Concertos por subscrição?! Fomos conhecer a proposta da Gig Club

Em entrevista ao Shifter, o CEO e Head of Curation do Gig Club, João Afonso, explica os detalhes do projecto e os planos exclusivos para os membros da comunidade.

Surgiu em Portugal a Gig Club, uma nova promotora musical criada por Gonçalo Araújo Fernandes e João Afonso que promete alterar o panorama musical actual em Lisboa e no Porto.  A Gig Club propõe-se a oferecer concertos de qualidade, por subscrição, em que os sócios pagam uma quota anual que garante prioridade nos eventos organizados.

pré-registo para o Gig Club já está aberto e a possibilidade de subscrição prevista para os próximos dias, possivelmente antes do Natal. Porto e Lisboa serão as cidades pioneiras para receber o serviço, mas a organização pensa em grande e na possibilidade de chegar a Madrid, Barcelona, Londres e Berlim.

O Gig Club tem duas opções de subscrições que variam com as vantagens por cidades (Lisboa e Porto), uma subscrição de 50€ dá direito a ser membro numa das cidades, enquanto que a de 80€ dá acesso às duas. Além dessa prioridade, a subscrição inclui também um bilhete gratuito para um concerto à escolha, descontos nos restantes espetáculos, pré-venda exclusiva de bilhetes, acesso gratuito a festas para escuta de novos discos e concertos em locais secretos do estilo “saiba em última hora”.

A promotora quer realizar em média um concerto por mês abrangendo diversas vertentes musicais (jazz, electrónica, world music). Para já e para começar em grande, já tem três bons nomes confirmados: Jessy Lanza, Low Roar e Kamasi Washington.

Do Canadá regressa a Portugal em Janeiro, Jessy Lanza. Depois da estreia em 2017 no Lisboa Dance festival e a passagem nesse mesmo ano pelo NOS Alive. Dia 23 de Janeiro passa pelo Pérola Negra Club no Porto e dia 24 pelo Lux em Lisboa. A banda islandesa Low Roar, liderada por Ryan Karazija, atua com concertos em formato solo, com enfoque na guitarra acústica e na veia cantautora de Karazija. Dia 12 de Fevereiro em Lisboa e dia 13 no Porto.

Em maio podemos contar com o esperado regresso a Portugal do jazz moderno do grande saxofonista norte-americano Kamasi Washington (10 e 11 de maio, no Hard Club Porto e no LAV em Lisboa respectivamente) que teve grande sucesso de crítica no seu último álbum “The Choice”.

Em entrevista exclusiva ao Shifter, o CEO e Head of Curation do Gig Club, João Afonso, explica os detalhes do projecto e os planos exclusivos para os membros que os amantes da música “indie” estão desejosos de saber.

1. Quando e como surgiu a ideia de criar o Gig Club? 

Surgiu da vontade de fazer uma programação mais diversificada e da necessidade de fazê-lo com menos riscos. Em Portugal, temos excelentes promotores e programadores. A razão porque não trazemos bandas desconhecidas com mais frequência é simples: existe um risco elevado de termos pouco público e do concerto dar prejuízo. Isto acontece porque é difícil fazer chegar a mensagem ao público. Hoje em dia, usamos múltiplos meios para chegar a informação – já não é só TV ou rádio. Significa que é extremamente difícil para um promotor identificar o canal ideal para chegar ao público. A nossa ideia é a de criar uma comunidade de pessoas que gostam verdadeiramente de música e que lhe dão o valor devido na esperança de que, tendo uma forma de comunicar directamente com eles e promover os espectáculos, teremos concertos mais cheios. Se errarmos menos vezes, vamos arriscar cada vez mais e isso é óptimo para o público. Aumenta a diversidade da oferta, e ao mesmo tempo cria-se uma relação de mútua confiança do público em relação às nossas propostas, e nossa em relação às pessoas que fazem parte do Gig Club.
 
Andei muito tempo à procura de uma solução para este problema. A ideia surgiu em meados de 2015 quando pretendia assistir a um concerto do Sufjan Stevens em Londres. Os sócios do Southbank Centre tinham prioridade na compra dos bilhetes. No dia que abriram a compra ao público geral, os bilhetes estavam esgotados. O meu impulso imediato foi tornar-me sócio para garantir que aquilo não voltava a acontecer no futuro. Este acontecimento andou uns tempos a ecoar na minha cabeça. Este modelo parecia-me incrível. Estes espaços culturais não precisam sequer de gastar dinheiro em promoção, o único canal de marketing de que precisam é a própria comunidade. Uma comunidade que gosta de música e cultura em geral. Lembro-me de ter pensado que devia ser incrível programar num sitio assim. A certa altura dei por mim a questionar-me porque é que tinha de estar restrito a uma sala de espectáculos. Porque é que não podiam ser vários sítios, uma cidade inteira, um país ou até um continente. 
 

2. Concertos por subscrição pode ser muito vantajoso a nível de negócio, principalmente para prever a quantidade de público. Como a Gig Club pretende atingir o público alvo e tornar a subscrição atrativa?

