norte-americana, chegaram a responder a algumas dúvidas dos funcionários mas pararam de o fazer quando começaram a ver as suas palavras publicadas no Twitter.

Já em Outubro, uma apresentação de um grupo de trabalho da Google com o propósito de investigar consequências sociais dos produtos e serviços da tecnológica foi leakada pelo site Breitbart News. O documento descrevia a importância da liberdade de expressão, traçava um panorama global da censura online e examinava a resposta das empresas de tecnologia a essas temáticas. Este leak trouxe naturalmente o assunto do Dragonfly de novo para a ordem do dia.

Carta aberta contra, 400 assinaturas

Agora, na recta final de Novembro, o Dragonfly volta a fazer correr tinta com um grupo de funcionários da Google a publicar uma carta aberta no Medium, na qual pedem que a empresa cancele o projecto, como fez em Junho com o Maven. Temem que o Dragonfly vá favorecer a censura online e a desinformação por parte de entidades governamentais, nomeadamente a chinesa, podendo também ser um precedente para outros territórios. “Dada a supressão, por parte do Governo chinês, de vozes dissidentes, tais controlos seriam provavelmente usados para silenciar pessoas marginalizadas e favorecer informações que promovam interesses do Governo”, pode ler-se na referida carta. “A nossa oposição ao Dragonfly não é só sobre a China: opomo-nos a tecnologias que ajudem os poderosos a oprimir os vulneráveis, onde quer que eles estejam.”

Carta privada a favor, 500 assinaturas

Publicada com apenas 11 assinaturas, a carta aberta conta agora com mais de 400. No entanto, nem todos os trabalhadores da Google estão contra o Dragonfly. Uma outra carta, esta privada, obtida pelo TechCrunch, tem estado em circulação dentro da tecnológica e junta mais de 500 assinaturas: “O Dragonfly está bem alinhado com a missão da Google. A China tem mais utilizadores de Internet que qualquer outro país do mundo e, no entanto, a maioria dos serviços do Google não está disponível na China. Essa situação contradiz fortemente a nossa missão: ‘organizar as informações do mundo e torná-las universalmente acessíveis e úteis’.”