‘Clipping’ faz milhões e nem sempre os jornais ganham com isso

Empresas de ‘clipping’ têm de ter uma licença para poderem operar, caso contrário poderão estar em violação de direitos de autor.

Foto de Daniel Von Appen via Unsplash

O ‘clipping’ é no mundo jornalístico uma actividade antiga. Consiste na recolha e compilação de notícias, reportagens e outro tipo de informações que interessem a determinada empresa privada ou entidade pública. É um serviço subscrito por estes clientes e tratado por empresas como a Cision; o objectivo é que os clientes possam saber onde foram notícia e acompanhar o que é dito sobre eles na comunicação social.

Na edição impressa desta semana (artigo com paywall), o Jornal Económico avança que só em 2017 a Cision Portugal, líder no mercado de serviços de ‘clipping’, facturou 9,7 milhões de euros, tendo obtido, depois de cobrados os impostos, um resultado líquido de 2,64 milhões de euros. Questionada pelo jornal se paga alguma compensão aos órgãos de comunicação social cujo conteúdo utiliza em ‘clipping’, a Cision Portugal não respondeu. Certo é que, à semelhança da Cision Portugal, outras empresas de ‘clipping’, como a Manchete Research e a Multicomunicação não estão registadas na Visapress, entidade sem fins lucrativos que gere os colectivamente direitos de autor da imprensa em Portugal e que integra a rede europeia PDLN (ou Press Database and Licensing Network).

Conforme explica o Económico, as empresas de ‘clipping’ têm de obter uma licença junto da Visapress para poderem utilizar e divulgar os conteúdos dos jornais, revistas e outras publicações periódicas, “sob pena de estarem a violar eventuais direitos de autor”. Só a News Search, a Media Monitor, a Press Power e a Surprise Evolution estão licenciadas na Visapress. Vera Pereira, da News Search, conformou ao jornal que “nós pagamos uma compensação através dessa licença [da Visapress]”, não adiantando valores, referindo ser uma informação confidencial.

A Visapress é uma das nove entidades nacionais ligadas aos direitos de autor que, em Setembro passado, fizeram um apelo conjunto a favor dos controversos Artigos 11 e 12 da proposta reforma de direitos de autor em curso na União Europeia. O Artigo 11 irá prevenir que o ‘clipping’ de conteúdos digitais de órgãos de comunicação social possam também ser utilizados sem compensação para quem os produziu ou, melhor, para as empresas onde quem os produziu trabalha. Contudo, este Artigo 11 poderá trazer consequências nefastas para a imprensa, especialmente para publicações independentes e que não estejam associadas aos grupos pré-estabelecidos no ecossistema nacional.