Pussy Riot: arte ou filosofia prática? A grande questão do 1º dia do Fórum do Futuro

Há mais em comum entre as Pussy Riot e Sócrates do que possamos imaginar.

Foto de José Caldeira/DR

Pensar no futuro ou até mesmo no presente com uma perspectiva inovadora traz-nos à mente dezenas de imagens — das principais metrópoles aos aparatos mais espectaculares — mas muito dificilmente uma dessas associações é com a antiguidade clássica e a tradição grega. Esse foi, no entanto, o tema escolhido como ponto de partida para a edição de 2018 para o Fórum do Futuro a decorrer na cidade do Porto e, face ao desafio, a sessão de abertura mostrou-nos que, de facto, existem relações mais estreitas do que aquelas que a nossa imaginação alcança.

O acto mais longo, protagonizado por Nadya Tolokonikova, foi o principal momento desta demonstração mas só depois de pré-estabelecido o mindset em duas apresentações mais curtas e de expressão artística mais abstracta. A sessão começou com uma apresentação do artista libanês Ali Cherri em que a lama serviu de metáfora e fio condutor entre realidades distintas e distantes, aludindo à expressão bíblica “Do pó vieste e ao pó retornarás” a que se seguiu uma pequena curta metragem de apenas 5 minutos do artista chinês Guan Xiao.

Para o final ficara o nome mais aguardado e a co-fundadora do movimento artístico de oposição ao establishment russo não desiludiu. Num acto sub-dividido em três cenas foi logo de início que lançou as bases de resposta à questão que se impunha: que raio tem um grupo de activistas com tendência punk a ver com a antiguidade grega?!

Nadya Tolokonikova subiu ao palco de balaclava branca e em vez de começar por situar o grupo, explicitar a sua relação com o tema ou de se debruçar sobre os seus feitos, a activista começou por mostrar um video da performance The Mad Dog or Last Taboo Guardered de Alone Cerber — que, permitam que acrescente, inspirou a inesquecível perfomance do filme The Square.

Depois do choque provocado pela perfomance que, de certo modo, ajudou a desconstruir algumas ideias pré-concebidas para a talk, Nadya voltou a evocar os filósofos gregos — de Pitágoras a Sócrates. Com uma série de exemplos, procurou demonstrar como a filosofia nesse tempo, e como ficou para a história, era sobretudo uma prática e não uma teoria. E com isto quis dizer que nem sempre o mais relevante é o resultado final mas sim o método que se usou para lá chegar. Algo que, como Nadya sublinhou, se verifica até aos dias de hoje. Como nos lembrou, conhecemos Sócrates pela dúvida, Hegel pela dialética, Nietzsche pela genealogia.

Neste ponto, o cruzamento com o mundo da arte tornava-se fácil de antecipar mas não ao ponto que Nadya fez questão de mostrar. A russa que esteve presa durante dois anos numa sweatshop — campo de trabalhos forçados — por tocar 40 segundos de punk no altar de uma igreja veio até ao Porto para dar a conhecer o método da escola do Moscow Actionism, os pais da sua filosofia; juntou à referência de Kulig nomes como Anatoly Osmolovsky e Alexander Berner. É que apesar da sua mediatização e culto além-fronteiras, foi a própria a dizer que na Rússia se sente um bebé com muito por aprender.

Foto de José Caldeira/DR

Vinda de um país com uma história e um contexto bastante diferente do nosso, em que Putin marca historicamente grande parte do período de transição para o capitalismo com o seu governo altamente criticável, a activista não se dispôs muito a falar sobre o assunto directamente. Cá está, para si o que importa sublinhar é o método ou, de um modo mais lato, o processo. Porque é aí que verdadeiramente se questiona como tudo acontece e se obtêm os melhores resultados: Para Nadya, por exemplo, isso é ver uma geração de jovens russos que mesmo não gostando das suas perfomances despertaram para o escrutínio da política e da justiça ao ver que alguém estava preso por 40 segundos de punk.

A relação da artista com os filósofos da Grécia antiga veio a propósito mas não foi de todo encenada. Nas carta enviada a Zizek enquanto estava na prisão em 2012, já Nadya citava Heráclito.

This world has been and will eternally be living on the rhythm of fire, inflaming according to the measure, and dying away according to the measure. This is the functioning of the eternal world breath.

Subjacente, ou consequente, a toda esta complexa associação de ideias está uma visão central da arte, como explicara em palco mas já na carta mencionava.

We are the rebels asking for the storm, and believing that truth is only to be found in an endless search. If the “World Spirit” touches you, do not expect that it will be painless.

Para Nadya e a escola do Russian Actionism, a arte é mais do que um elemento decorativo, tipificado e tipificável, é um instrumento de questionamento e portanto uma forma de prática filosófica potencialmente revolucionária, como fora a de Sócrates, o filósofo que conhecemos não pelo que escreveu mas pelo que de si foi escrito por Platão, Xenofonte e Aristófanes.