Coletes Amarelos: a revolta paradigmática

Este movimento de protesto começou no espaço comum e um dos que mais partilhamos, o Facebook, onde desde então se mantém, sem uma liderança ou concentração expressa, como o resultado de descontentamento generalizado e transversal a várias camadas da sociedade.

Manifestantes em Belfort. Fotografia de Thomas Bresson.

Com a evolução da tecnologia, a proliferação de estudos científicos e de projectos de investigação de todos os tipos e níveis de credibilidade e a nova forma de fazer notícias – sobretudo, comentando-as, evitando o cruzamento de perspectivas que saem do escopo do legitimo percebido pelo comentador –, fenómenos sociais de grande magnitude vêem a sua riqueza social reduzida a justificações convenientes que caibam em headlines ou tweets. O caso dos Coletes Amarelos não é excepção; pelo contrário, pode ser visto como paradigmático no sentido em que, por muito que se avolume a revolta e a ela se juntem pessoas de diferentes quadrantes, as explicações propostas pelos especialistas, muitas vezes sujeitos à pressa do directo, são quase sempre simplistas. Não porque ignorem ou desconheçam certas nuances do fenómeno, mas porque se perdeu uma certa noção de profundidade no intelecto dos homens e mulheres. Com a mesma superficialidade e leviandade com que fazemos julgamos nas redes (ah, Liberal! ah, Comuna!), observamos os fenómenos do mundo real e assim explicamos tudo com chavões.

“Os coletes verdes protestam contra o imposto verde logo são liberais a pedir menos impostos.”

“Os coletes verdes são o povo a mostrar que está farto das políticas neo-liberais de Macron.”

Ou em versão Trump:

Se é certo que qualquer uma destas simplificações pode, no limite, ser considerada correcta, o problema é que todas elas se limitam a uma lógica dicotómica como se a política se pudesse reduzir aos binários ideológicos que povoam o nosso imaginário. Por exemplo, Trump tem no acordo de Paris uma das suas fixações daí que procure usar todo e qualquer pretexto para validar a sua posição, instrumentalizando a sua participação no debate e aproveitando a falta de objectividade com que se conhecem as reinvindicações dos protestantes. É que se essa diversidade de pontos de vista e motivações para a revolta podia ser entendida como riqueza democrática oferecendo ideias ao debate, no estado actual e no plano global, transforma-se em granada de argumento retórico entre os diferentes grupos. À distância, o conflito torna-se mais difícil de decifrar; mostra-nos uma França que raramente vemos e vozes que raramente ouvimos como a dos camionistas ou, num segundo momento, as dos estudantes universitários que acrescentam camadas à questão.

Afinal de contas, este movimento de protesto que desde o dia 18 de Novembro ocupa estradas e ruas por França e que nas últimas semanas se concentrou em Paris, começou muito antes no espaço comum e um dos que mais partilhamos, o Facebook, como desde então se mantém, sem uma liderança ou concentração expressa, como o resultado de descontentamento generalizado e transversal a várias camadas da sociedade.

É um dos mais expressivos desde o histórico Maio de 68 e, mesmo apesar do lado que nos chega ser sobretudo marcado por confrontos, as sondagens locais mostram a aceitação generalizada do protesto. A percentagem aferida por uma sondagem desceu de 72% para 66%, números ainda assim bastante significativos que indiciam a generalidade do descontentamento. Por toda a França e sobretudo em Paris, as concentrações foram massivas — só no passado sábado calcula-se que tenham manifestado 31 mil pessoas, 8 mil das quais na cidade de Paris; já a resposta do Estado foi altamente repressiva e musculada, com cerca de 89 mil homens espalhados pelo país a compor o dispositivo de segurança. Em resultado dos confrontos entre ambas as partes, centenas de pessoas acabaram detidas ou identificadas, ora por delitos flagrantes ora numa atitude preventiva; foi também esta resposta, em alguns casos aparentemente desproporcional, que espalhada nas redes sociais foi alimentando o protesto, conferindo-lhe simultaneamente um alcance global.

Ao longo de todo o protesto foram vários os dias de concentração em alguns pontos estratégicos/simbólicos do país — desde o centro de Paris a trechos de estradas nevrálgicos no transporte de mercadorias ou combustível. A organização era difusa mas a revolta era evidente contra um inimigo abstracto e que quase todos definiam de forma diferente. A fúria dos protestos foi seguindo múltiplas direções e, segundo suspeitam as autoridades francesas, a intromissão de grupos organizados no movimento foi o que fez disparar a violência desproporcional de um movimento que até esses momentos tinha absoluta legitimidade — como se perceba pela resposta estatal. A violência aumentou a dramatização do assunto, em oposição à racionalidade que a política exige, e assim tirou espaço a quem saiu à rua de modo pacífico para se fazer ouvir. De resto foi o próprio Emannuel Macron que após um período de silêncio e descrição assumiam a sua quota-parte de responsabilidade pelo estado das coisas, reconhecendo o motivo de indignação dos franceses pela degradação de serviços públicos.

“I assume my share of the situation – I may have given you the feeling I have other concerns and priorities. I know some of you have been hurt by my words”

A divergência serenou perante a promessa de Macron de aumentar 7% o salário mínimo do país mas o caso não se fica por aqui com a dimensão do protesto a garantir que perdurará na memória colectiva por muito tempo. O aviso aos governos, a possibilidade de mimica noutros países e a lição sobre contemporaneidade ainda nos deixam com muito por dizer.


Este é o 1º de 3 artigos sobre os Coletes Amarelos.
Coletes Amarelos: redes sociais = revoluções virais
Coletes Amarelos: o imposto verde foi só uma faísca