Em Portugal também se faz música do outro mundo

Foi numa quinta feira à noite numa das salas mais populares da cena lisboeta, o Lux, e num evento sem grandes honras de divulgação, Red Bull Locals Only, que os HHY & The Macumbas, um nome dificilmente pronunciável e ainda mais dificil de descrever, apresentaram o seu novo disco.

Hugo Silva/ Red Bull Content Pool

HHY é o nome que mascara Jonathan Uliel Saldanha nas suas incursões pela música experimental; no colectivo HHY & The Macumbas assume o papel de líder para, como só os melhores, conduzir sem se destacar. Aliás, na frente de palco ergue-se o Totem, símbolo do último álbum do colectivo, Beheaded Totem, que nos prende o olhar e nos recebe como personagem principal da alucinação.

Foi numa quinta feira à noite numa das salas mais populares da cena lisboeta, o Lux, e num evento sem grandes honras de divulgação, Red Bull Locals Only, que os HHY & The Macumbas, um nome dificilmente pronunciável e ainda mais dificil de descrever, apresentaram o seu novo disco. Apesar da escuta atenta do registo gravado, as expectativas para o concerto ao vivo eram trémulas e sustentadas pela ideia de que quem extravasa assim num registo gravado só pode arriscar ainda mais na performance ao vivo. As músicas de estúdio não são fáceis de identificar e ao vivo mantém-se essa intenção — o concerto assemelha-se mais a uma sequência de rituais do que ao alinhamento do álbum, isto porque os esforços da sua música não terminam na sua concretização técnica mas na forma como nos envolve a mente e o corpo.

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HHY & The Macumbas não é propriamente música para dançar mas é um tipo de música que é impossível escutar estático. A percursão é um dos elementos mais fortes da composição, com a bateria a marcar constantemente o ritmo da música que vai deambulando por diversas paisagens — ora melodias distorcidas e prolongadas no tempo a servir de textura, muitas delas vindas do trompete em palco, ora camadas acumuladas de sons dificeis de identificar numa composição caótica mas agradável. Como se pode ler nas antecipações ao concerto, por exemplo no Rimas & Batidas, HHY & The Macumbas têm uma amplitude musical que vai do dub à fanfarra.

Na internet e onde a categorização é imperativa para a compreensão dos algoritmos, a sua música é descrita como jazz de vanguarda, um rótulo que pode servir para definir a sua atitude expansiva e livre mas que dificilmente exprime a modernidade da sua música. O colectivo liderado por Jonathan Uliel Saldanha posiciona-se na intercepção entre o mundo da música, dos discos, singles e concertos, e o mundo da arte contemporânea — com as nunances de experimentação e introspecção que isso exige. Esta influência é uma das adições de Jonathan ao colectivo. Para além deste projecto, o artista do Porto tem uma série de outros trabalhos paralelos onde prevalece claramente a valência artística sob a performativa, tendo habitualmente como matéria prima o som e o seu efeito em cada um.

HHY & The Macumbas são assim uma das faces mais visíveis e, se quisermos, democráticas do trabalho criativo e artístico de Jonathan Saldanha, concretizada com a indispensável ajuda de mais 4 músicos. Mais do que uma banda e, tal como mencionam, são um colectivo de investigação e experimentação que procura contrariar modas normativas de composição, criando novos espaços para a criatividade e novos modelos para o ritmo. Se isso pode dificultar a marketização e, como dizíamos, a sua vida perante os algoritmos, valoriza em muito a sua música que ao assumir uma postura totalitária e imponente nos remete para um transe onde os ritmos das percursões transformam o espaço numa selva ordenada pela presença do trompete ou contrariada por um caos a caminhar para o industrial com sons metálicos e distorcidos. A figura central em palco, um anónimo — aos olhos do público — com uma máscara na nuca como se vê na capa do disco acrescenta expressão e confusão à experiência. Se à partida a máscara representa a neutralidade e ausência de energia humana, por assim dizer, em palco a carga performativa com que é usada, os movimentos repentinos de pescoço e a sua sincronização com as variações sonoras conferem-lhe uma carga quase teatral.

Hugo Silva/ Red Bull Content Pool