Com um curadoria cuidada, uma preparação ao detalhe da experiência ao vivo e muitos eventos exclusivos que conferem um valor acrescentado. Podíamos programar bandas de maior projeção e crescer mais rápido, mas preferimos o caminho da diversidade e originalidade. Temos a perfeita noção de que vamos ter um crescimento mais lento, mas acreditamos que será mais sustentado e que nos tratará benefícios a longo prazo. Não há melhor publicidade do que um cliente satisfeito. Queremos crescer de concerto para concerto e com a satisfação de quem os experienciou.  

3. Quando irá começar oficialmente a subscrição e quais serão as modalidades e valores?

A abertura das subscrições está prevista para a semana antes do Natal. Estamos a fazer os últimos testes na plataforma. Somos sensíveis ao público que nos tem pedido para permitir a compra de memberships e de bilhetes antes do Natal, por razões óbvias, por outro lado também queremos garantir que o nosso serviço oferece uma boa experiência e cumpre as expectativas de qualidade que o público exige. Assim que estiver disponível, os que se pré-registaram receberão um email para completar a inscrição.
 
Queremos tornar as coisas simples. Só existem dois modelos de subscrição neste momento: €50 por cidade, ou €80 global. 

4. De que maneira (critérios) é feita a programação musical e escolha do espaço do projecto ? Será sempre focado em artistas internacionais ou haverá também um trabalho com artista nacionais?

Os únicos critérios reais que temos são a qualidade das performances ao vivo e o entusiasmo partilhado entre nós e a nossa comunidade pelos artistas que trazemos. Vamos programar no segmento independente, mas com um espectro alargado que passa pelo Jazz, electrónica, rock, world, entre outros géneros musicais. Inicialmente as escolhas são feitas pela equipa do Gig Club, mas, à medida que comunidade for crescendo, haverá cada vez mais input dos nossos membros. Estamos igualmente a discutir parcerias que nos ajudarão a encontrar talento cada vez mais cedo.
 
As salas são escolhidas consoante a dimensão e estética do projecto. 
 
Teremos mais projectos internacionais como headliners, mas isso não quer dizer que tenhamos pouca consideração pelos projectos nacionais ou que lhes daremos menos palco. Muito pelo contrário. A exclusividade é uma componente importante do nosso modelo. É uma das motivações para os fãs aderirem à comunidade. Não podemos, em consciência, pedir a um projecto português que deixe de tocar durante algum tempo para poder ser headliner num dos nossos concertos. Eles precisam de tocar mais e não menos. 
 
O nosso plano imediato para os projectos nacionais é o de, sempre que possível, colocá-los nas primeiras partes dos concerto de maior dimensão. Bandas que nunca tocaram para mais de 100 pessoas estarem de repente a tocar para 1000. Vamos, igualmente, usar os Secret Gigs para testar alguns dos projectos nacionais emergentes. Não será descabido ver uma banda que acaba de ser criada saltar imediatamente para uma primeira parte num Hard Club ou num Coliseu. A médio prazo, o nosso plano é bem mais ambicioso. Achamos que podemos ser um canal para a internacionalização da música portuguesa. Eu (João Afonso) faço parte da direção da Why Portugal. Durante os últimos dois anos apercebemo-nos que existem dois factores fulcrais para a internacionalização: contactos internacionais e regularidade. Vamos estar a programar em diversas cidades europeias dentro de pouco tempo e vamos manter o booking centralizado. Significa que vamos poder preparar uma tour europeia de um projecto português só através da nossa rede e vamos poder fazer isto de forma continuada. Correndo bem, o Gig Club pode muito bem ser o canal que faltava para internacionalizar projectos nacionais. 

5. Há alguma sociedade/parceria com produtoras e editoras ?  

Com editoras, sim. Estamos a associar-nos às principais editoras independentes, nacionais e internacionais, para, por exemplo, permitir aos nossos sócios ouvirem antecipadamente novos discos e até conseguirem adquiri-los em condições especiais. 

6. Qual será a média de preços aplicados nos vossos eventos?

Os preços vão variar entre os €15 e os €35 para os não-membros. €10 a €30 para membros.  

7. Além dos nomes já anunciados, algum artista em mente que estejam já a procurar?

Muitos. 🙂 A nossa shortlist inicial tem 246 bandas. Neste momento temos mais 5 nomes praticamente prontos para anunciar. Obviamente, e porque pensamos sempre primeiro na nossa comunidade, os primeiros a saber serão sempre os nossos membros.

8. Com uma concorrência muito forte na altura do verão de festivais de música por todo o país,  especialmente nas cidades de Lisboa e Porto,  torna mais difícil competir. Quais são as estratégias pensadas para essa altura do ano?

Correcto. Já existe muita e boa oferta nesses meses por isso achamos que não vale muito a pena programar nessa altura (Julho e Agosto em particular). Preferimos concentrar os nossos esforços nos outros meses do ano. O que não quer dizer que não venhamos a anunciar algo para essas datas, caso seja uma boa oportunidade para a nossa comunidade e uma real alternativa à normal programação de Verão.