Sara: a série que pôs a televisão a rir de si própria

O cinema juntou-se à televisão para contar a história de uma actriz de cinema que decide tentar o mundo das novelas.

Beatriz Batarda, Sara na série da RTP
Beatriz Batarda no papel de Sara

Uma série que estreia os dois primeiros episódios no IndieLisboa já entra em destaque. Mas antes disso, na génese da diferença, esteve o génio de Bruno Nogueira, que com a ajuda de Marco Martins e de Ricardo Adolfo (escritor que colaborou com o realizador em São Jorge) decidiu brincar com os clichés daquilo que os três fazem da vida. O cinema juntou-se à televisão para contar a história de uma actriz de cinema que decide tentar o mundo das novelas. A eles juntou-se Beatriz Batarda que, de um jeito quase biográfico, interpreta a angustiada mas ousada Sara que dá nome à série.

A presença de Bruno Nogueira na equipa de criadores poderia levar a adivinhar um tom obviamente cómico no argumento, mas é precisamente o equilíbrio entre a comédia e alguns momentos mais dramáticos e a proporção de situações vulgares para cenas mais nonsense que fazem de Sara um dos produtos televisivos do ano.

Na vida de Sara Moreno há uma melhor amiga lésbica que vota Bloco de Esquerda e a critica por se mandar ao circo das telenovelas, um pai doente, um terapeuta excêntrico e vigarista, um vizinho que também é amigo colorido, uma actriz geração Morangos com Açúcar para lhe explicar como funciona o mundo da representação em TV que ganha dinheiro com posts de Instagram e um actor com quem contracena que a tenta seduzir. E se tudo isto são caricaturas perfeitas de figuras que já vimos existir algures e, por isso, retratam situações corriqueiras, Sara tem também um agente tipo grilo falante, que nos parece que mais ninguém vê, a não ser a própria – Mr. Robot much? É com a personagem de Albano Jerónimo e a abertura que deixa para metáforas e segundas interpretações, que o argumento mostra a sua dificuldade, no bom sentido.

Se Beatriz Batarda parece ter sido feita para o papel, tanto quanto o papel foi feito para ela, Inês Aires Pereira e Nuno Lopes interpretaram na perfeição o boneco dos outros dois actores na história. Como de todas as vezes que participou em ideias de Bruno Nogueira (e de Marco Martins, na verdade), Nuno Lopes transforma-se de tal forma que não há como não acreditar que é a pessoa que vemos no ecrã. Em Sara, é João Nunes, um player preocupado com o aspecto físico mas sempre pronto a filosofar sobre a vida, que viu a popularidade da personagem extravasar a série, com a conta de Instagram onde relata o seu dia-a-dia de “namoradinho de Portugal”.

Não queremos desvendar de mais. Se pouco sabes sobre a série, para já basta que saibas que a Sara é uma actriz com carreira feita no cinema e no teatro, com cartas dadas internacionalmente, conhecida pela sua capacidade para desempenhar papéis dramáticos. A sua vida dá uma volta quando, certo dia, deixa de conseguir chorar. É aí que decide experimentar as telenovelas, entrar no mundo das redes sociais e tentar ser patrocinada por marcas. É esse o premir do gatilho para esta trama envolvente.

E se o elenco e o guião não forem argumentos suficientes para mergulhares numa das melhores séries portuguesas de que nos conseguimos lembrar, junta-lhe a banda sonora, a componente técnica e a cinematografia e a intenção. É que foram oito episódios emitidos num canal público (os criadores tentaram vendê-la à RTP, mas a série acabou chutada para os domingos à noite da RTP2) de uma sátira ao panorama audiovisual português. A discussão em torno do espaço dado pela televisão aos produtos mais irreverentes é velha, e talvez não tenha sido por acaso que a estação pública tenha emitido uma série com esta temática num canal que não tem novelas; o simples facto de ter arriscado já é louvável e os resultados são visíveis – basta veres o que os teus amigos estão a dizer da série por esses feeds fora. Essa é outra das ironias da história, é que para uma série que cartooniza o papel da televisão versus o da Internet nas nossas vidas, a popularidade de Sara foi mais que evidente no meio online e além disso, mesmo depois de se ter despedido ontem do ecrã do teu televisor, podes sempre vê-la ou revisitá-la no RTP Play. Como se toda a série não fosse uma crítica por si só.