Para que não voltes a dizer que aqui não se passa nada

É normal que a imprensa dê mais destaque aos assuntos da capital, impacta mais gente. Não é normal que ignore o resto.

Este artigo é gratuito como todos os artigos no Shifter.
Se consideras apoiar o nosso trabalho, contribui aqui.

Fazendo uma pesquisa por alto num dos principais jornais portugueses encontramos mais de 100 mil entradas sobre Lisboa e pouco mais de 2 mil sobre Abrantes. É claro que uma é a capital do país e a outra apenas uma cidade do interior entre tantas outras. Contudo, como alguém uma vez comentava comigo, podemos nunca ter ido a Lisboa e sabemos onde há trânsito, bastando ligar o rádio: 2ª Circular, IC 19, Ponte 25 de Abril…

O trânsito, as irregularidades no metro, as trotinetas espalhadas pelos passeios, as rendas altas… Os problemas de Lisboa parecem os problemas do país, até porque perto de 3 milhões de pessoas – cerca de 30% da população portuguesa – vive na Área Metropolitana da capital. Afinal de contas, abrimos um feed e a probabilidade de encontrarmos alguém a refilar do atraso do Metro de Lisboa é maior que ver alguém a queixar-se de que um comboio na Linha do Algarve foi suprimido. Até porque as avarias e perturbações do metro são notícia.

É normal que a comunicação social dê mais destaque a Lisboa e que o nome da capital apareça mencionado mais vezes que Abrantes, por exemplo. Afinal, é a capital e vive lá mais gente que em qualquer outra parte do país. É normal também que as redes sociais acabem por fortalecer o que acontece nas grandes metrópoles pelos mesmos motivos e pelo facto também de que, se vivemos, estudamos ou trabalhamos em Lisboa, a maior parte ou grande fatia da rede esteja nesta cidade. É, assim, previsível o surgimento de bolhas, aquele pensamento de que os “nossos” problemas afectam todos; discussões, por exemplo, sobre a Uber que parecem assuntos nacionais numa altura em que a empresa nem sequer operava fora dos limites da cidade; ou que ao abrir o Instagram nos pareça que “está tudo” no Lux ou no Alive.

Contudo, a verdadeira descentralização passa por olhar para o país como um todo, como um território coeso; passa por apreciar outros lugar, olhar para os seus problemas, programar fora dos grandes centros para que ninguém diga: “aqui? Aqui não se passa nada”. Espalhar a cultura, espalhar o tecido empresarial, espalhar os serviços. E criar uma boa rede de mobilidade. Afinal de contas, Portugal não é assim tão grande; o novo aeroporto de Lisboa poderia estar em Beja, servindo não só a capital como toda uma região sem estímulos.

Tudo isto é uma bola de neve. É precisa indústria para existir economia; ao mesmo tempo são precisas pessoas e actividades para os tempos de lazer. É normal que a imprensa dê mais destaque aos assuntos da capital, impacta mais gente. Não é normal que ignore o resto. O 180 Creative Camp leva todos os Verões uma centena de criativos para Abrantes. O centro histórico daquela cidade é virado do avesso q.b.

Há concertos, workshops e outro género de actividades espalhadas pela cidade, mas acima de tudo há arte que fica nas paredes de Abrantes, há conteúdo produzido ali e divulgado na web para o mundo – o Camp pode não chegar ao mainstream, mas nos sites especializados corre a web. E no final do dia, aquela centena de pessoas almoça, janta e dorme no comércio de Abrantes.

Ao longo dos próximos dias, em colaboração com o Canal180, vamos publicar uma série de quatro textos sobre Abrantes. Falam sobre a comunidade daquela cidade, sobre as histórias antigas com um toque de modernidade. Mostram como Abrantes não será esquecido enquanto existir Camp.

Investimos diariamente em artigos como este.
Precisamos do teu investimento para poder continuar.