Porquê Abrantes? – fotografia

Este artigo é um convite para pensar sobre fotografia, apresentando duas visões distintas, embora surpreendentemente parecidas.

Ultimamente, temos reflectido sobre as questões que desde o início nos tinham inspirado a juntar uma comunidade criativa em Abrantes. Como é que as histórias antigas podem inspirar as novas gerações? De que forma podemos criar novas histórias que se liguem às gerações mais velhas?

Para isso, temos vindo a olhar atentamente para as histórias que podem ser ou que são já uma fonte de inspiração para a nossa nova geração de criadores. Para nós, a fotografia foi sempre uma espécie de narrador, uma forma de comunicar e unir gerações pelas memórias que guarda. É por isso que este terceiro artigo é um convite para pensar sobre fotografia, apresentando duas visões distintas, embora surpreendentemente parecidas.


 

Eduardo é um fotógrafo de estúdio com cerca de 60 anos de experiência nesta área.

A fotografia no início foi uma coincidência para ele. Aos 10 anos o seu pai faleceu, por isso o seu irmão trouxe-o para o Entroncamento para trabalhar numa casa de fotografia até que atingisse os 16 anos e pudesse trabalhar na CP (Comboios de Portugal).

O fotógrafo Eduardo (foto de Matilde Viegas)

Como Eduardo explicou, primeiro começou por cortar fotografias e durante os quatro anos de trabalho foi evoluindo. Ao fim destes anos, Eduardo já sabia que não queria fazer outra coisa a não ser fotografia. Trabalhava “num sítio onde as pessoas iam” então acabava por conhecer toda a gente. Naquela altura, o fotógrafo usava fato e gravata, enquanto os aprendizes da CP andavam com uma farda de ganga azul. Por estas e outras razões, não quis outra coisa e foi assim que fotografia acabou por ser a sua escolha.

Mesmo durante os anos de serviço militar em São Tomé descobriram que era fotógrafo e colocaram-no no laboratório do quartel. Eduardo começou o seu percurso profissional aos 12 anos e nunca mais parou.

Mas esta sua ligação com a fotografia não é fascinante apenas pela sua história pessoal. Eduardo é um fotógrafo que passou por toda a transformação do analógico ao digital. Quão emocionante e, ao mesmo tempo, assustador deve ser a adaptação à nova realidade? Como era fotografia antes e como é agora?

Com 14 anos havia sempre a curiosidade de “porque é que há de ser assim? Porque não há de ser doutra maneira?”. Depois tinha surpresas… Nessa altura éramos quase obrigados a fazer, a opção que tínhamos era de aprender sozinhos e ao lado das pessoas mais velhas. O trabalho era tudo e acho que o melhor professor é termos mesmo trabalho para fazer. Havia umas asneiras pelo caminho, mas é normal.

Durante uns 15 anos eu começava a trabalhar às 9h e acabava à noite. Na altura eu tinha 4 empregados, porque entre as 9 da manhã e o meio dia/ uma hora era fácil termos 150/200 pessoas para fotografar. Tudo tinha de ser posto manualmente, fazíamos os nossos produtos químicos. Para cada cara havia um profissional, um quarto de hora a tirar as imperfeições da cara com um lápis.

Eu fazia fotografias. Tudo o que era profissional tinha de passar pelas minhas mãos, porque era muito importante na fotografia que ficasse tudo bem. Antigamente, fotografar era importante, mas não menos importante era a impressão. O que me importa ter um boneco incrível e depois vou a imprimir e faço uma porcaria? Não vale nada.

Houve ali uma altura quando começou a aparecer o digital, que eu tentei travá-lo. Não queria. Mas rapidamente vi que não havia hipótese, estava a remar contra a maré. A única vantagem que vejo no digital é: tirou a fotografia, olhou para aquilo, vê o disparate que fez e repete até que lhe pareça bem. Antes não havia disso, era uma carta fechada.

Hoje em dia o importante é a expressão da pessoa, a fotografia pode estar uma “javardice”. Nesta época era importante captar a expressão da pessoa, mas também o enquadramento… Tudo aquilo tinha de estar impecável. Ninguém dos fotógrafos antigos se podia dar ao luxo de fazer qualquer coisa. É claro, a fotografia era muito bem paga. Talvez as pessoas hoje não exijam tanto porque pagam pouco.

Eu digo aos meus clientes: “Não disparem por disparar. Disparem quando na vossa ideia estiver bem.”

Aos mais novos falta isso, serem exigentes. Eu digo aos meus clientes: “Não disparem por disparar. Disparem quando na vossa ideia estiver bem.” Os telemóveis enganam. Só quando vão passar para o papel é que se vê que afinal não está tudo bem. Mas esse é o preço, o custo do avanço da tecnologia…

Durante a nossa conversa, foi notável o orgulho que o Eduardo sente em ser fotógrafo. Partilhou connosco que às vezes tem pena que os clientes lhe levem as suas fotografias. Talvez seja por isso que imprime algumas e as expõe nas paredes do seu estúdio. Ainda hoje, em todas as suas fotografias coloca o seu carimbo num canto inferior. Disse que uma das coisas que mais gosta é ir à casa das pessoas e ver as fotografias da sua autoria penduradas na parede.

