A febre amarela que se espalha pela Europa

À hora em que publicamos este artigo, sete horas depois do início marcado das manifestações, as notícias continuam a apontar a frustração dos manifestantes — poucos, desorganizados e rapidamente controlados pela Polícia de Segurança Pública (PSP).

Imagens de @md_jubes via Twitter

Há quem defenda que a religião e a ciência são as duas linhas férreas, que nunca se cruzam nem se separam, pois juntas mantêm o comboio em andamento. Podíamos substituir esses dois conceitos por extrema-direita e extrema-esquerda, mas neste caso, não só as linhas se cruzaram, como passaram a ser uma só, que anda de mãos dadas, vestida de amarelo e explora a revolta o descontentamento das populações com as políticas vigentes um pouco por toda a Europa.

Consoante o Governo que está no poder, assim é o flanco de onde surge a reacção mais concentrada. Se em França, o protesto original, se gerou de uma forma espontânea, numa sucessão de acções que foram subindo de tom e adesão, noutros países da Europa, como é o caso de Portugal, foram as extremas anti-sistémicas – não confundir com quem tem assento parlamentar e consideração pelas normas democráticas – que se aproveitou do hype criado pelas horas e horas de transmissões em directo de uma manifestação com sucesso – lembrar que Macron viu-se obrigado a ceder apesar da relutância inicial – para o tentar replicar localmente.

França

O caso francês é o mais paradigmático e a ele já dedicámos profunda reflexão em três artigos que podes ler aqui. Em resultado, aumentou-se o salário mínimo em 7% (cerca de 100 euros), para apaziguar a manifestação, e Emmanuel Macron ainda se declarou receptivo, com as devidas condições, ao referendo de iniciativa cidadã, uma das principais reivindicações dos coletes amarelos, que exige a consulta popular sobre todas as questões políticas, sociais e legislativas (sistema semelhante ao suíço).

O descontentamento popular era transversal a várias classes e profissões e os exemplos de quem se juntou a esta manifestação são mais que muitos. Por exemplo, Fanny Bessa é professora de dança em França; contactada pelo Shifter, lamenta não poder ir manifestar-se, porque perderia o emprego, mas explica o porquê da sua vontade em linhas gerais:

“Concordo que pagamos impostos demais. Pagamos tanto às empresas pequenas como às grandes. Os idosos que trabalharam toda a vida estão a pagar o mesmo, ainda que reformados. Concordo com o protesto porque não podemos continuar a pagar o mesmo que as pessoas ricas. Eu não posso participar porque não posso perder o emprego. A violência é praticada por pessoas que se aproveitam da manifestação para provocar o caos. A polícia, enviada às ordens do governo, mesmo que não queira tem de obedecer. Espero mesmo que vá mudar qualquer coisa, especialmente ao nível das ajudas económicas do governo para as famílias mais pobres; as empresas e as pessoas mais ricas deviam pagar os impostos proporcionais ao que ganham, não o mesmo valor que pagamos nós, as pessoas que recebem menos.”

Chegou-se a pedir a demissão do presidente francês, Macron; e, em plena época natalícia, o descontentamento popular resulta numa luta contra o Governo, o que já terá custado dois mil milhões de euros ao sector do comércio.

Portugal

Hoje é dia de protesto. “Parar Portugal”/”Vamos Parar Portugal” era o nome do evento que contava com 14 mil presenças garantidas e mais de 40 mil interessadas. Entretanto, foi apagado do Facebook, alegadamente a pedido das autoridades (a rede social apaga eventos quando o número de denúncias é elevado), que suspeitavam de uma (agora visível) infiltração de elementos de extrema-direita nas organizações dos protestos um pouco por todo o país.

Ainda assim, o protesto dos “coletes amarelos portugueses” manteve a calendarização para as sete horas da manha. Por essa altura, o jornal Público escrevia: “Coletes amarelos: Muita polícia e jornalistas. Mas ainda não há coletes amarelos”. À hora em que publicamos este artigo, sete horas depois do início marcado das manifestações, as notícias continuam a apontar a frustração dos manifestantes — poucos, desorganizados e rapidamente controlados pela Polícia de Segurança Pública (PSP).

