Coletes Amarelos: o imposto verde foi só uma faísca

Só o avolumar da confusão e a continuidade dos protestos depois de anunciada a suspensão do imposto deixaram explícito que as pessoas estavam na rua por bem mais que isso.

Manifestation du mouvement des gilets jaunes, à Belfort, le 01 décembre 2018.

Este é o 3º de 3 artigos sobre os Coletes Amarelos.
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Pelo facto de ter começado como um protesto directamente relacionado com o preço dos combustíveis, a ideia de que os manifestantes se revoltavam contra o imposto verde dominou a agenda mediática durante os primeiros dias de protesto. Só o avolumar da confusão e a continuidade dos protestos depois de anunciada a suspensão do imposto deixaram explícito que as pessoas estavam na rua por bem mais que isso. Uma volta pelos grupos de facebook de base às manifestações dão-nos algumas ideias do que pode estar na base das reivindicações. Sim, é verdade que o preços dos combustíveis é um dos pontos mais consensuais mas não se fica por aí. Outro ponto importante e com uma dimensão simbólica muito grande tem a ver com o imposto sobre as fortunas transformado por Macron num imposto sobre habitação; no fundo de todos os casos concretos a ideia generalizada de que sendo a França um país rico as desigualdades sociais se encontram em crescendo fruto das políticas dos últimos 2 anos. Neste ponto é preciso lembrar como foram polarizadas as eleições francesas, com uma segunda volta entre Macron e Le Pen, onde o primeiro venceu por uma espécie de convergência de forças eleitorais que desde logo davam a ideia de fragilidade ao seu mandato. No dia das eleições, o conhecido jornal francês Liberátion, com tendência para a Esquerda, escrevia na capa “Faites ce que vous voulez mais votez Macron”.

A popularidade de Macron nunca foi um ponto muito forte; apesar das boas graças da imprensa, uma sondagem feita até Setembro deste ano revelava que apenas 29% dos franceses estava contente com o seu desempenho, um número que durante os protestos decaiu ainda mais até aos 23% e torna-se reveladora do descontentamento dos franceses.

Depois de passados os maiores conflitos e como proposta de resolução, Macron anunciou a subida de 7% do salário mínimo, um valor que representa cerca de 100€ e a eliminação de um imposto sobre os pensionistas; Esta proposta, longe de serenar por completo os ânimos pode abrir portas a problemas no seio da União — um ponto fulcral nesta história. A medida anunciada por Macron pode custar ao estado francês ente 8 e 10 mil milhões de euros e fazer o défice francês derrapar até 1% para além das previsões e promessas exigidas pela União. Neste enquadramento a França beneficia da sua posição central na União mas pode abrir precedentes para a exigência de outros governos e de outros povos. Por exemplo, o governo italiano composto maioritariamente pelo movimento populista em Itália esteve envolvido na mesma discussão, ao ponto de haver coletes amarelos neste caso a protestar a favor do Governo, contra as regras impostas pela União.

O descontentamento com as políticas de Macron não se fica por aí e mesmo a questão do imposto verde merece uma segunda leitura. Como diziam observadores na Polónia à margem da Cimeira do Clima, o imposto sobre o combustível como foi proposto é uma das piores formas de fazer a política concentrado os sacrifícios na população. Nesse sentido também se sente alguma discórdia em França. Macron anunciou no Fórum de Davos uma política ambiental forte, anunciou o fecho de centrais nucleares e metas ambiciosas no que toca à transição energética mas, se isso foi bem recebido pelo público internacional, os franceses dizem não ter condições para pagar a factura dessa transição sob a forma de impostos. A 27 de Novembro Macron viu-se obrigado a reformular os planos e adiar por 10 anos as metas a que Hollande se havia proposto — adiando o fecho de algumas das centrais nucleares para 2035.

Ser difícil apontar uma causa específica para todo o problema não é propriamente mau, mas é metafórico para a substância do problema global que engloba mais do que políticas concretas, a forma de pensar a política no abstracto que, no entender dos manifestantes beneficia empresas e o sistema financeiro — noutro ponto relacionado o governo de Macron propôs a possibilidade de venda da participação do Estado na entidade de Gestora dos Aeroportos, a ADP, de uma companhia Energética, Engie, e numa série de outras empresas, podendo esse dinheiro reverter para um fundo de inovação. Esta proposta valeu-lhe oposição tanto de Melechon como de Le Pen, ou do Socialista Hamon que descreveu o pacote de medidas como “uma prenda para os ricos”. Tudo isto enquanto cresce o investimento estrangeiro de empresas como a IBM, Google ou Goldman Sachs.

Outras demonstrações

A disseminação do protesto e especialmente das imagens dos confrontos deram má imagem à reivindicação mas o seu intuito era muito mais popular — e se quisermos democrático — que isso. Nessa óptica já se contam histórias que demonstram a humanidade daqueles que partilhavam o colete amarelo. Numa pequena cidade francesa os manifestantes e um grupo de motards resolveram juntar-se para uma acção de solidariedade de colete amarelo vestido em demonstração das nuances que o grupo abstracto e heterogéneo que saiu às ruas esconde em si com o colete fluorescente.


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