O que é a Initiative Q, que ninguém percebe mas muitos partilham na esperança de lucrar

Uma criptomoeda? Um esquema de pirâmide? A oportunidade de uma vida? Quisemos saber mais sobre a Initiative Q.

Às primeiras pessoas que publicavam nas redes sociais a oferecer convites para a IniativeQ dava para escapar com um simples scroll. Um dia ou dois depois, os posts com esse teor multiplicam-se e adensam a dúvida sobre o que é afinal esta Initiative Q criada por um dos fundadores do PayPal ou que, pelo menos, assim se apresenta nos vários posts nas redes sociais.

Uma coisa é certa, na semana em que a Bitcoin celebra os seus 10 anos, vimos emergir mais um viral com a promessa de ser um novo sistema de pagamento. Mas afinal o que define este novo sistema de pagamento e como é possível que sem nos pedir nada em troca possa vir a revelar-se como algo benéfico? Quem é este fundador do PayPal? O quê? Como? Quem?

A mensagem das partilhas é quase sempre a mesma: “A InitiativeQ está construindo uma nova rede de pagamento e distribuindo consideráveis somas de sua futura moeda aos primeiros adeptos. É necessário ter convite para participar, e eu tenho um número limitado de convites. Meu link pessoal de convite.” Cada registo tem direito a 5 convites, que pela escassez aparente levam os detentores a publicita-lós de forma efusiva como se se tratasse de algo único, fazendo lembrar por exemplo à loucura dos convites para a rede social Ello e dando popularidade nas redes a um esquema sobre o qual pouco sabem ou procuram saber.

A arrematar tudo isto está a promessa de retorno futuro, como o seu fundador referia num email enviado à Financial Times  “o equivalente a ter recebido bitcoins há 7 anos atrás”; nos primeiros e-mails surgia a menção a valores como 170 mil dólares, nos últimos o valor já baixou para metade.

Mas o que torna este serviço diferente ou credível dos esquemas, scams ou spams, e digno do investimento dos nossos dados são as perguntas que ficam quase sempre por responder, mascaradas pelo entusiasmo de poder estar a participar na next big thing da internet.

Fundador do PayPal? Quem?

Como se pode ler no site, a IniativeQ é uma empresa fundado pelo serial entrepreneur Saar Wilf. A sua ligação ao PayPal resulta de ter sido fundador da Fraud Sciences, uma start-up especializada em segurança de pagamentos que fora adquirido pelo PayPal quando este ainda fazia parte do eBay.

O outro elemento chave nesta equipa é Lawrence H. White, um economista proveniente da Universidade George Mason e com nome firmado com papers e livros publicados sobre teoria monetária e defesa da banca livre.

Os demais elementos são por enquanto desconhecidos e possivelmente inexistentes. Lê-se no ‘Sobre’ da empresa que só depois de criada a base de utilizadores que torne o negócio rentável a empresa contratará especialistas em sistemas de pagamento, macroeconomia e tecnologias da internet.

Therefore, our primary focus is to get millions of Q members registered, after which we will continue recruiting the world’s top professionals in payment systems, macroeconomics, and Internet technologies.

Convidar pessoas faz do esquema pirâmide?

Sempre que há o risco de a coisa ser burla surge-nos na cabeça o esquema da pirâmide e levantam-se as nossas defesas nesse sentido, levando-nos a limitar a nossa procura de elementos estranhos àqueles que possam indiciar a forma piramidal da coisa. Neste caso, onde a entrada é gratuita, é evidente que não estamos perante um esquema clássico de pirâmide; em vez disso, pelo que é possível perceber, estamos perante um modelo de lançamento semelhante ao das criptomoedas que procuram primeiro intervenientes na sua rede — early adopters — e só depois partem para o lançamento público.

A diferença aqui é substancial e prende-se com o tipo de moeda que estamos a falar. Apesar de as promessas serem várias no site não há uma explicação clara do que torna esta moeda ou esta rede de pagamentos especial. À partida parece uma moeda privada, detida e emitida pela empresa privada Iniative Q, portanto os early adopters não poderão ocupar outro espaço na rede que não o de consumidores ou traders.

O papel das pessoas na fase inicial do sistema parece ser simplesmente fazer número para que o negócio se torne credível e os seus responsáveis consigam assim convencer alguém a investir nele.

No buyer wants to join a new network with no sellers, and no seller will offer a payment option that no buyer uses.

As contas feitas ao sucesso da empresa partem dessa estimativa e todo o discurso o deixa bem claro: a plataforma precisa de milhões de utilizadores para arrancar.

Mais uma criptomoeda? Ou mais uma moeda normal?

Nop, a Initiative Q não é mais uma criptomoeda. Apesar de surfar a mesma onda de entusiasmo e ter todas as características que identificamos neste sector — até o nome pode soar como tal —, os Q não são cripto-tokens, isto é, unidades financeiras validadas e validáveis por um algoritmo numa rede descentralizada. Em vez disso, pelo que se pode perceber, são tokens controlados por uma entidade central. Mas isso não é estranho? Confiar numa empresa desconhecida para ser central num sistema financeiro? — podias perguntar tu. Yup, parece um bocado; e a informação disponível não é assim tão suficiente.

