Glockenwise voltam com Plástico, o seu novo disco e o 1º em português

Ao vivo vão dar tudo, e para além das nove canções que fazem do novo Plástico, um dos melhores discos portugueses de sempre, há ainda uma mão cheia de temas clássicos indispensáveis a qualquer concerto dos Glockenwise.

Foto de João Garcia/DR
 

Nuno Rodrigues, Rafael Ferreira e Rui Fiúsa tinham 16 anos quando começaram os Glockenwise. Não havia nada melhor para fazer em Barcelos. Sem vocação para a cerâmica, herdaram o espírito da famosa “cena de Barcelos”, uma narrativa cool que tem o Milhões de Festa como epicentro e a boa vizinhança como política criativa na altura de arranjar sítios para ensaiar e instrumentos emprestados para começar a tocar. Qualquer coisa. Música. Canções. Discos. Subir a um palco e acabar de vez com o tédio. Depois de três álbuns – Building Waves (2011), Leeches (2013) e Heat (2015) –, os Glockenwise apostaram tudo em reinventar-se e ganharam. Ou melhor, ganhámos todos, um disco vibrante, viciante, que cresce dentro de nós e nos faz acreditar que o futuro da música portuguesa passa por aqui.

“Vontade de mudar e de ter passos para dar”. É assim que se inicia Plástico, o disco de mudança de paradigma e chegada à idade adulta. É desta forma que os Glockenwise dão o “Corpo” a um manifesto pela música portuguesa mais interessante, arrojada e contagiante que se fez este ano e nos preparam para abraçar um disco que tem tudo para ser notável.

Desde logo porque confirma a inteligência e a capacidade lírica e técnica dos Glockenwise de deixar para trás três discos de originais em inglês, e investir na língua portuguesa como forma de expressão de um discurso pós-moderno, reflectido, crítico e descentralizado. Portugal não é só Lisboa, também há Barcelos! E Braga, Coimbra, Faro, Aveiro, Leiria, Évora e até Beja, imaginem… Ainda que “A crítica em Lisboa assobia para o lado / Toda a gente caga pinta e um programa de rádio / Espreme lá mais conteúdo / O mundo está com pressa / Já que sobram poucas vidas / Para fazer conversa” (em “Bom Rapaz”).

Capa do novo disco, Plástico (DR)

O tema-título, “Plástico”, dá o mote a todo o disco, que Nuno Rodrigues, vocalista dos Glockenwise (quando não está a ser Duquesa), explicou numa entrevista à Blitz Rádio:

“A plasticidade aqui é em dois sentidos diferentes: um metafórico, que tem a ver com a ideia do desenraizamento, da plasticidade das relações e da forma como nos apresentamos em público e mesmo nas nossas vidas privadas e o outro tem a ver com a ideia de plasticidade das artes, a ideia do plástico de artes plásticas. Isso no fundo tem a ver com as temáticas mais abrangentes do disco, a ideia é falarmos sobre questões do pós-modernismo.

O disco tem muitas nuances, eu julgo que de todas esta fosse a que sintetizasse melhor em primeiro lugar a transição que nós fizemos para este tipo de sonoridade – acho que ainda é evidente que se trata de nós, que somos nós – mas que houve intenção de partir noutras direcções. E talvez esta pela dimensão que tem e pelas características mais aguerridas fosse a melhor porta-estandarte desta nova fase.”

“Plástico” verte (palavra a Norte…) ironia e humor sobre a espuma dos dias do teatro de papelão de protagonistas com que nos cruzamos diariamente, que “Fazem um ar zangado de quem não quer falar / Cruzam os olhos de lado com medo de espreitar / Têm cuidado no passo / Graça de artista só / Muitas manias no trato / A mim só me dá dó”. Com as mais valias do saxofone de Julius Gabriel e a guitarra de Alexandre Soares, os dados estão lançados e os ouvidos conquistados. Por esta altura, já se percebeu que estamos perante canções de primeira água, música e letras desassombradas e capazes de equilibrar a urgência e a força do rock com letras contundentes, elegantes, refinadas e sinceras.

“Moderno” confirma a tendência e é mais um subsídio para a consolidação da nova música portuguesa, criativa e sem constrangimentos, capaz de nos fazer dançar e inspirar, e rebentar “a bolha do país-festival”, sabendo que “A realidade só complica / E está cravada de sal”… Em “Dores”, uma inesperada caixa de ritmos, uma linha de baixo cheia de groove e borboletas electrónicas a cintilar, atravessam muralhas sonoras cimentadas a guitarras distorcidas, enquanto brotam mais uma mão cheia de versos que ficam na memória e são passíveis de citação: “A causar impressões sou atleta / E tenho muito para da r/ Tantas pontas soltas /Eu tenho para atar / Mas nem troco certo / Eu tenho para dar / De amargo eu já nem sinto / Que ideia é que eu pinto / Eu tenho muito para dar”. E têm, mesmo!

Por exemplo, uma das melhores canções de amor da sua geração, “Sempre Assim”, ao som da qual “Pouco tempo para ficarmos sós / É melhor que nada / Prometemos mas não damos nós / Nem compramos casa / Juntamos trapos / Fazemos ceia / Ficamos fracos/À sexta-feira / Fazemos asneiras / Temos medo de ficar para trás / Ficar sem ideias / Sonhamos alto / A noite inteira / Poupamos largo / Semana e meia / E que seja sempre assim / Que o que é melhor para ti / Também é melhor para mim”.

Ao vivo vão dar tudo, e para além das nove canções que fazem do novo Plástico, um dos melhores discos portugueses de sempre, há ainda uma mão cheia de temas clássicos indispensáveis a qualquer concerto dos Glockenwise, que estão diferentes, melhores, mas não esqueceram o passado: dia 13 de Dezembro no Musicbox, em Lisboa; dia 14 no Maus Hábitos, no Porto; e dia 19 de Janeiro no Avenida, em Aveiro.

Fica o aviso: “Ando à tanto tempo a ser um bom rapaz / E nunca foi por falta de imaginação / Quero perder a vergonha / Mas não sou capaz / E correr tudo de estoura / Com o que tenho à mão / Eu não quero viver no fim da história” (em “Muito para Dar”).

Plástico (tracklist):

  1. “Corpo”
  2. “Plástico”
  3. “Moderno”
  4. “Dores”
  5. “Sempre Assim”
  6. “Muito Para Dar”
  7. “Dia Feliz”
  8. “Obra”
  9. “Bom Rapaz”

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