Países mais desenvolvidos têm falta de ambição para travar o aquecimento global

Aqui incluem-se países como a China, a Rússia, o Canadá e alguns dos países mais desenvolvidos do continente Europeu.

Foi publicado recentemente, no jornal de ciência Nature, um estudo que avalia a relação entre a ambição que cada nação mostrou, no Acordo de Paris, em reduzir as emissões de gases de efeito de estufa e o aumento de temperatura que resultaria se o mundo seguisse o seu exemplo.

Levado a cabo por Yann Robiou du Pont e Malte Meinshausen, o estudo revela que os países desenvolvidos que se comprometeram em assumir a liderança na redução de emissões e na mobilização de recursos financeiros para os países em desenvolvimento frequentemente submeteram Contribuições Definidas Nacionalmente (CDN) que não correspondem aos conceitos de equidade que apoiaram publicamente. Estas CDN implicam, regularmente, um status quo em termos globais de emissões, enquanto a maioria das contribuições mais ambiciosas são de países menores em desenvolvimento (o que pode ser explicado, em parte, com o facto de terem menos fábricas, carros e estações de energia, pelo que têm, consequentemente, menos emissões para suprimir).

Como se pode observar nos mapas que acompanham o estudo, os principais exportadores de energia não estão a fazer praticamente nada para limitar as emissões de dióxido de carbono. Aqui incluem-se países como a China, a Rússia, o Canadá e a Arábia Saudita, por exemplo. Assim, se o resto do mundo seguisse o exemplo de um destes, o aumento de temperatura seria superior a 5,1ºC, no final do século.

A que nível de aquecimento global corresponde a ambição de cada país?

Os países ricos da Europa posicionam-se ligeiramente melhor que os EUA, o que acontece, em grande parte, porque as emissões dos produtos são calculadas na fonte de manufactura e não no ponto de consumo. Ainda assim, as suas acções ficam muito aquém das promessas feitas, mesmo quando estes são considerados líderes na luta contra as alterações climáticas.

Na verdade, sob o Acordo de Paris não há um consenso de cima para baixo acerca do que é uma parcela justa de responsabilidade. Em vez disso, cada nação estabelece as suas próprias metas de baixo para cima, de acordo com vários factores diferentes que incluem vontade política, nível de industrialização, capacidade de pagamento, tamanho da população e responsabilidade histórica pelas emissões, o que faz com que quase todos os governos selecionem uma interpretação de equidade que serve os seus próprios interesses e que lhes permite obter um ganho relativamente a outras nações.

Isto foi tido em conta no estudo, claro, e os autores dizem que conseguiram “operacionalizar as discordâncias” avaliando cada país pelos padrões menos rigorosos que eles mesmos definem e, em seguida, extrapolando isso para o mundo. Assim, tendo em consideração as várias interpretações do que cada país considera justo para si, os autores dizem que todos os estes precisam de se comprometer com um objectivo virtual de 1,4ºC para que, no final do século, a temperatura global não aumente em mais de 2ºC.

“O resultado positivo deste estudo é que temos uma métrica para avaliar o aumento da ambição. A sociedade civil, especialistas e os decisores podem usar isto para responsabilizar os seus governos e, possivelmente, proceder com casos de litígio climático, como aconteceu recentemente na Holanda.”, disse Robiou du Pont. Esta métrica traduz a falta de ambição à escala global em escala nacional. Se olharmos para o objectivo de tentar evitar causar danos à Terra, então estou pessimista, pois isso já está a acontecer, mas isto deve ser uma motivação para aumentar a ambição e evitar o aquecimento global o mais rapidamente possível. Cada fracção de um grau terá um grande impacto.”.

É de notar que alguns sectores importantes, como o transporte marítimo internacional, a aviação e a exploração de zonas que levam à desflorestação em países como o Brasil, a Argentina e a Indonésia, não foram considerados neste estudo.