O que se acordou e o que ficou por debater na cimeira do G20

Uma cimeira sem grandes debates e durante a qual se evitaram ao máximo temas polémicos.

G20 Foto de família
Via G20 Argentina / Flickr

Acordos e desencontros marcaram a reunião do G20 deste ano. Trump evitou cruzar-se com Vladimir Putin depois de ter recusado um encontro oficial entre os dois durante a cerimónia, devido ao incidente no estreito de Kerch. Realizou-se apenas uma “reunião informal” entre dois homólogos de ambos os países, onde não se sabe ao certo o que foi discutido. Apesar de, na semana passada, a Ucrânia ter reforçado a sua cólera contra a Rússia e pedido à NATO maior presença naval e aérea entre o Mar Negro e o mar Azov, de modo a defender-se da vizinha, nada foi dito sobre o assunto durante o evento, que decorreu entre 30 de novembro e 1 de dezembro, na Argentina.

A reunião que junta, todos os anos, líderes da União Europeia, das maiores economias do mundo e emergentes contou também com a presença do príncipe da Arábia Saudita, Mohamed bin Salman, primeiro a aterrar em Buenos Aires. A presença forçada de MBS, como gosta de ser tratado, causou desconforto durante a cimeira, que se realizou dois meses após o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi no consulado daquele país em Istambul. Khashoggi publicava ocasionalmente textos que criticavam a trajectória política e económica do novo reinado saudita no Washinton Post. Para além do assassinato de Khashoggi, a aliança de quatro anos entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos contra o Iémen, que provocou a maior onda de fome no país, não ajudou a uma recepção desejada de MBS na cimeira. O conflito já levou à morte de 85 mil crianças por subnutrição no Iémen. Mas nem a crise no Iémen nem o assassinato de Kahshoggi marcaram a agenda do encontro em momento algum.

No meio de uma cimeira sem grandes debates e durante a qual se evitaram ao máximo temas polémicos, os EUA, o México e o Canadá aproveitaram para assinar formalmente o novo tratado de livre-comércio, apelidado “T-MEC” pelos mexicanos, e que substitui o antigo NAFTA. Mas o T-MEC não foi a única trégua comercial estabelecida na cerimónia. Trump reuniu-se também com Xi Jinping, presidente da China, para dar início a uma possível negociação para acabar com a luta comercial travada entre os dois países, no último ano. EUA e China vão, a partir de agora, tentar chegar a um acordo, sem ameaças de imposição de taxas e outras represálias e Trump já começou a tweetar sobre o assunto.

A declaração final

Sem grande debate sobre o reaparecimento de novas medidas comerciais proteccionistas e apenas admitindo que existem, hoje, “problemas a nível comercial” internacionalmente, os líderes presentes na cimeira limitaram-se a obter consentimento sobre a necessidade de implementar alterações no modo de funcionamento da Organização Mundial do Comércio (OMC). Outro dos pontos de consenso foi o reafirmar do apoio ao Acordo de Paris, que pressupõe limitar o aquecimento global, à excepção de Donald Trump.

Contudo, uma ambiguidade surge na declaração reiterada pelo G20, e intitulada “Construindo consenso para um desenvolvimento justo e sustentável“, onde os líderes defendem e pretendem trabalhar para a erradicação da fome no mundo. Em nenhum momento do evento foi abordada a participação da Arábia Saudita na crise de subnutrição que o Iémen atravessa.

Sobre os novos movimentos migratórios, a declaração apenas reconhece que este se trata de um “problema global com consequências humanitárias, políticas, sociais e económicas” e que este tema fará parte da próxima reunião do G20, que se realizará para o ano, no Japão.

Para além dos temas anteriormente referidos, os 20 comprometem-se na declaração a promover a regulação das criptomoedas, tendo em vista o “combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo”.