O cientista que editou o DNA de bebés antes de nascerem e gerou controvérsia

Falta de ética? Irresponsável?

Na semana passada, a comunidade científica recebeu com angústia e sentimento de revolta a notícia partilhada pelo investigador He Jiankui. Através de um vídeo publicado no YouTube, o cientista chinês anunciou ter alterado os genes de duas meninas gémeas, antes do seu nascimento. Apesar de este avanço não ter sido confirmado de forma oficial, a ser verdade podemos estar perante os primeiros bebés humanos geneticamente modificados.

O investigador pegou no genoma de cada uma das gémeas e alterou um gene chamado CCR, bloqueando desta forma a via utilizada pelo vírus do HIV para entrar nas suas células. Ou seja, em vez de tentar curar ou travar o vírus da sida, He Jiankui propõe através da modificação do DNA à nascença capacitar as pessoas de resistência futura a uma eventual infecção do HIV.

Desde as primeiras experiências relacionadas com a manipulação de genoma humano que diversas questões se têm levantado, sobretudo no campo da ética. Apesar da alteração aparentemente vantajosa para as novas criança, Mohammed Ghaly, um professor de ética biomédica numa universidade no Qatar, diz – citado pelo jornal The Guardian – que “acabamos numa grande questão ética… a decisão que foi tomada acerca destas meninas gémeas não foi feita por elas, mas por outra pessoa qualquer. As alterações que foram feitas no seu genoma vão permanecer no genoma das futuras gerações”.

Deixando em aberto a seguinte questão, Mohammed pergunta: “Estamos nós, como humanos, na posição de tomar tais decisões com um impacto a longo prazo que vai muito para além das nossas vidas e dos nossos netos?” Outros cientistas também se mostraram críticos do trabalho de He Jiankui, conforme reporta o The Guardian noutro artigo. “É impossível exagerar o quão irresponsável, pouco ético e perigoso isso é no momento”, comentou Kathy Niakan, uma investigador do Francis Crick Institute, em Londres.

Certo é que inicialmente He Jiankui tinha a sua proposta de investigação para a Universidade de Ciências e Tecnologias de Shenzhen, na China. Mas, quando esta veio rejeitada, não se conformou e mudou de hospital. Entretanto He Jiankui também confirmou em público que existe uma outra mulher grávida depois de ser igualmente sujeita à experiência.