Porquê Abrantes? – a comunidade local

Os abrantinos são pessoas sossegadas e amistosas. Gostam de se sentar nos bancos e esplanadas dos cafés, nas ruas ou nas praças; encontram-se, por norma, a meio da tarde depois da sesta de final de almoço.

Uma das ruas do centro de Abrantes, ladeada de flores, com crianças a brincar (foto de Matilde Viegas)

Para o 180 Creative Camp, convidámos Matilde Viegas, uma fotógrafa do Porto, a percorrer as ruas de Abrantes, conhecer os locais, ouvir e recolher as suas histórias e registá-las em retratos bonitos. Este segundo artigo da série Porquê Abrantes? é, assim, uma oportunidade para conhecerem alguns dos locais pelo olhar de Matilde.


 

Este foi o meu segundo ano no 180 Creative Camp. Desta vez, o meu foco não eram os participantes, mas sim as pessoas de Abrantes que passam lá o ano inteiro e que nos recebem todos os Verões.

Os abrantinos são pessoas sossegadas e amistosas. Gostam de se sentar nos bancos e esplanadas dos cafés, nas ruas ou nas praças; encontram-se, por norma, a meio da tarde depois da sesta de final de almoço. É evidente a comunidade que existe entre lojas, serviços e cidadãos que lhes permitem manter ligações ao longo dos anos. Em todos os locais onde entramos, somos acolhidos com um sorriso e um “bom dia” ou “boa tarde”. É tão bom ser recebida assim a cada vez que passamos a porta. A Gelataria Lis tornou-se o meu local favorito. Comer gelado de melão numa sala com ar condicionado parecia o melhor momento nestes dias.

Tive muita sorte em ter conhecido pessoas na rua que me contaram as suas histórias e partilharam o seu tempo comigo. Quando lhes pedia para tirar uns retratos, punham-se direitos e posavam de alguma maneira, fitando a câmara. Eles estavam orgulhosos, e eu tão grata.

Foto de Matilde Viegas

Ao final de almoço, perto do Jardim Infantil, juntam-se as vizinhas dali da zona. Da direita para a esquerda, Maria de Lurdes, Luísa Serrano, Maria Prates e Isabel Colaço. Disse-lhes “boa tarde” e logo me perguntaram se estava com o 180 Creative Camp. Uma das senhoras disse gostar muito da cor das pulseiras deste ano, outra comentou que gosta muito da casa pintada em frente ao Chave D’Ouro, um café da cidade. Ficaram ali à conversa comigo e agradeceram o sorriso e o ouvido atento, porque nem sempre as pessoas que lá vão a Abrantes falam com elas. A Dona Maria de Lurdes falou-me do filho que tem no Porto e que lhe liga todos os dias, “é estilista e figurinista”. Mostrou-me uma foto dele, quando este tinha 15 anos, que guarda na sua carteira. No dia da mãe, o filho levou-a a visitar o Porto e diz ter gostado muito, que o jardim de Serralves é muito bonito e que as pessoas eram muito simpáticas. Entretanto, Isabel, a mais jovem das quatro, diz que é tempo de ir a casa comer o lanche por causa dos “diabretes” (diabetes). Como era já sábado e eu iria embora no dia seguinte, despedimo-nos com desejos de boa sorte e tudo de bom.

Dona Maria José a beber água, no jardim da Praça da República, num sábado à tarde (foto de Matilde Viegas)

No ano passado, conheci-a no mesmo sítio, também num sábado à tarde. Vai lá para alimentar um gato de um falecido vizinho e para lançar trigo às pombas. Gosta muito dos animais que, ao contrário das pessoas, não fazem mal a ninguém. O gato, a quem chama de “o Preto”, anda desaparecido há já cinco meses, mas ela sabe que ele anda atrás das gatas. Lá para o Inverno ele volta. Falou-me da comida da mãe dela, partilhou comigo algumas receitas e falou com muito carinho das roupas de antigamente. Fez luto em miúda por causa da morte precoce do irmão, então agora usa só roupa colorida.

Foto de Matilde Viegas

Num dos workshops do George Muncey, com a câmara de grande formato e filme instantâneo, os participantes convidaram três abrantinos a posar para um retrato. O senhor nunca saiu da pose enquanto as senhoras se riam e lançavam uns galhardetes. A dada altura, as senhoras mostraram-se confusas com as câmaras, não sabendo para qual deveriam olhar, enquanto o senhor com os seus óculos de sol, manteve a sua expressão serena.

O Senhor Eduardo (foto de Matilde Viegas)

Senhor Eduardo, de 70 anos, fotógrafo na cidade de Abrantes. Contou-me como começou a trabalhar no ofício aos 12 anos, a revelar os rolos de um outro fotógrafo. Aos 14 mandaram-no fotografar casamentos, sozinho. No primeiro deram-lhe uma câmara Voigtlander 6×9 e 10 rolos, isto eram 80 fotos para quase 400 convidados! Os casamentos eram sempre motivo de reunião para as pessoas da terra e pediam ao fotógrafo retratos específicos como “a noiva com todas as solteiras, o noivo com todos os solteiros”. A certo ponto, o jovem Eduardo já disparava a câmara sem rolo, sem coragem de dizer às pessoas que o filme tinha acabado.

Anos mais tarde, depois do 25 de Abril, o Sr. Eduardo passou a trabalhar sozinho. O dono do estúdio, um homem retornado de Angola, comprou-lhe uma Polaroid que fazia fotos tipo passaporte. Nesse ano, com a mudança de regime e reestruturação de documentos obrigatórios, o Sr. Eduardo tinha filas de pessoas à porta para tirar as fotos tipo passe para os novos Bilhetes de Identidade. Durante muito tempo, sendo fotógrafo num período em que ninguém tirava fotografias, o Sr. Eduardo diz ter vivido numa prisão de porta aberta, trabalhando incessantemente em casamentos, batizados e retratos. Nunca quis passar o trabalho para as mãos de ninguém, disse-me confiar apenas em si e no seu trabalho.

De todas as vezes que vamos ao 180 Creative Camp e a Abrantes, a Gelataria Lis é paragem obrigatória. Ao final de almoço, lanche ou final do dia, um cone de bolacha com gelado de melão pela módica quantia de 1 euro, parecia ser o pedido mais comum ao balcão.

Foto de Matilde Viegas

Uma das funcionárias falou dos antigos donos que venderam a gelataria a alguém jovem, juntamente com as receitas, e que assim foi possível manter a Lis para a geração seguinte. O ambiente é familiar, as pessoas das lojas em redor vão lá dar dois dedos de conversa e tomar o café e o gelado, algumas delas falaram comigo acerca do 180 Creative Camp, entusiasmadas com a possibilidade de novas intervenções na cidade.