Aquecimento global pode gerar a próxima grande recessão, alertam investidores

Entre os co-signatários da declaração, encontram-se investidores das mais diversas áreas; a sua preocupação serve como alerta e pode servir como legitimação de políticas mais assertivas dirigidas ao sector empresarial.

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Quando o assunto são os grandes problemas da humanidade a discussão divide-se, quase sempre, em grandes grupos de interesses. De um lado, a população e, do outro, corporações; de um lado, activistas e, do outro, responsáveis dos Estados. O caso do aquecimento global não é excepção e, salvo raras excepções, é por todos considerado um dos maiores desafios a curto prazo da Humanidade. Se esta ideia é clara e expressa entre a comunidade científica e vai sendo absorvida pela população em geral, agora foi a vez dos representantes do grande capital darem sinais da sua preocupação.

Um grupo de 415 investidores, que controla no total 32 biliões de dólares — na forma inglesa, 32 triliões — entregaram, esta segunda feira na cimeira para o clima das Nações Unidas, a decorrer na Polónia – um país com emissões a cima da média –, um comunicado em que avisa que as mudanças climáticas podem desencadear a próxima grande recessão.

Na declaração conjunta, os representantes do capital alertam para os efeitos nefastos que as alterações da temperatura média poderiam ter na economia global, um valor que estimam que se possa situar nos 23 biliões de dólares por ano.

Entre os co-signatários da declaração encontram-se investidores das mais diversas áreas como os seguros, a banca ou os fundos de pensões – uma área especialmente desenvolvida nos EUA; a sua preocupação serve como alerta e pode servir como legitimação de políticas mais assertivas dirigidas ao sector empresarial.

Na carta com duas páginas de texto e 11 de assinaturas dos seus representados, o grupo sistematiza as suas preocupações e os princípios que corroboram enquanto solução. O primeiro ponto passa por garantir o cumprimento do Acordo de Paris, acelerar a transição do investimento privado para indústrias de menor emissão de carbono através de políticas públicas que sigam os princípios do acordo de Paris, da cessação de subsídios a negócios dependentes do combustíveis fósseis e a imposição de datas para a mudança. O último ponto defendido é a criação de mecanismos de monitorização do impacto do clima nas finanças.

Esta cimeira, com o apelo a novas medidas de controlo das emissões de carbono, surge em paralelo com os protestos dos Coletes Amarelos, motivados numa primeira instância pela criação de um imposto verde; neste encontro global, o assunto não foi desprezado. Observadores na Polónia citados pelo The Guardian dizem que a forma como se previa operacionalizar o imposto em França é o exemplo de como não fazer, apelando a racionalidade na taxação e a medidas economicamente significativas. Para a observadora Camilla Born, da E3G, os Governos devem procurar equilibrar os impostos de carbono com taxas sociais compensatórias, de modo a garantir que o custo das medidas não recai sobre os mais desfavorecidos — levando a revoltas como a que se viu.

Em cima da mesa na Polónia estão as grandes questões do ambiente e, pela sala, passeiam alguns elefantes. Desde a assinatura do Acordo de Paris, empresas norte-americanas, chinesas e japonesas já investiram pelo menos 500 mil milhões de dólares em novas centrais de processamento de carvão. Já a Polónia, país anfitrião, é exemplo de uma economia dependente dos combustíveis fósseis e com dificuldades na dimensão social da transição – é preciso não esquecer que os derivados de carbono são meros combustíveis que põem a andar indústrias inteiras.