O outro lado dos brinquedos: investigação expõe condições precárias em fábricas

A fábrica de brinquedos acima mencionada faz parte deste programa, pelo que diz estar a levar a cabo a sua própria investigação; já a Disney diz que irá escrutinar imediatamente estas alegações.

Numa investigação levada a cabo pelas Solidar Suisse e China Labour Watch, em parceria com o The Guardian, foi descoberto que as fábricas chinesas que produzem brinquedos para a Mattel, a Hasbro e a Disney (assim como para as alemãs Simba, Dickie, Schleich e Ravensburger) têm práticas ilegais de horários de trabalho e salários demasiado baixos para suportar uma família.

Por exemplo, na cidade de Heyuan, na fábrica de brinquedos Wah Tung, onde é produzida a boneca Princesa Ariel Canta & Brilha da Disney, os trabalhadores (quase exclusivamente mulheres) ganham cerca de 0,95 cêntimos por hora, não têm direito a subsídio de férias ou de doença e, se tirarem mais de três dias de baixa, são multados ou despedidos.

Esta investigação revelou, também, que cada boneca Ariel que é produzida rende às mulheres, na linha de produção, apenas 1 cêntimo (este valor representa o total de salários mensais das 36 mulheres na linha de produção, que trabalham em média 26 dias por mês, dividido pelo número total de bonecas que ajudam a produzir a cada mês). Sendo que o seu preço de retalho é de aproximadamente 35 dólares.

Durante a época baixa, o salário nesta fábrica ronda os 253€ (2000 yuan) e, em época alta, os 383€ (3000 yuan), comparados com o salário médio chinês, em 2017, que rondou os 977€ (7665 yuan). Claro que os níveis de exaustão são bastante elevados, mas o trabalhador extraordinário de mais duas ou cinco horas é a norma na fábrica, uma vez que o que se ganha no final do mês não é suficiente para suportar os custos de vida de uma família. Assim, estes trabalhadores fazem cerca de 175h extras por mês, quase cinco vezes mais o limite legal de 36h.

Fotografia de Solidar Suisse / DR

A investigadora que se infiltrou a linha de produção desta boneca durante o Verão notou, ainda, que a maior parte das mulheres tem mais de 45 anos, tendo sido procuradas porque “têm menos estudos, são mais bem-comportadas, mais obedientes e preocupam-se mais com as crianças e a família”, pelo que, para a fábrica, são “menos propensas a causar problemas e mais fáceis de gerir”.

Simone Wasmann, da Solidaire Suisse, pede que se enviem emails aos CEOs destas empresas de brinquedos para que estes partilhem os seus lucros com os trabalhadores. Para isso basta ir AQUI, seleccionar cada director e preencher alguns dados. O corpo do email já foi pré-redigido pela organização.

“É altura da empresa [Disney] retribuir às pessoas que fazem os seus brinquedos, aumentando os seus salários e reduzindo as suas horas e fazendo com que as fábricas obedeçam à lei [sobre horas extras]. Uns poucos cêntimos no preço de uma boneca ou alguns cêntimos a menos nos bolsos da empresa permitiriam que os trabalhadores ganhassem um salário digno”.

Tanto a Mattel como a Disney fazem parte do Programa de Brinquedos Éticos do Conselho Internacional das Indústrias de Brinquedos que define os padrões esperados neste sector e que tem como missão melhorar as condições de trabalho nas fábricas. A fábrica de brinquedos acima mencionada faz parte deste programa, pelo que diz estar a levar a cabo a sua própria investigação; já a Disney diz que irá escrutinar imediatamente estas alegações. A Mattel, por sua vez, diz não produzir nas fábricas mencionadas no relatório.