27 discos de 2008 que vale a pena recordar

10 anos é muito tempo, por isso recordamos-te os melhores discos de há 10 anos .

Ao contrário de muitos anos anteriores, a colheita nacional ombreia com a internacional. Deolinda, Foge Foge Bandido, Buraka Som Sistema, Os Pontos Negros e Tiago Guillul arrancam naquilo que é arranque para uma das mais desafiantes décadas da música portuguesa. Lá fora, Brooklyn está na moda e a folk é a nova grande cena. O hip hop tem um ano murcho, com Lil Wayne a safar a folha de presenças. Não tem sido sempre assim, mas boa parte das coisas mais frescas vieram do Reino Unido: These New Puritains, Jamie Lidell, Crystal Castles e Cut Copy, por exemplo. Eis uma espécie de resumo.

Santogold/Santigold – Santigold: Do viveiro de Brooklyn, eis alguém com uma estética distinta, com ideias rock, mas também dub e grime, por exemplo, ou seja, mais próxima do cosmopolitismo de M.I.A..

Jamie Lidell – Com o revivalismo soul a fervilhar, Jamie Lidell faz representar o género masculino num mundo dominado por mulheres: Amy Winehouse, Duffy e até Sharon Jones. É a neo-soul é suposto soar a antigo? E isso é bom? Sim.

Mark Lanegan & Isobel Campbell – Ficou tudo muito surpreendido quando se percebeu que era ela que compunha quase tudo. Percebe-se: Mark Lanegan é homem de 1001 projectos e assim facilmente confundivel com fervoroso compositor. 2008 foi o ano de voltar a cantar as belíssimas canções de Isobel, mas também foram dias de Gutter Twins, por exemplo. Um “namoro” que correu sempre pelo melhor.

Flying Lotus – Los Angeles: Apanha o pós-Burial, mas é mais seguro situá-lo num pós-J Dilla, pois Los Angeles é já o 2.º disco de Flying Lotus, ainda que o primeiro em que chega a mais gente.

The Gaslight Anthem – Esqueçamos que, depois de 59 Sound, se tornaram esquecíveis. O melhor que se pode dizer dos Gaslight Anthem é que não é surpreendente o apadrinhamento do Boss.

Beck – Numa altura em que vivíamos o momento Danger Mouse, Beck chama-o para a produção de um disco pop tremendamente eficaz.

Vivian Girls – O primeiro de uma data de grupos de miúdas que surgiu ali entre o final da última década e o início desta. 22 minutos que chegam e sobram.

Wale – Wale ainda antes dos álbuns, ainda antes do som de hoje. Até 2009, só mixtapes e esta é a 4.ª. Mixtape about Nothing é obviamente inspirada no show about nothing: Seinfeld. Por norma, os rappers são mais Scarface, O Padrinho ou Sopranos. Wale parecia diferente até se tornar igual aos outros.

Glasvegas – A pretensão seria ser a banda mais triste do mundo, recorrendo a letras trágicas, guitarras épicas e um adeus ao som lo fi que talvez os tenha afastado de um maior reconhecimento. Subvalorizado.

Lil Wayne – Em 2008, Kanye papou MTV EMA para Ultimate Urban, mas foi pronto a dizer: “este foi o ano Lil Wayne”. É uma das raras vezes em que Yeezy sabe comunicar e, pasme-se, tem razão. The Carther III é dos poucos álbuns de 2008 dignos de registo. Talib disse que “Dr. Carter” é uma das melhores canções de sempre, a bomba “Amilli” terá sido gravada à 1.ª, em registo freestyle. Vendeu 1 milhão na 1.ª semana e é o último grande álbum de Weezy.

Spiritualized: Apesar de ser mais importante por aquilo que representou, o ressurgimento de Jason Pierce depois de quase ter deixado este mundo, do que pela música que também é digna de registo.

