The Guardian liga Assange a Trump. Wikileaks aposta um milhão

The Guardian diz que Paul Manafort se terá encontrado três vezes com Julian Assange.

Foto de Romina Santarelli via Wikimedia

Desde o momento da eleição de Donald Trump que pairam sobre a imprensa internacional e a justiça norte-americana as dúvidas e as suspeitas sobre potenciais ilegalidades que possam ter conduzido a esse desfecho. A associação entre o pessoal de Trump e a oligarquia russa é um dos principais vectores de investigação — que já fez suspeitos e detidos — mas a intermediação de todo este processo ainda carece de uma explicação clara e cabal. Paralela a esta história nasceu a suspeita de que a Wikileaks fosse um dos agentes de operacionalização desta estratégia mas, mais uma vez as alegações ainda estão por provar — é a essa história que a notícia publicada no dia 25 de Novembro pelo jornal britânico The Guardian acrescenta mais um capítulo.

A fundamentar esta possível associação entre a Wikileaks, de Julian Assange, e o pessoal de Trump estava até agora a coincidência, ou não, de apenas ter publicado documentos referindo o partido democrático norte-americano nos tempos que precederam as eleições. Agora, o The Guardian diz ter fontes que afirmam que Assange terá sido visitado 3 vezes por um dos principais conselheiros de Donald Trump, Paul Manafort.

Robert Mueller, o procurador designado para o caso, segundo reporta o Washington Post, tem a convicção de que homens próximos de Trump possam ter sido avisados de que os e-mails que desencadearam o escândalo no partido democrata seria libertados nessa altura. A peça revela que o procurador sustenta que Jerome Corsi, um autor conservador, terá avisado Roger Stone, o conselheiro de longa data de Trump, pelo menos 10 semanas antes da divulgação dos documentos. A informação terá sido obtida num e-mail escrito pelo próprio Corsi a que a investigação teve acesso e que consta do processo facultado por Corsi ao jornal.

Os factos agora reportados pelo The Guardian, a ser confirmados pelas autoridades, podem assumir-se como prova para fundamentar a ideia de que possa ter havido um plano coordenado entre ambas as partes, algo que até aqui continua a ser negado por todos — Corsi diz mesmo ter exagerado nos e-mails enviados a Stone para impressionar e que o que dizia se baseava em meras especulações e não em informações privilegiadas.

O Guardian diz que em 2013, 2015 e na primavera de 2016 — o ano chave — e enquanto era conselheiro de Trump, Manafort terá visitado Assange na embaixada equatoriana onde este se encontra desde 2012. Manafort foi o primeiro a negar, em resposta aos jornalistas antes da peça ser publicada, e o Wikileaks reagiu ao segundo assim que esta saiu na world wide web.

A primeira crítica pela Wikileaks é que o The Guardian não terá dado tempo suficiente à organização para responder, tendo enviado o e-mail apenas para garantir o cumprimentos dos procedimentos habituais, mas a discussão não se fica por aí. Na mesma conta de Twitter, a Wikileaks apostou um milhão de dólares a e demissão da editora, Katharine VIner, em como a história é mentira, tendo-se dedicado a acompanhar cada passo a partir daí.

A partir da reacção da Wikileaks a notícia tornou-se um caso por si só e já contou com alguns avanços. 90 minutos depois da publicação com o título “Manafort teve conversas secretas com Assange na embaixada equatoriana” mudou para “Manafort teve conversas secretas com Assange na embaixada equatoriana, segundo fontes”. Passados mais 15 minutos surgiram novas alterações na história que a Wikileaks fez questão de denunciar. Ao texto original foi acrescentada uma referência sobre a série de tweets do Wikileaks a desmentir a notícia e alguns apontamentos reforçando o carácter de alegadamente.

Entretanto entre a conta de Assange e da própria Wikileaks já se sabe que o australiano se prepara para processar o jornal britânico pelo que deu início a uma campanha de angariação de fundos.

O choque entre o media britânico e o whistleblower Assange já não é propriamente novo e a Wikileaks fez questão de o lembrar, republicando a review de Assange ao livro de Snowden. No artigo publicado na Newsweek em 2015, Assange tece duras críticas ao sensacionalismo de Luke Harding — um dos jornalistas que assina a peça em questão.

Glenn Greenwald, antigo jornalista do The Guardian, um dos homens fortes na publicação dos documentos de Snowden, e actualmente editor do The Intercept foi um dos jornalistas notáveis — e próximos de casos como este — a demonstrar cepticismo face ao noticiado. Ainda durante o dia 27, escreveu sobre o tema sublinhando que caso seja verdade deve haver provas em vídeo e, num tweet publicado um dia depois da publicação, Glenn reforça as dúvidas notando que nenhum outro media internacional foi capaz de verificar a história.

Também Edward Snowden reagiu a esta história mas de uma forma enigmática. O whistleblower asilado na Rússia retweetou um video do Secretário de Estado dos EUA, Michael Pompeo, a dar as boas vindas a Jose Valencia Amores, ministro dos negócios estrangeiros equatoriano, ao Departamento de Estado norte-americano.

Recorde-se que nas últimas semanas foi tornado publico que decorria secretamente um processo de acusação sob Julian Assange.