Foto de Sofia Borba

Durante o 180 Creative Camp, tivemos connosco George Muncey que, ao lado de Devin Blaskovich, liderou o workshop de criação de narrativas através de fotografia instantânea e de grande formato. Tal como os criativos explicaram, a ideia seria que os participantes “documentassem o que considerassem ser as partes mais representativa e visualmente estimulantes de Abrantes através de uma lente “partilhada” e de trabalho em equipa, por forma a criarem uma documentação colaborativa da cidade e dos seus habitantes”.

George tem 22 anos, mas apesar de ser ainda muito jovem, já provou ser uma inspiração para muitos fotógrafos amadores explorarem a fotografia analógica. Primeiro, através de um grupo do Facebook, mais tarde, através de um canal no YouTube e mais recentemente uma revista, tudo sob o nome de Negative Feedback.

Foto de Sofia Borba

George Muncey comprou a sua primeira câmara aos 11 anos para brincar e experimentar. Aos 14, no âmbito de um estágio escolar, teve a oportunidade de trabalhar num estúdio de fotografia e aí começou o seu percurso profissional.

Na plataforma Medium, partilhou um artigo sobre o porquê do analógico, onde explica a sua passagem da fotografia digital para os rolos. Diz que receber 36 imagens de laboratório é, para ele, bem mais gratificante do que ter umas 300 e apenas algumas serem de facto boas.

Foto de Sofia Borba

A visão do Eduardo, alguém tão experiente em fotografia, inspirou-nos para falar com George e reflectir sobre algumas questões importantes. Como é ser-se fotógrafo analógico na era digital? Exposições ou publicações nas redes sociais? Impresso ou online?

Enfrentei várias dificuldades nos primeiros dois anos quando deixei de estudar e comecei a trabalhar. Não foi fácil e estava mesmo a chegar a um ponto em que realmente precisava de um emprego. Por alguma razão, não desisti. Eu acreditei, e talvez tenha tido sorte, mas no final tudo deu resultado. Mas foi de facto mau durante algum tempo. Acho que, como acontece em tudo, temos de continuar a tentar até sermos bons.
Acho que não há nada de mal em ter um trabalho “normal” para sustentar os projectos criativos.

Mas, ao mesmo tempo, acho que não há nada de mal em ter um trabalho “normal” para sustentar os projectos criativos. E, de facto, se tivesse de passar por isto de novo, era o que faria para não estar completamente ocupado com uma coisa só. Porque acho que o tempo que passas fora faz com que queiras isto ainda mais. Fazes de tudo para isso acontecer.

Há tantas formas agora de distribuir o teu trabalho… E como isto é tudo tão novo, ninguém sabe realmente o caminho mais certo. Numa visão tradicional, as pessoas não querem que partilhes o teu trabalho “sério” até teres a coisa toda. Tudo o que eu faço é relacionado com as plataformas mediáticas, fazes upload e espalhas as coisas pelo mundo fora.

Como eu trabalho com grande formato, que é bastante caro, não é algo que posso fazer todos os dias. Isto também significa que precisas de pensar bem nas fotos. Tens que ter a certeza do que queres, porque cada vez que pressionas o botão é muito dinheiro que desaparece. Por isso, queira ou não, eu tenho mesmo de ponderar as minhas fotos.

Na maioria das vezes, gosto de ter a ideia de como as coisas podem resultar no final. Deve ser porque eu realmente gosto de exposições e impressões. Acho que as pessoas se conectam mais com elas. Quando entrevistei um dos meus fotógrafos favoritos, ele disse-me que a fotografia é como a música. Cada versão da sua interpretação é diferente.

Quando é online, onde tens apenas o teu website, que é um serviço de streaming como o Spotify, todos podem vir ver. Não há limitações. Mas depois há pessoas que gostam de vinis, preferem dar um valor superior por aquele benefício extra, uma espécie de sentimento autêntico. É como ter um livro de fotografias. E depois há a exposição que pode ser considerada uma apresentação ao vivo. Ficas com a sensação do que é realmente estar lá. É uma experiência imersiva e eu acho que é por isso que a exposição é algo tão fixe.

Foto de Sofia Borba

Eduardo e George representam duas gerações de fotógrafos tão distintas e tão curiosamente similares. Apesar da diferença de idades e abordagens que têm ao trabalhar em fotografia, ambos aprenderam apenas com a prática e acreditam na beleza e na necessidade de representação física da fotografia.

As novas gerações têm cada vez mais contacto com a fotografia digital. É por isso que há uma crescente necessidade em dar continuidade não só à fotografia analógica, mas em valorizar também as suas manifestações físicas.

Esperamos que o workshop, desenvolvido durante o 180 Creative Camp, tal como as histórias e visões destes dois fotógrafos, encorajem jovens criadores a continuarem a explorar e a criarem narrativas que reflictam o presente, mas que também sejam celebrações de outras gerações e histórias passadas.