Fleet Foxes: Protagonistas da história do ano, a par de Bon Iver. O homónimo dos Foxes vem do nada, tal como For Emma, Forever Ago. Para muitos, o ábum do ano.

Times New Viking – Rip it Off: Até aqui quase difíceis de ouvir, os Times New Viking tornam-se melódicos o suficiente para furarem listas de melhores do ano em vez de ouvidos.

These New Puritans – Beat Pyramid: A estreia dos These New Puritans é tão vitaminada que poucos perceberam que aquelas jams sobre números e cores escondiam uma banda com ambicionava ser reconhecida para lá dos singles. Ainda assim, um dos discos britânicos mais entusiasmantes do ano.

Cut Copy – In Ghost Colours: E, depois de Sound of Silver, o rock volta a ter motivos para dançar. Mas, ao contrário da banda de James Murphy, os australianos são mais pop, com canções que não chegam aos cinco minutos. A comparação não serve apenas para situar um som. Tim Goldsworthy, da DFA, é o produtor de In Ghost Colours. O resultado é um dos sons mais personalizados do ano.

Bonnie Prince Billy – Lie Down in the Light: Em ano de Fleet Foxes, qualquer disco de 2008 que tenha tentado ir às raízes norte americanas com resultados, como é o caso, acabou por ficar ofuscado. Com um músico tão hiperactivo, é normal as coisas nem sempre sairem interessantes, mas não é o caso.

Lykke Li – Youth Novels: Embora nunca tenha perdido o fôlego, a pop sueca da 1.ª década apresentava uma vitalidade que, de volta e meia, rendia artigos focados numa cena que apresentava nomes como Robyn, Jens Lekman, The Sounds e Peter Bjorn And John. Youth Novels é a estreia de uma miúda de 22 anos em tudo o que isso tem de bom e menos bom. Felizmente, a parte boa ganha de goleada. Pop, sim, mas diferente do que iam fazendo os pares. É também o ano da estreia do conterrâneo Tallest Man on Earth, mas 2008 pertence a Lykke Li.

Tiago Guillul – IV: Tudo isto é comovente e condizente com uma espécie de rock gospel a que podemos associar os Arcade Fire, embora Guillul seja bem mais óbvio na infinidade de referências bíblicas que ocupam IV. Aliás, de certa forma, o disco recorda-nos uma pregação: tem muitos versículos e histórias da Bíblia, momentos emocionais e outros ainda mais ríspidos, em que mete o dedo na ferida.

Os Pontos Negros – Magnífico Material Inútil: Nos fóruns e webzines melómenas, as comparações seguiam inevitavelmente para os Strokes. Mas oiça-se “Tempos de Glória” e destaque-se “eu só quero ver-me livre / Das tendências dos anos zero / Registar na minha memória / Tempos idos de glória”, e perceba-se que há uma relativa angústia em relação às comparações inerentes a um tempo em que já nada soa a novo e os Pontos Negros até soavam a novo no Portugal pós-2007.

Vampire Weekend – Vampire Weekend: Era para ser um provável fracasso cinematográfico (é espreitar para o trailer), mas acabou nome de banda de sucesso: Vampire Weekend. Quatro jovens acabados de sair da universidade, de Columbia, num contexto ideal, a Brooklyn da moda, e a editar no inverno o disco desse verão de 2008.

Deolinda – Canção ao Lado: Há muita Lisboa, mas também o resto do país e só nomeamos a Capital porque são os próprios que a nomeiam em “Lisboa não é a cidade perfeita”. “Fon Fon Fon” e “Movimento Perpétuo Associativo” são canções que vão durar para sempre.

