Brexit: uma novela dos tempos modernos

Parte 1 de 2: o pequeno-almoço britânico.

Lembro-me de ver em directo a contagem dos primeiros votos. Parecia sério ao início, parecia que o Reino Unido ia mesmo sair da União Europeia! Os pundits estavam certos: este ia ser bem renhido. Lá para a uma da manhã, com uma pequena porção contabilizada, a ânsia fininha tinha-se esmorecido num alívio mentiroso. Neste espírito fechei os olhos e fui dormir.

Na manhã seguinte, e ao inteirar-me que tinha acordado, agarrei o telemóvel com os olhos ainda enevoados. Os próximos cinco minutos ficar-me-ião para sempre na mente. Senti um profundo choque, abrindo a minha boca involuntariamente, e pensei “e agora?”. Bastaram-me poucas horas para perceber que esta reação era compartilhada pela maioria e que a classe política que havia efetivado este voto, a grosso modo, também partilhava a minha ignorância e pânico existencial.

No dia 23 de Junho de 2016, o Reino Unido votou num referendo não-vinculativo que se tornaria na questão política existencial mais controversa no seu solo desde o pós-guerra. A pergunta “deve o Reino Unido permanecer um membro da União Europeia ou abandoná-la?” é admitidamente simples; as suas consequências não tanto. Nesta série de artigos – meus e do Daniel Hoesen – tento enquadrar o contexto histórico e social do Brexit, o que dele adveio, e como está a ser executado.

A situação espremida num expresso curto

Corria o ano de 2010. David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido, jovem conservador e menino lindo de direita vindo das elites de Eton, deu uma vitória ao seu partido, coligado com os Democratas Liberais. Para expandir o seu poder após este primeiro mandato, Cameron tomou notas vindas dos resultados da Eleição Geral de 2015, que acabou por o reconduzir ao cargo com uma maioria absoluta. As decisões que daí resultaram foram responsáveis por uma das mais inacreditáveis apostas políticas das últimas décadas. Spoiler alert: Cameron acabou por perder.

Um conservador algo progressivo, a favor do mercado livre e global e afirmado europeísta, Cameron sentiu duas ameaças no seu caminho no rescaldo das eleições. Uma, vinda do seu homólogo na oposição, e portanto externa, deveu-se à insurgência de Jeremy Corbyn, que tomou o Partido Trabalhista de surpresa e pintou-o de um certo vermelho de tons Marxistas. A total apatia de Corbyn pelo modelo do New Labour, personificado por Tony Blair e baseado num socialismo mais centrista e amigo da mão de privados e dos mercados, deleitava Cameron. Sabe-se bem que os britânicos sempre primaram por pragmatismo e que aventuras ideológicas não são propriamente o seu cup of tea (especialmente de Comunistas ávidos por comer criancinhas!). Os seus amigos na imprensa não demoraram a pintar uma imagem surreal de Corbyn – aqui está ele, tal como descrito pelo The Times, sentado na sua bicicleta-ao-estilo-de-Mao (há quem lhe chame também de bicicleta).

A outra, como um leão que se fixa hipnoticamente na sua próxima vítima, era algo in the making e haveria de levar a uma crise institucional, em direta contradição com o espírito político estável que por séculos havia vigorado. Especialmente na ala conservadora eurocética e dentro do seu partido, Cameron viu uma extensa fatia do seu eleitorado aderir em massa ao discurso de Nigel Farage, ex-banqueiro-tornado-político que edificou o UKIP, o Partido pela Independência Britânica. Farage não só nunca viu o ponto do projeto europeu como sempre se bateu por o destruir. Como eurodeputado, referia-se à Bélgica como um não-país e criticou a falta de democracia direta em dirigentes públicos. Para Farage, a UE representa o fim de toda a democracia e a vassalagem do Reino Unido a um super-estado de burocratas corruptos que adoram queijo, pão rústico e maionese. Leia-se, o usual populisme au dictionnaire.

Cameron identificou corretamente que a mensagem do UKIP poderia retirar a sua ansiada maioria em 2015. Para estancar a ferida, evitar a desagregação do seu próprio partido e suprimir os ganhos do UKIP,  Cameron prometeu avançar com um referendo à permanência do Reino Unido na UE em 2016.

