Há um problema com o “hakuna matata”, a Disney e o Suaíli

“Hakuna matata” é marca regista da Disney, apesar de ser uma expressão suaíli, língua falada, por exemplo, no Quénia.

Foto de Disney/DR

Um problema da globalização é a sua adaptação às especificidades locais. Tecnológicas como o Facebook ou a Uber, que têm ambições globais, não podem simplesmente introduzir os seus produtos e serviços em qualquer país, devem atender devidamente a cada cultura e a cada sistema legislativo, e sobretudo garantir que não estão a tirar proveitos injustos do contexto. Semelhante fenómeno se passa com gigantes do entretenimento como o Netflix ou a Disney, como um caso recente sobre a expressão “hakuna matata” revela.

O suaíli é uma língua falada oficialmente no Quénia, na Tanzânia, no Uganda e no Congo, tudo países do continente africano. Aliás, o suaíli – que nasceu nas regiões costeiras do Oceano Índico – é uma das línguas bantas, composto por mais de 600 línguas diferente, faladas por cerca de 300 milhões de pessoas, sobretudo sobretudo nos países africanos a sul do Equador.  Já “hakuna matata” não é uma catch phrase inventada pelos criadores do Rei Leão, mas antes uma expressão que significa em suaíli “sem problema”.

Antes de chegar à ficção da Disney em 1994, a expressão “hakuna matata” foi popularizada em 1982 na música “Jambo Bwana” de um grupo do Quénia chamado Them Mushrooms – surpreendentemente, o tema tornou-se popular entre turistas europeus de visita àquele país costeiro e depois um sucesso de vendas, atingiu rapidamente o “estatuto” de platina. Anos mais tarde, a Disney aproveitou o “hakuna matata” numa canção com o mesmo nome, escrita por Elton John e Tim Rice, para o filme Rei Leão, que em 2019 será reinterpretado.

A gigante norte-americana está agora a criar um remake do Rei Leão em modo “live action”, ou seja, onde animações e imagens reais irão cruzar-se para dar vida ao filme que deliciou muitas infâncias, realizado por Jon Favreau. E é nesse contexto que cerca de 55 mil pessoas assinaram uma petição para que a Disney deixe de ser dona da marca “hakuna matata”, que registou em 2003, evitando que seja usada em roupa ou sapatos, por exemplo.

“Não se pode permitir que a Disney registe algo que não inventou”, escreve Shelton Mpala, o autor da petição, que acusa a empresa norte-americana de apropriação cultural. Um professor do Quénia, especialista em direitos linguísticos e culturais e membro de um grupo de pensamento e conselheira politico-económica chamado Twaweza Communications, disse ao The Guardian que a atitude da Disney é anti-ética: “Estas grandes empresas localizadas no norte estão a tirar vantagem de expressões e estilos de vida culturais e de bens culturais provenientes de África. Eles sabem muito bem que esta expressão é propriedade das pessoas, criada pelas pessoas, popularizada pelas pessoas.”

Numa altura em que no mundo Ocidental, especialmente no contexto europeu, tanto se discute sobre direitos de autor, não deixa de ser curioso este caso: afinal, a raiz do problema está nos “memes” e no YouTube, ou nas grandes empresas capazes de se apropriarem de tudo e mais alguma coisa, especialmente de nações pequenas e de mexerem os cordelinhos certos para que tal seja esquecido/pouco debatido? Por outras palavras: que legitimidade têm corporações com a Disney para reclamar direitos de autor se se apoderam assim de expressões populares?