É como uma profecia auto-confirmatória. Enquanto milhões se juntam, as tecnologias de pagamento avanças são disponibilizadas, o sistema de pagamentos torna-se mais popular, a moeda Q torna-se valiosa e as recompensas dadas aos primeiros utilizadores atingem o seu valor potencial.

Ok, cool, mas no meio de tanta promessa continuam a surgir as dúvidas sobre quem garante a neutralidade do sistema, mesmo depois de garantir a sua independência dos estados. Se as cripto contribuíam positivamente para este avanço, ao delegarem as principais decisões à rede e ao envolver os utilizadores na mineração de novos tokens, a Iniative Q não parece tão user-based, nem algorhytmic-based, digamos assim.

A Iniative Q terá um comité monetário que será independente da empresa Iniative Q, aponta por voto dos acionistas da Rede de Pagamentos Q. O comité está encarregue de definir e gerir a política monetária: determinando quantos Qs devem se adicionais ou retirados da circulação e através de que mecanismo.

Tendo consideração pelo que se pode ler e apenas por isso, percebe-se que a gestão da moeda ficará a cargo de um grupo privado, escolhido pelos acionistas da empresa, que analisarão o mercado determinando se se deve criar ou queimar moeda para manter o seu valor. Quanto ao que distingue este sistema do tradicional, não há grandes dados concretos que permitam entender as promessas.

Now imagine this system created a dedicated global currency. Let’s call it Q. According to economic models, the value of all Qs would be several trillion dollars.

Os dados eram valiosos e agora damo-los de borla?

Este é mais um caso em que os nossos dados ganham papel central. Apesar de não nos ser pedido nada de extraodinário, a promessa desta empresa parece só ser viável se confirmar a criação de uma gigante base de dados.

Então porque não temos já um novo e melhor sistema? Porque há uma barreira do ovo e da galinha — nenhum comprador quer entrar numa rede sem vendedores, e nenhum vendedor vai oferecer um sistema de pagamento que nenhum comprador usa.

O próprio modelo de valorização da moeda recai sobre a criação de uma base de potenciais compradores e vendedores antes da criação do sistema. Esta prática é similar à dos ICOs, que, geralmente resolvem a ambiguidade e incerteza com um whitepaper onde explicam o que distingue a sua tecnologia e um roadmap objectivo que permita prever. Aqui, por mais que se leia, tudo leva à ideia de que se pretende criar uma moeda única, global e digital, governada por uma entidade central e que pela sua ubiquidade se tornará valiosa — resta saber como mantém a sua independência e evita viés políticos ou de outros tipos de poder.

O jornalista David Gerard, dedicado à análise do mundo das criptomoedas, vai mais longe e aponta a possibilidade de este esquema ser uma forma de aglutinar e-mails de quem cai na promessa do dinheiro fácil. De resto, a simples ligação entre o site e os track managers — lembrem-se que estão a seguir um link provavelmente do Facebook — pode dar pistas a estas redes de anúncios sobre o nosso comportamento digital e tendência para acreditar em promessas do género.

Apesar de a política de privacidade referir que os dados não serão utilizados por terceiros, existe sempre a sombria possibilidade de a empresa ser vendida e com ela as massivas bases de dados.

A conclusão possível

Atendendo à informação disponível, não é fácil tirar grandes conclusões. Certo é que este movimento de marketing da Iniative Q lhe valeu a viralidade e alguns soldados do spam a profetizar uma promessa que provavelmente não perceberam muito bem. Não é certo que seja um esquema mas também não é certo que seja a próxima grande cena — aliás, nada é certo neste negócio, nem mesmo a sua continuidade.

Initiative Q precisa de muitos utilizadores comprometidos para garantir uma rede significativa de compradores e vendedores. Se uma massa crítica não for atingida o projecto pode não ir para a frente.

A forma como o negócio — chamemo-lhe assim, sem conotação pejorativa — está pensado só funciona se atingir a tal ubiquidade. Só garantindo um volume de transações elevadíssimo nesta moeda única os seus criadores conseguirão criar retorno no sistema e tornar toda esta aventura lucrativa. E tudo isto faz sentido na teoria, precisando de se provar na prática… uma prática inexistente a menos que a escala seja atingida. A tal self-fullfiling prophecy.

O spam foi de tal ordem que nos vimos motivados a saber um pouco mais; acabamos a pesquisa sabendo mais ou menos o mesmo, mas com pelo menos mais evidências que permitem a cada um decidir com mais consciência se é este tipo de iniciativa que pretende apoiar e quanto valoriza a inclusão/exclusão dos seus dados pessoais em bases de dados do género.

Como termina o Digital Spy no seu artigo:

But the ultimate question on many people’s lips is: is Initiative Q real or fake?

Short answer – we have absolutely no idea.