Foge Foge Bandido – O Amor Dá-me Tesão / Não fui eu que o Estraguei: Talvez as canções que não são bem canções, tivessem como 1.ª intenção chegar a esse ponto: em que se tornam canções. Ou não. Provavelmente não. Ou, coisa mais provável, este disco é mesmo um evento tão pessoal quanto possível, um pouco egoísta até, em que o Manel se está a marimbar para todos nós e faz aquilo que quer, até porque, no final das contas, a edição é de autor e isso é o quão independente poderás ser. Daí que todo o culto à volta deste registo seja um pouco estranho. Não há canções pop, não há singles, não há coisas orelhudas. E no entanto, as palavras, as melodias e os jeitos do Manel tocaram tanta gente. Não são apenas as edições esgotadas ou as centenas de likes em publicações que partilham estas canções. É uma ideia partilhada por muitos, a de que este disco (vamos chamar-lhe assim) é importante para uma data de gente.

Crystal Castles – Crystal Castles: Com Ataris 8 Bit — imagine-se — e samples de rap, punk, noise e electrónica. Na altura, disse-se que soava a bugs de computadores misturados com os tais sons de consola. Mas não é bem isso. Soa mais a um puto que quer jogar os jogos de última geração, mas não tem placa gráfica para os suportar, levando a máquina a reproduzir sons arrastados, resultado da lentidão provocada pela insuficiência do material. A mistura de sons resulta num trabalho não muito diferente do corta e cola de um disco de um produtor hip hop.

Portishead – Third: Esta é uma história que tem que arrancar em 1994, com Dummy, disco tão especial para tanta gente, um dos melhores dos anos 90. Third é substancialmente diferente. Embora também também toque no hip hop, os samples dão lugar a instrumentação orgânica. O ritmo é, aliás, uma assinalável diferença: em Dummy, tudo é deslumbrante, mas o todo é prevísivel, sem grandes variações, ao contrário de Third que é menos belo, mas mais surpreendente. Numa entrevista de promoção a Third, Geoff Barrow referia que o sucesso de Dummy foi uma surpresa total, a estranheza que aquele som lhe causou no pós-grunge que ainda nem era bem pós-grunge, pois o álbum sai apenas quatro meses depois da morte de Kurt Cobain. Mas essa é uma estranheza que acompanha este Third: numa altura em que a música electrónica, a folk e o hip hop ganham terreno, o 3.º dos Portishead volta a adivinhar tendências, mesmo não estando na vanguarda das mesmas. Só faltou um revivalismo kraut, cuja influência também marca de forma clara o álbum de regresso do trio.

Nick Cave – Dig Lazarus Dig!!!: A Bíblia e as suas referências atravessam o disco, tal como atravessam toda a obra de Cave desde que os Birthday Party usavam o Deus do Antigo Testamento, capaz de destruir nações inteiras, como condutor para aquela raiva e aquele caos. Foi quando começou a ler o Novo Testamento que o australiano começou a desenvolver um fascínio por Jesus, que acaba por estar um pouco por todo o lado em “Dig, Lazarus, Dig!!!”, entre títulos e metáforas. E é para aí que vai todo o destaque do 14.º disco de Cave, para além, claro, do bigode.

Beach House – Devotion: Se a discografia dos Beach House se resumisse aos primeiros três discos, este Devotion seria o irmão do meio, aquele que acaba por passar ao lado. Se o primeiro é especial por ser o primeiro e porque aquela inocência soa-nos a novidade, o 2.º retira-nos da zona de conforto entretanto criada, mas sem a força da 1.ª vez. De Teen Dream falaremos daqui a dois anos, mas, SPOILER ALERT, é o melhor de todos.

Buraka Som Sistema – Black Diamond: Na revolução tuga de 2008, a FlorCaveira teve responsabilidade na forma como meteu o país a cantar em português, os Deolinda na forma como exploraram a tradição e os Buraka como levaram Portugal ao mundo. Se o EP From Buraka to the World já denunciava ambições megalómanas, mas reais, Black Diamond materializa essa ideia de exportação. Textos na Pitchfork, o apadrinhamento de Diplo, a colaboração com uma M.I.A. em topo de forma. Portugal para além do clima e da gastromonia.