Um guia para identificar linguagem fascista

Umberto Eco, filósofo e autor de obras como O Nome da Rosa, escreveu, em 1995, uma peça intitulada Ur-Fascismo ou O Fascismo Eterno.

Umberto Eco (foto de Andrea Frazzetta/DR)

Em tempos, após a eleição de Trump, o Tomás lançou o desafio a uma mão cheia de filósofos perguntando “o que pode um filósofo contra Trump?”. Na altura, respondi que a filosofia e os filósofos carregavam consigo uma “arma” muito poderosa: a capacidade de pensar. Esta não é uma característica exclusiva dos filósofos e depende de nós evitar que enferruje e deixe de funcionar.

Com a eleição de Bolsonaro começa a faltar-nos tempo, como escreve o João Ribeiro. E o João lembra-nos que Trump não foi o início (houve a Hungria e as Filipinas), mas a verdade é que marcou o despertar para o reconhecimento de todo um crescendo de discursos de índole fascista.

Vamos procurar entender-nos: o Priberam diz-nos que o fascismo é a “tendência para o excesso de autoritarismo ou para o controlo ditatorial”.

A pergunta que se segue é: o que é um discurso fascista? Como podemos topá-lo?

Umberto Eco, filósofo e autor de obras como O Nome da Rosa, escreveu, em 1995, uma peça intitulada Ur-Fascismo ou O Fascismo Eterno. O texto foi publicado no The New York Review of Books, inicia com uma advertência muito clara: as características enunciadas são contraditórias e não podem ser organizadas num sistema. Além disso, são características que facilmente associamos ao despotismo e ao fanatismo. A saber:

  1. o culto da tradição;
  2. a rejeição da modernidade;
  3. o culto da acção pela acção;
  4. “discordar é trair”;
  5. o medo face à diferença;
  6. o apelo à frustração social;
  7. a obsessão com “as cabalas”;
  8. o inimigo é simultaneamente forte e fraco;
  9. o pacifismo torna-nos moles;
  10. o elitismo e o desprezo pelos fracos;
  11. “nascemos para ser heróis”;
  12. o reconhecimento da mulher como o “sexo fraco”;
  13. o populismo selectivo;
  14. a pobreza de vocabulário.

O desafio que fica é usar esta lista como filtro: não só dos eleitos, como Trump ou Bolsonaro, mas no discurso dos vossos amigos e conhecidos. De há uns tempos para cá tenho ouvido (e lido) muitas palavras solidárias para com o discurso de Bolsonaro, advogando que “qualquer dia é em Portugal e se calhar já faz falta”. Num país que viveu na ditadura que paralisou o pensar, o criar, o estar e o ser de todo um povo, há coisa de meio século, esta postura faz-me pensar e recear pela liberdade e pela democracia – e, em última instância, pela filosofia.

Uma das bases da filosofia, tal como a entendo, é o diálogo. O diálogo onde cada um dos intervenientes é livre de pensar e dizer o que pensa, submetendo esses pensamentos ao crivo crítico daqueles que o ouvem. A análise crítica pode levar-nos a validar, melhorar ou abandonar uma ideia. Nesta análise, procuramos as falácias, os pontos cegos e as inconsistências do discurso. Platão dedicou as suas obras à luta contra a opinião que carece de justificação, de validação e que não tem resposta para as objecções que lhe são apresentadas.

Ora, os regimes de índole fascista, onde quem manda usa e abusa de vários pontos da lista de Eco, são regimes onde não há lugar para este diálogo.

Não há lugar para a filosofia, para a razão, para a ciência. Há lugar para uma única visão do mundo que repete incessantemente: “se não concordas comigo, estás a trair o teu país”.

E tu, o que pensas disto?