A sua jogada aparentemente vitoriosa, que lhe haveria de dar a maioria na Câmara dos Comuns, acabou por abrir a mais irónica caixa de Pandora política dos tempos modernos. O resultado é sabido:  em Junho de 2016 o referendo dá a vitória ao “Não”; Cameron demite-se e leva a uma conturbada eleição do novo líder dos Conservadores. Os pesos-pesados do partido que se bateram pelo Brexit oferecem um drama digno de um Othello moderno.  As promessas pintadas num autocarro da campanha – “O UK paga 350 milhões de euros à UE por semana; em vez disso, vamos financiar o nosso SNS!” – foram aguadas no dia após o voto.

A Março de 2017, é enviada uma carta a Donald Tusk, Presidente do Conselho Europeu,  pedindo-lhe que se iniciassem procedimentos de saída da UE conforme o famoso (ou înfame) Artigo 50 do Tratado de Lisboa. A futura relação com a UE tem de ser estipulada até dois anos após o pedido de saída. Do primeiro dia até hoje, poucos assuntos conseguiram ser resolvidos. Nem toda a gente acredita que o RU vai sair. E os que acreditam não conseguem concordar como.

Que Brexit quer do menu?

Já se sabe o desfecho do referendo ditou que o Reino Unido não deve permanecer na UE. Mas que implicações se retiram daqui? Que tipo de saída seria esta? Saberiam os votantes sobre os novelos logísticos e institucionais que fazem toda a máquina estatal engrenar?

Os Conservadores escolheram a Secretária de Estado do Governo de Cameron para o suceder na Premiership: Theresa May. Porém, esta criatura política mostrar-se-ia algo estranha: robótica, desconfortavelmente forçada, marginalmente apta apenas para o que prepara, incapaz de se exprimir impromptu, assim como criadora de momentos de puro cringe.  A sua falta de visão específica, dizem uns por falta de pura convicção na causa, aliada à sua fraca popularidade mesmo dentro do seu partido, levou-a a proclamar truismos como “Brexit means Brexit!”

A discussão pública rapidamente se reduziu a soundbites que não seriam estranhos a quem pedisse pelo seu ovo cozido na perfeição: hard Brexit, soft Brexit? May informou-nos que era o seu desejo um “Brexit azul, branco e vermelho”. Roça o poético, concordarão.

Para uma certa fatia de direita,  o menu deveria ser um buffet comercial: o Reino Unido poderia agora finalmente comercializar com os países da Commonwealth (ou qualquer outros)!! Os tons de um saudosismo imperialista não deixam de penetrar este alinhamento político. Com os ‘good old states’, isto quereria dizer Make Breakfast Great Again. Trump, na sua ignorância acutilante que demonstrava quando falava do tema, mostrou-se a favor do Brexit com os seus usuais gimmicks de um aluno de 3 do 5º Ano: “I think it’s great.” Para May, a reaproximação aos EUA era algo natural, dada a sua renúncia a um estreitamento das relações aos seus ‘primos’ europeus e o enorme poder emanado pelo Uncle Sam.

Os britânicos detestam, no entanto, tudo o que faz Trump brilhar no seu país. A sua vacuidade intelectual, a sua arrogância, o seu narcisismo, a sua falta de honestidade e intencional distorção de fatos a seu favor. São pragmáticos e sabem que salvadores só vivem no universo literário.  Mais ainda, o seu conceito de “Nacionalismo Patriótico” é incompatível com a maneira como o orgulho britânico se expressa em sociedade. Não demoraram, contudo, a perceber que esta América de Trump não pode ser confiada quando toca a diplomacia.

Alinhar a visão estratégica do Reino Unido num mundo intransigivelmente globalizado não será fácil. Aquele sabor de imperialismo victoriano não apraz a progressistas e vice-versa. Ninguém sabe quão bem cozido este ovo ficará.

Contrariamente aos desejos dos hardliners, que querem uma completa separação da União Europeia e qualquer projecto de âmbito Europeu, um “Não” no Referendo não justifica essa mesma postura. Muitos votaram nesse sentido tendo em mente palavras de vários políticos tidos como “moderados”: que seria “facílimo” obter um acordo com a UE, que alfândegas jamais seriam impostas novamente.

E neste emaranhado de vontades e desejos que fechamos a primeira parte desta série. Depois deste pequeno-almoço à inglesa, a pergunta a colocar-se é mesmo: como se digere tudo isto? Na segunda parte, tentaremos esclarecer as consequências económicas e políticas a curto prazo do Brexit. As caixas de pandora abrir-se-ão inevitavelmente: a complexidade desta decisão flui para as mais estranhas praias e levarão a que o Reino Unido repense profundamente a sua relação entre si mesmo e o resto do mundo.

(Podes ler a parte 2 desta crónica aqui.)