Super Bock em Stock: a subir e a descer na bolsa da música

A edição deste ano acabou por representar simultaneamente uma continuidade e uma disrupção, algo que se fez sentir quer no burburinho em torno do festival – mais discreto que no caso Mexefest – quer no alinhamento de artistas escolhidos, onde o ecletismo se confunde com alguma indefinição.

Foto de João Cautela/DR

O festival que se dilui pelas principais salas de espectáculos de Lisboa surgiu em 2018 como uma identidade renovada, fruto de um novo naming sponsor que o fez voltar às origens. A Super Bock tornou-se a principal parceira deste festival de Inverno e ressuscitou, no seu lugar, o velhinho Super Bock Em Stock que havia marcado os anos de 2008 e 2009.

Assim, a edição deste ano acabou por representar simultaneamente uma continuidade e uma disrupção, algo que se fez sentir quer no burburinho em torno do festival – mais discreto que no caso Mexefest – quer no alinhamento de artistas escolhidos, onde o ecletismo se confunde com alguma indefinição. Não obstante a todo este setup os lisboetas não faltaram à festa para ver uns gigs, beber umas cervejas e desfrutar da Avenida da Liberdade feita corredor festivaleiro.

NGA

NGA é um rapper angolano, radicado em Portugal, com um hype enorme dentro do seu próprio circuito. Conhecido pelo seu rap bruto, assim como pela sua crew Força Suprema, foi ao Capitólio actuar em nome próprio. Apresentou-nos um set repleto dos seus êxitos, muitos deles com milhões de visualizações no YouTube. Ainda assim, a sua performance não foi das mais entusiasmantes. A sua marca pessoal de gangsta rap ficou algo lost in translation, provavelmente resultado de alguma contenção do artista. Por muito que as rimas nos incentivassem a fazer fumo, a segurança não deixava que se fumasse dentro do espaço, um exemplo que traduz a dinâmica do concerto.

Johnny Marr

Johnny Marr não é um shredder. Apesar de o conhecermos como um génio da guitarra, não é um daqueles tipos que queira fazer solos gigantes ou usar a sua destreza técnica sob a batuta de um rock bimbo. É através da construção de texturas melódicas que se destaca, sendo um elemento essencial do som dos The Smiths. O público reagiu com intensidade quando tocou alguns temas clássicos da banda. Começou meio vazio, mas foi ganhando público. Johnny Marr soa exactamente como esperávamos e isso é uma maravilha.

Foto de Ana Sofia Silva/DR

Masego

Não tivemos lata para usar a pulseira de imprensa quando vimos que a fila começava à entrada do Parque Mayer. Ainda assim, fomos até à porta e percebemos a grande festa que saía de lá. Pelo que nos contaram, Masego cantou, dançou, tocou vários instrumentos e deixou toda a gente em apoteose. Ficámos com a sensação que o seu hit de youtube não é por acaso.

Gimba

Sabes que estás num festival deveras cosmopolita quando surgem concertos-satélite. Uma prática muito comum nas feiras de arte, importada voluntariamente para o Super Bock em Stock pela figura divertida de Gimba. Com genica para agarrar algumas dezenas de pessoas em plena Avenida da Liberdade, presenteou-nos com canções de incentivo à revolução e de sátira dos costumes portugueses. Apesar de ter pedido para não registarem o momento, muitos telemóveis apontavam o insólito. Alguns carros tiveram dificuldade em passar pelo súbito público que se acumulou.

Capitão Fausto

Quem os vê em palco consegue perceber que as referências de Beatles e Beach Boys não são só sónicas. Arrumados de forma geométrica e, a partir de dada altura, acompanhados por um coro de miúdas betas, foram tão Capitão Fausto ao vivo como se esperava. Perderam-se em instrumentais enormes, deram tempo à malta de ir buscar umas Super Bocks, mas também tocaram aquelas faixas que se tornaram favoritas de todos os que os acompanham. Num Coliseu a abarrotar, demonstraram que são blasé demais para não darem o seu espectáculo de forma descontraída.

SP Deville

Uma das surpresas mais agradáveis do festival. SP Deville não tocava “há trinta anos”, como disse, mas parece que nunca saiu do palco. Foi um espectáculo completo. SP Deville é capaz de cantar afinado, de rimar numa grande diversidade de flows e de aquecer o público com a velocidade de um micro-ondas sempre que faz beatbox. A banda que o acompanhava merece uma nota máxima ao estar à altura de toda esta genica. A participação especial de X-TENSE para cantarem a música #PIXAGRANDE foi a sátira certa para a tendência do trap que parece não abrandar.

Lolo Zouai

Com a pior invenção do A$AP Rocky bem presente, Lolo Zouaï cantou todo o concerto com os masters das músicas a tocarem em jeito de música de fundo. Isso levou a críticas generalizadas de que estava a fazer a playback, mas a música High Highs to Low Lows é um banger forte demais para não ser recebido com grande entusiasmo, mesmo que o seja.

Tim Bernardes

Bem-vindos a uma dimensão completamente alternativa. O Tivoli está cheio de gente, mas também estava cheio de ambiente. Um silêncio que só era rasgado quando Tim começava a cantar e uma série de vozes lançavam gritos histéricos. Com um ambiente mal iluminado que logo se tornou intimista, ficámos com a sensação que este era um dos concertos mais esperado por todos. A beleza das canções de Tim Bernardes encontrou um público desejoso de as ouvir e o casamento foi muito feliz para todos.

Foto de Andreia Carvalho/DR

Rejjie Snow

Apesar da sua juventude, pode-se dizer que Rejjie é um rapper de culto. Não está a abarrotar de visualizações no YouTube, mas teve um disco relativamente bem recebido pela crítica e que evidencia um grande potencial. Acerca do concerto, foi algo morno. Rejjie ia perdendo ou ganhando o público consoante a faixa que tocava, com o seu arsenal de interacções a reger-se por pedir mãos no ar. Capaz de entregar rimas num flow melódico, estávamos à espera de mais acção, mas ainda não perdemos a fé.

Foto de Ana Sofia Silva/DR

Jungle

Provavelmente, o maior nome do festival. Jungle fazem música de dança sofisticada e atingiram uma série de singles de sucesso ao longo dos últimos anos. A apresentarem um novo disco onde exploram o seu som repleto de referências soul modernas, tiveram a casa cheia que se esperava. Fruto das presenças regulares que têm tido aqui em Portugal, Jungle e o público português já andam de mãos dadas e cantam em uníssono. Com uma presença cheia de estilo em palco, o som foi tão bom como se esperava até ter sido assolado por problemas técnicos. Ainda assim, ficámos muito felizes de os voltarmos a ver.

Foto de Ana Sofia Silva/DR