2018, um ano sem soluções

2017 não estava bem, o mood estava estranho e o melhor era acabar. Entrámos em 2018 à pressa mas convictos de que iria ser um bom ano.

Ilustração de João Ribeiro/Shifter

2017 não estava bem, o mood estava estranho e o melhor era acabar. Entrámos em 2018 à pressa mas convictos de que iria ser um bom ano. Pelo menos melhor do que o anterior tinha sido. 2017 fora o primeiro ano de Trump, da troca de galhardetes bélicos com Kim-Jong Un, mais um ano de guerra na Síria, de acentuar dos tiques ditatoriais de Erdogan na Turquia, de Orban na Hungria, do surgimento em força do termo fake news e da descoberta — espante-se — de que uma rede social com mil milhões de pessoas interligadas pode ser usada para influenciar eleições.

Depois de responder a todos estes desafios, chegámos ao fim do ano numa espécie de exaustão social, agravada pelos desastres naturais — esses sim, com um âmbito local relevante e menos globalização nas nossas cabeças. Todavia, como em todos os fins de ciclo, a esperança fraseada com mais ou menos certezas era a de que 2018 seria o primeiro ano de um novo ciclo. Talvez por ser um número redondo, por marcar a década sobre a grande crise financeira ou, simplesmente, por estarmos habituados ao normal (estável mas pouco criativo) que nos parece manter sempre inconscientes sobre o que pode piorar a seguir.

Não houve grande coisa a marcar o final do ano — em Portugal, como nos lembra o episódio piloto de Politicamente Correto, era o intestino de Marcelo quem fazia headlines. Na letargia da ressaca as mensagens de ano novo dos principais intervenientes globais voltavam a nivelar as expectativas. 2017 passara sem um ataque de larga escala e os ânimos expressos em declarações já não o ameaçavam para amanhã; as eleições intercalares nos EUA seriam a oportunidade de os dems voltarem a ganhar poder e meterem Trump na linha; Na Síria os curdos pareciam bem sucedidos (conquistaram Raqqa em Outubro de 2017) e os blocos internacionais só teriam de encontrar uma solução política; Na Europa teríamos uma série de eleições e, seguindo o exemplo de Macron, as alternativas anti-sistémicas seriam ex-banqueiros de fato, com carisma e um discurso cordial; para além disso, o Facebook já teria descoberto como fazer fact-check, evitar anúncios fraudulentos e a interferência estrangeira em eleições. Atalhando à centennial: sqn (só que não, entenda-se).

À medida que ano se ia desdobrando, e os principais assuntos iam voltando ao debate público fomos percebendo como, afinal, a sua complexidade era ainda maior e as soluções poderiam não ser tão simples como tínhamos imaginado. Muito provavelmente por falta da nossa imaginação. Pouco criativa em matéria de soluções e pouco nutrida no que toca a previsões.

A verdade é que se o fatídico 2017 tinha ficado marcado pelo que acima enumerámos, a enumeração de 2018 não o faz parecer melhor. Foi o ano da eleição de Bolsonaro e de Salvini, da re-eleição de Órban, do alegado ataque químico de Bashar Al-Assad, da retaliação internacional pesada, do envenenamento de Skripal e consequente expulsão dos embaixadores russos um pouco por toda a Europa…. quanto a Trump, para selecionarmos apenas um evento, decidiu terminar o ano em modo birra até que lhe deêm o muro para brincar; em matéria de internet, os Artigos 11 e 13 chegaram para assombrar a Europa de uma forma semelhante ao que se passa nos EUA com o fantasma da net neutrality (embora com contornos absolutamente diferente); as fake news continuaram em voga e tornaram-se moda global; e quanto ao Facebook e às grandes tecnológicas o ano foi pleno de desilusões — do Cambridge Analytica no Facebook, passando pelo Projecto Maven e acabando no Dragonfly, estes da Google.

Para os “velhos” problemas evidenciados pela narrativa de 2017 — a ascensão da extrema direita, a polarização do discurso político e a escalada generalizada da violência e do ódio, em discursos ou actos —, o ano de 2018 não encontrou solução. Para além disso, acrescentou nuances ou contrastes àqueles que julgávamos cristalizados ou uma questão de tempo.

Sobre a internet e as grandes tecnológicas, ficámos a conhecer novas formas de aproveitamento dos seus sub-produtos com fins nocivos e manipuladores, as suas políticas internas frágeis e a sua falta de sentido de responsabilidade no que toca às grandes questões. Sobre as leis — neste caso concreto, que se aplicam a internet — ficámos a conhecer o teor simplista do pensamento dos legisladores que julgam que tudo se resolve à base do algoritmo; sobre a política, na sua assunção mais personalizada, percebemos que o populismo tem muito por onde lavrar podendo surfar outras ondas como as igrejas evangélicas (Brasil), o anti-semitismo (Hungria); e que aqueles que julgávamos à altura do desafio, podem não estar a ser tão bem sucedidos na contenção dos extremos — vede Macron e a sua relação com os Coletes Amarelos.

De resto, resumir o ano, de um modo global e com ligeireza quase caricatural reforça a ideia do texto. Se, como numa caricatura reforçármos os traços mais marcantes, isto é, em transposição social, aquilo que nos fica na cabeça, vejamos: os grandes processos da justiça portuguesa foram adiados; os Coletes Amarelos em França protestarão até durante a passagem de ano, em Portugal apontam baterias para o dia 5 de Janeiro; Trump suspendeu a administração pública norte-americana até que lhe seja feita a vontade; os curdos estão cada vez mais sós na Síria e ameaçam devolver o poder político a Bashar Al-Assad; a situação no Iémen protagonizado pelos Sauditas com cumplicidade ocidental continua a piorar e ainda mal chegou às TVs; a decisão sobre a reforma dos direitos de autor voltou a ser adiada.

Assim passamos para 2019 com uma série de assuntos pendentes, o que nos pode dar uma lição. 2018 foi o reforçar da hipernormalidade e, provavelmente, o ano em que tanta normalidade se tornou saturante. O que começou este ano ainda terá muito para dar no próximo, como, de resto, do ponto de vista histórico, é perfeitamente expectável. No fundo, se calhar não foi o ano que não nos deu soluções, fomos nós que não lhes demos tempo, tão afogados que estamos em espirais de aceleração política (polarização), social (novas relações em linha), ambiental (acabaram-se as palhinhas de plástico) e até demográfica (gentrificação).

Em 2019 não teremos Mundial de futebol, esse analgésico global, nem jogos Olímpicos de Inverno na Coreia do Sul, onde a paz possa dar mais passos simbólicos. A nível mundial será mais um ano para percebermos como as principais figuras se comportam e a nível nacional e europeu será o começo de novos ciclos. As eleições europeias, em Maio, e legislativas, em Outubro, serão finalmente os primeiros testes nacionais à capacidade de resposta perante os desafios globais encetados em 2017 e que servem neste contexto para nos lembrar que, por muito rápido que as tendências surjam e a globalização nos entretenha online, o mundo e a vida, de um modo geral continuam a decorrer à velocidade de sempre, imposta pelo calendário institucional e pautada pelos media tradicionais.

É preciso ter cuidado para não esgotarmos a conversa cedo demais. Até porque precisamos de tempo para pensar nas respostas.