Os motivos que levam a população a vestir os coletes amarelos são muitos, dúbios e a sua articulação muito pouco clara do ponto de vista político — com uma narrativa que se enquadra na lógica populista e mistura reivindicações óbvias com outras mais específicas camuflando as verdadeiras intenções: o aumento do salário mínimo, o aumento do subsídio de desemprego, o aumento das pensões e reformas, a redução de impostos nos combustíveis, as medidas de combate à corrupção e a reforma do serviço nacional de saúde são alguns dos exemplos.

Os locais onde estão marcados são vários e por todo o país, focando-se nas principais artérias de cada cidade. Em Lisboa – nas portagens da ponte 25 de Abril e Vasco da Gama, na A8 em Loures, na A1 em Alverca, no IC19 em Sintra, e na Rotunda do Marquês de Pombal; no Porto – no Nó de Francos; em Viseu – no Rossio; em Coimbra – na Casa do Sal; em Faro – no Fórum Algarve; em Trás-os-Montes – no Túnel do Marão; e em Braga – no Nó das Infias.

De resto, sobre este movimento mais haverá a dizer no futuro quando o tempo permitir uma análise clara da participação, quer quantitativa quer qualitativamente, e das suas consequências. Uma demonstração como esta, ainda que mímica de uma outra e possivelmente instrumentalizada por partidos políticos de índole anti-democrática, não pode ser desprezada sob pena de se agudizar.

Para já, vão-se multiplicando fotografias, vídeos e testemunhos do que se passa nas várias concentrações. No Marquês de Pombal, há quem se queixe do cerco preventivo da polícia que nem deixa os manifestantes ir à casa de banho; de outros pontos – alegadamente Loures – vêem-se imagens das Equipas de Prevenção e Reacção Imediata da PSP a retirar manifestantes de uma passadeira onde estavam sentados com o intuito de bloquear o trânsito.

Alemanha

Na Alemanha os protestos foram organizados, essencialmente, por grupos de extrema-direita, como o Pegida, o Zukunft Heimat (“Futuro País/Futura terra natal”, em português) e o Merkel-muss-weg-Mittwoch (“A Merkel tem de se ir embora na quarta-feira”, em português). Os motivos do protesto são, por ordem de grupo, a luta para acabar com a ‘islamização’ do Ocidente, a oposição à imigração e a destituição da chanceler alemã, Angela Merkel.

O jornal alemão FAZ lamenta que o país tenha sucumbido à febre amarela. Outra das causas da manifestação é o pedido do fim do pacto de Marrakech, recentemente aprovado.

“O nosso combate junta-se ao dos ‘coletes amarelos’ franceses. Aqui, queremos que Merkel parta. Na França, querem que Macron peça demissão. Mas, no fundo, temos o mesmo objectivo: dar poder aos povos da Europa, acabar com essas políticas inconsequentes que dão direitos aos estrangeiros, enquanto os europeus são tratados como cidadãos de segunda classe”, declarou um manifestante ao Le Monde.

Outros países

Na Bélgica e na Holanda, luta-se pela queda do poder aquisitivo. Na Bulgária protesta-se contra o aumento no preço dos combustíveis. Na Sérvia, um deputado da oposição, Bosko Obradovic, apareceu no Parlamento com um colete amarelo vestido para reclamar acerca dos preços dos combustíveis.

Os alicerces das democracias liberais tremem quando os extremistas de esquerda e de direita se aliam. O filósofo italiano Nicolau Maquiavel diz-nos que “um príncipe sensato e prudente deve achar maneira de os seus súbditos terem necessidade dele e do Estado em todas as circunstâncias de fortuna ou infortúnio. Assim, ser-lhe-ão sempre fiés”.