Coletes Amarelos: redes sociais = revoluções virais

Se muitas vezes falamos da problemática dos filtros de bolha que, por exemplo, fazem os jornalistas selecionar os temas mais por serem tendência das redes sociais do que por serem relevantes do ponto de vista social, este caso é, permitam-me a expressão, o exemplo perfeito de quando uma, ou um conjunto de bolhas explode.

Este é o 2º de 3 artigos sobre os Coletes Amarelos.
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Todos já vimos em algum espaço de comentário ou debate louvar-se os poderes das redes sociais, no entanto, poucos foram os momentos em que conseguimos perceber como esse complexo mundo pode invadir o mundo real tão bem quanto neste caso. Se muitas vezes falamos da problemática dos filtros de bolha que, por exemplo, fazem os jornalistas selecionar os temas mais por serem tendência das redes sociais do que por serem relevantes do ponto de vista social, este caso é, permitam-me a expressão, o exemplo perfeito de quando uma, ou um conjunto de bolhas explode. Considerando “bolhas” como círculos fechados que se criam nas redes sem uma grande conexão entre si.

O Buzzfeed.News foi um dos jornais que trabalhou melhor sobre esta perspectiva, traçando a narrativa desde a primeira pessoa chateada até à revolta completa. Tudo terá começado com uma petição criada no final de Maio por uma jovem empreendedora francesa contra o preço dos combustíveis; a princípio a jovem não terá tido atenção, nem assinaturas, mas tudo mudou quando foi a uma rádio local, no princípio de Outubro. Esta entrada no circuito mediático local fê-la tornar-se viral — graças ao algoritmo que privilegia as notícias locais — e a partir daqui o caso perdeu o controlo. A petição de Priscillia Ludosky começou a ser partilhada e replicada em grupos fechados de Facebook — um deles criado por um português — e deu o mote para que o protesto saísse às ruas.

Já em Janeiro, os grupos de Facebook — denominados Anger “XX”, com o número a indicar o seu local de origem — tinham servido para lançar protestos de rua e bloqueios de estrada mas depois de um período de inoperância e sem ter atingidos os objectivos a que se propunham, viram neste novo movimento viral a tração que precisavam para desencadear uma nova ofensiva. Afinal de contas, na internet, tudo se mede em engagement e interação.

Mouvement des gilets jaunes, à Argiésans, le 09 décembre 2018.

O nascimento do viral, a notícia que entretanto viajara de medias locais até outros nacionais como o Le Parisien ou o Liberátion foi a base em que se criou toda o incentivo social. Foram dois homens, camionistas, do mesmo subúrbio de Ludosky a transformar a sua petição num evento que propunha o bloqueio de artérias circuláveis, algo que se espalhou e acabou por gerar maior adesão do que se pensava. No primeiro dia estima-se que se tenham manifestado cerca de 300 mil coletes amarelos por toda a França, o que resultou em mais de 500 feridos e 2 mortos; também na Ilha de Reunião, um departamento ultramarino francês o protesto se fez sentir originando a presença militar no local.

17 de Novembro foi o maior dia de protesto mas longe de ser o único, deu início a uma sequência que demorou mais de 4 semanas; o número de manifestantes ia diminuindo mas a sua cólera ia aumentando. O evento que era o culminar do viral online, deu lugar a um novo movimento viral agora já com uma referência concreta, os Coletes Amarelos. Assim, passados 10 dias surgia o grupo ‘COMPTEUR OFFICIEL DE GILETS JAUNES‘ que desde então já soma 1 milhões e 700 mil membros, onde é impossível publicar ou comentar mas são diariamente publicadas actualizações sobre o assunto. Por exemplo, uma das mais recentes, uma sondagem sobre a reação ao proposto por Macron. As multiplicações das mensagens no Facebook tornam-se até difícil de monitorizar; foi também lá que se propôs a criação de lideranças no grupo e até a promoção de referendos online — uma prova da ligação e confiança entre protestantes e redes sociais.

Publicado por Matt Fournier em Domingo, 9 de Dezembro de 2018

On avance, partagez en masse

Publicado por André Lannee em Domingo, 25 de Novembro de 2018

Outra das particularidades da evolução do assunto nas redes sociais tem a ver com a sua disseminação além fronteiras ou com o incentivo dado por agentes estrangeiros infiltrados nas #trends. A linha de investigação terá mesmo sido considerada pelas forças de segurança francesas que não descartam a possibilidade de ingerência estrangeira coordenada através de bots ou outros instrumentos. No mundo hiperglobalizado, as leituras têm de ser ainda mais abrangentes. Uma pesquisa rápida no Google ou uma volta pelas redes sociais mostra como a RT, Ruptly ou Sputnik News, orgãos com ligações à Russia contam uma história diferente de outros; por exemplo a Bloomberg, norte-americana, decidiu focar-se na alegada ingerência russa, o que evidencia esta guerra de narrativas mediáticas que decorre sobre o assunto. Até que ponto cada uma delas é mais ou menos legítima, será uma das questões do nosso tempo.

O poder do colete amarelo

Foi também nas redes sociais que nasceu o principal símbolo desta manifestação. O vistoso colete amarelo foi proposto num vídeo gravado por um camionista no final de Outubro e tornou-se, assim, de modo orgânico no símbolo de uma manifestação sem igual.

Je veux voir le max de gilets jaune sur les tableaux de bord pour le 17 nov 2018Partager Avec comme hashtag Twitter ect… #BlocageNationalCarburant #17Novembre

Publicado por Ghislain Coutard BgCodingbmw em Quarta-feira, 24 de Outubro de 2018

A dimensão distintiva do colete de alta visibilidade é comparável por muitos com os Sans-Cullotes — um dos grupos demarcados do período da Revolução Francesa. O adereço acessível e barato facilitava a junção de qualquer pessoa ao protesto e em qualquer momento, tornando mais visíveis as demonstrações pelas ruas e mais discreta a preparação das manifestações.

De resto, a ubiquidade do colete permitia ainda que a narrativa se expandisse; um exemplo disso deu-se com a chegada de Macron à Argentina para o G20 onde à saída do avião era esperado por um #GiletJaune e o momento não passou despercebido.


Este é o 2º de 3 artigos sobre os Coletes Amarelos.
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