Lime prevê usar realidade aumentada para tirar as suas trotinetas dos passeios

Câmaras colocadas nas trotinetes poderão detectar se estas estão a circular ou paradas em passeios em tempo real.

Desde que as trotinetas da Lime chegaram a Lisboa, no mês passado, queixas sobre pessoas circularem nestes veículos nos passeios ou os estacionarem a perturbar a circulação de peões têm ecoado em comentários nas redes sociais e gerado desabafos na rua. Afinal de contas, apesar de carros mal estacionados serem um problema maior na ruas em Lisboa, os utilizadores do serviço da Lime só podem circular na estrada e em ciclovias, e devem tomar cuidados quando largam as trotinetas, devendo deixá-las num dos 90 pontos identificados ou num local que não atrapalhe o trajecto de quem anda a pé.

Dado que é impossível vigiar individualmente os utilizadores da Lime, a empresa norte-americana aposta na responsabilidade de cada um. As regras são apresentadas aquando do registo na app e, no final de cada viagem, os utilizadores têm de tirar uma fotografia à trotineta estacionada, o que serve de forma de fiscalização. A empresa diz que vai começar a avisar os utilizadores que não cumpram as regras e, no caso de repetição da falha, poderá suspender a conta e aplicar uma multa, algo que está, aliás, previsto nos termos e condições do serviço.

No entanto, a Lime poderá ter outra ideia para tirar as trotinetas dos passeios: realidade aumentada e mapeamento 3D. Ao TechCrunch, o vice-presidente de expansão global, Caen Contee, revelou que a empresa está atenta à tecnologia de uma firma chamada Fantasmo, e não só, que diz que pode servir para “impulsionar a mudança de comportamento no que diz respeito às trotinetas de maneira escalável e com pouca infra-estrutura”.

Criada em 2014 e originalmente focada em jogos de realidade aumentada (AR), a Fantasmo já angariou cerca de 2,2 milhões de dólares desde então com o propósito de criar um mapa 3D, descentralizado e em código aberto, do mundo – que poderá ajudar carros sem condutor, robôs e jogos AR a compreender o mundo em seu redor, e a saber exacta e precisamente onde se encontram. O trabalho que a Fantasmo tem vindo a desenvolver pode também aplicar-se ao mundo das trotinetas. A invasão dos passeios por estes veículos não é uma realidade exclusiva de Lisboa, mas um problema que tem afectado também outras cidades, como Los Angeles ou Paris, levando a um maior aperto das autarquias locais, que aplicaram restrições ao serviço já em operação ou antes de este ser disponibilizado. Em vez de sensores LIDAR, que usam a reflexão da luz e que são caros, a Fantasmo recorre a câmaras 2D simples com o software certo para posicionamento de objectos.

A Fantasmo diz está a desenvolver o Camera Positioning Standard, ou CPS, cujas aplicações se alargam para além das trotinetas. A empresa propõe câmaras 2D nos veículos capazes de captar vídeo e de em tempo real comparar essas imagens com o mapeamento prévio; identifica-se, assim, se as trotinetas estão a ser conduzidas ilegalmente num passeio ou paradas no meio do nada, podendo, por exemplo, além das multas ou suspensões de contas, fazer os veículos em incumprimento apitar ou desacelerar em tempo real. A tecnologia da Fantasmo poderá ainda ajudar operadores como a Lime tornar mais precisos os mapas das cidades onde é possível visualizar as trotinetas disponíveis.

“A captação de imagens 2D pode ser aproveitada para construir mapas semânticos 3D das cidades e dar uma posição hiper-precisa da trotineta”, escreve Jameson Detweiler, co-fundador da Fantasmo, no Medium. “O chamado posicionamento visual é mais preciso do que o GPS e tem precisão de centímetro em ambientes urbanos densos – um ambiente notoriamente ruim para o GPS. O posicionamento visual é preciso o suficiente para que uma trotineta possa saber quando está numa zona proibida, mesmo que a zona seja tão larga quanto um passeio.”

Como escreve o TechCrunch, a Lime poderá ter vantagens em usar a tecnologia da Fantasmo em vez de criar as suas próprias câmaras, não só por a Fantasmo já ter largos anos de experiência, como a qualidade do seu mapeamento 3D resulta da colaboração de todos os clientes da firma: os dados recolhidos pelas câmaras de uns – por exemplo, sobre o trânsito ou as condições das estradas – são utilizados para actualizar os mapas de que todos beneficiam através do CPS. A Fantasmo diz que o GPS não vai ser suficiente para a nova era da “web espacial”, em que a “realidade aumentada estará em todos o lado, os robôs vivem e trabalham ao nosso lado e as trotinetes fazem parte do dia-a-dia das nossas vidas”.