Será que percebemos bem o que criador da Web apresentou em Lisboa? Fazemos um resumo

Numa aparição inédita numa conferência, Tim Berners-Lee apresentou no Web Summit uma solução para resolver os problemas da Web actual e que passa por juntar cidadãos, empresas e governos.

Tim Berners-Lee (foto de Sam Barnes/Web Summit via Flickr)

Tim Berners-Lee não dá muitas conferências, mas o criador da World Wide Web (WWW) marcou presença na abertura do Web Summit, em Lisboa, dando-nos o privilégio ouvir o senhor que em 1989 criava no CERN a web que hoje milhares de milhões de pessoas usam pelo mundo fora.

Antes de avançarmos, uma nota prévia para esclarecer uma diferença básica mas que pode gerar alguma confusão entre Internet e Web. A Internet nasceu no anos 1960 por uma necessidade militar do Governo norte-americano e consiste numa rede de computadores interligados e, assim, com capacidade de comunicar entre si. Já a World Wide Web (WWW), ou simplesmente Web, é um conjunto de informação que alguns desses computadores alojam (sendo, por isso, considerados servidores) e que ganham a forma de páginas e sites.

No início parecia maravilhoso

O que Tim Berners-Lee inventou foi a Web, unindo ideias e tecnologias já existentes, como a Internet, o hipertexto, o Transmission Control Protocol (TCP) e o Domain Name System (DNS). Ou seja, com computadores interligados, código para apresentar texto e outro tipo de conteúdo, um sistema para envio de dados e domínios nasceu a WWW. Tim começou a sua apresentação no Web Summit a recordar o primeiro servidor web, um computador da NeXT no CERN, e que alojou o primeiro website de todos: o info.cern.ch. “Era uma máquina maravilhosa com um software maravilhoso”, recordou. “Escrevi o código do primeiro servidor e o código do primeiro browser, chamava-se WorldWideWeb.app.”

Na altura, Tim Berners-Lee não imaginava o que se seguiria – o impacto que a Web iria ter na vida humana em todos os aspectos deste, o sucesso e a popularidade que a tecnologia viria a ganhar; muito menos imaginava os problemas com que 25 anos depois estaríamos a lidar: desinformação, cyberbullying, discurso de ódio, questões de privacidade… “Que raio poderia correr mal?”, interrogou retoricamente a audiência. “Nos primeiros 15 anos todos esperavam que a web pudesse resultar em grandes coisas. E, sim, grandes coisas aconteceram. Tivemos a Wikipedia, a Khan Academy, blogues, tivemos gatos”, brincou. “A Humanidade conectada deveria ser mais construtiva, mais pacífica, mais construtiva, que a Humanidade conectada.”

Foto de Sam Barnes/Web Summit via Flickr

Um contrato pela Web

Como resolver, então, os problemas da World Wide Web? Ninguém sabe muito bem, mas o seu inventor apresentou no Web Summit uma proposta de solução ambiciosa: juntar cidadãos, empresas e governos na assinatura de um contrato. Se quisermos, uma constituição da internet. Um compromisso conjunto não só para melhorar a Web daqueles que já estão online mas simultaneamente para levar a Web a quem ainda não tem acesso a ela. “Porque vos estou a falar sobre isto? Porque estamos quase no ponto em que metade do mundo estará online”, explicou o engenheiro britânico e também fundador da World Wide Web Foundation. Tim Berners-Lee referia-se ao momento ’50/50’, que deverá acontecer dois anos depois do inicialmente previsto: em Maio de 2019, metade da população mundial deverá estar online enquanto que outra metade não terá ainda acesso à Web. “Temos a obrigação de olhar para os dois lados do mundo” e não só resolver a nossa Web – cujos benefícios inegáveis trouxeram riscos inaceitáveis à nossa privacidade, à nossa democracia e até à nossa saúde mental –, como “ajudar os outros a conectarem-se”.

O contrato que Tim Berners-Lee e a sua World Wide Web Foundation propõem ainda não foi divulgado, mas assenta em nove princípios que estão disponíveis online, no site da iniciativa – #ForTheWeb. Transcrevendo:

Os Governos vão:

  • garantir que todos conseguem conectar-se à internet para que todos, independentemente de quem sejam ou onde vivam, possam participar activamente online;
  • manter toda a internet acessível, continuamente, para que não seja negado a ninguém o direito ao acesso integral à internet;
  • respeitar o direito fundamental dos indivíduos à privacidade para que todos possam usar a internet de forma livre e segura, sem medo.

As empresas vão:

  • manter a internet barata e acessível a todos para que ninguém seja excluído de usá-la e de poder moldar a web;
  • respeitar a privacidade e os dados pessoais dos consumidores para que as pessoas tenham controlo da sua vida online;
  • desenvolver tecnologias que apoiem o melhor da Humanidade e desafiem o pior para que a web seja realmente um bem público que coloca as pessoas em primeiro lugar.

Os cidadãos vão:

  • ser criativos e colaborativos na web para que a web tenha conteúdo rico e relevante para todos;
  • criar comunidades poderosas que respeitem o discurso civil e a dignidade humana para que todos se sentiam seguros e bem-vindos online;
  • lutar pela web para que a web permaneça um recurso público, aberto e global para as pessoas em qualquer lugar, agora e no futuro.

Responsabilizar cidadãos, empresas e governos

É cedo para se saber como é que na prática Tim Berners-Lee pensa que se pode garantir que todos os que assinem o contrato o cumpram efectivamente, mas a ideia passa por incutir sentido de responsabilidade. O ‘pai’ da Web quer que, mais do que assinar, cidadãos, empresas e governos sintam o compromisso de cumprir o documento e que uns incutam essa responsabilidade aos outros. “Como indivíduos temos de responsabilizar as empresas e os governos pelo que se passa na internet”, disse.

“A ideia é, a partir de agora, todos serem responsáveis por fazer da Web um lugar melhor”, o que passa também por novas start-ups pensarem como as pessoas podem usar as interfaces que desenham além dos comportamentos previstos, desenhar redes sociais para que os seus utilizadores conheçam pessoas de culturas diferentes, mas acima de tudo garantir a universalidade da Web – o principal aspecto que, segundo Tim, tornou a sua invenção tão popular a nível global e que fez da Web “apenas uma plataforma, sem atitude, que deve ser independente, pode ser usada para qualquer tipo de informação, qualquer cultura, qualquer língua, qualquer hardware, software”.

Foto de Sam Barnes/Web Summit via Flickr

O contrato de Tim Berners-Lee conta com o apoio de cinco dezenas de entidades, quatro delas marcaram presença no palco do Web Summit: o Governo francês mostrou-se orgulhoso de ser o primeiro governo a nível mundial a assinar o compromisso. Também a gigante Google e a start-up AnchorFree, de Sillicon Valley, apoiaram a iniciativa, apoiada também pelo Facebook apesar de não ter estado representado.

Tim Berners-Lee apresentou o movimento #ForTheWeb no mesmo dia em que a sua World Wide Web Foundation divulgou o relatório “The Case for the Web”, que, com o suporte de alguns dados, resume as questões abordadas na abertura do Web Summit, em Lisboa.