I [Amazon] NY: o que faz uma cidade por uma empresa?

Nova Iorque vendida à Amazon?

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Os avanços são sorrateiros e, apenas passo a passo, as mudanças na nossa sociedade se vão edificando e se vai materializando aos nossos olhos o verdadeiro aparato contemporâneo. As grandes empresas mudam, os seus titulares também e a sua forma de estar, no espaço e no tempo ainda mais.

Se há uns anos atrás os principais mercados eram dominados por empresas tendencialmente locais e de negócios de base tradicional hoje em dia são as tecnológicas que se impõem. Sem que nos apercebamos, para além da verdadeira guerra online travada contra a nossa atenção em estratégias de marketing, design e relações públicas mais e menos duvidosas, o poder sobrenatural destas corporações implica também mudanças significativas no mundo real. A começar pela quantidade de pessoas que empregam e as condições em que o fazem e a acabar no que representam para os sítios onde escolhem.

Uma dessas empresas é a Amazon, detida por um dos homens mais ricos do mundo, Jeff Bezos, e a história da sua nova sede é uma ilustração perfeita dos tempos que correm. Depois de um ano de negociações, a escolha da zona de Queens para o HQ2 da Amazon parece estar confirmada e o município até fez um mini-site orgulhoso e explicativo, mas a história não se fica por aí e ganha novos contornos nas reportagens do Curbed, do Politico e do New York Times  — nota para lembrar que o Washington Post é detido pelo próprio Jeff Bezos.

I ❤️ NY or Amazon?

O caso chega a público fruto das políticas de transparência que caracterizam a política norte-americana e permitem em jeito de transposição percebermos como decorrem estes complexos processos. A Amazon anunciou que o seu HQ2 seriam afinal dois HQ2, um em Long Island City, Nova Iorque, e outro em Airlington, Virginia; os deputados municipais de cada cidade pediram mais informações e os responsáveis de NY foram os primeiros a cedê-las.

Proposta dos futuros escritórios da Amazon

Richard Stallman, um conhecido defensor do software livre e opositor daquilo que apelida os “Impérios do Século XXI”, mantém no seu site um repositório de exemplos de benefícios dados a grandes tecnologias por parte de instituições estatais, revelando a desigualdade inerente a este processo e este caso entra directo para essa lista.

O anúncio da chegada da Amazon a Nova Iorque foi bem recebido pela generalidade da população mas teve a recepção oposto por parte de movimentos locais contestatários, desde logo porque, ao contrário do habitual, a audição pública sobre o tema só ocorreu depois de tomada a decisão. Bill de Blasio, mayor de Nova Iorque, e Andrew Cuomo, governador da cidade, habituais opositores políticos apesar da pertença ao mesmo partido, anunciaram há semanas em concordância a vinda de 25 mil postos de trabalho da Amazon para a Big Apple e não contavam com a contestação que se seguiu.

Gentrificação

As críticas vão desde a já referida falta de atenção e audição dos cidadãos locais, até aos alertas sobre o potencial gentrificador do negócio. A HQ2 da Amazon está projectada para o bairro de Queens, uma zona com salários baixos e onde um empreendimento desta dimensão pode ter consequências devastadoras na coesão social da população local, fazendo disparar as rendas e aumentar o trânsito, por exemplo. Passando, claro está, pela contestação dos apoios estatais e municipais que podem ascender aos 3 mil milhões de dólares — para aquela que é uma das empresas mais ricas do mundo.

Outra idealização

“O caso de Nova Iorque é simples: somos uma capital global de comércio, cultura e inovação”, Bill de Blasio escreveu numa carta ao CEO da Amazon, Jeff Bezos. “Nenhuma outra cidade tem tanta diversidade de talento, de indústrias e de encontros que alimentam grandes ideias e empresas.”

O Politico descreve a correspondência trocada entre os governadores de Nova Iorque e os responsáveis da Amazon como autênticas cartas de amor de parte a parte; em algumas das citações transcritas pela imprensa vemos amplos elogios quer à metrópole quer à grande empresa, com especial foco nos critérios de sucesso do negócio como a possibilidade de expansão e sem grande reflexão sobre o impacto social de um acordo dessa dimensão.

Num dos assuntos mais badalados, o Politico revela que no acordo está estabelecido que os serviços municipais devem avisar a empresa de pedidos de acesso ao seu registo público para que esta possa agir em tribunal; se o aviso sobre os pedidos é normal, o motivo mencionado é dúbio e potencialmente preocupante atendendo ao poder da empresa.

Vender uma cidade

A vontade do Governador Andrew Cuomo em concretizar o negócio era tal que terá chegado a propor em jeito de brincadeira mudar o nome do canal Newtown Creek para Amazon River e até mesmo o seu para Amazon Cuomo. A ida da Amazon para Nova Iorque pode representar uma subida dos empregos — e aqui é preciso recordar que a empresa é alvo de duras críticas por más práticas laborais, baixos salários e condições precárias — algo que vai de encontro com as metas estabelecidas quer por Cuomo quer por De Blasio. Para além disso, no entender do governador (Cuomo), é uma forma de dar um passo em direção ao futuro diversificando a indústria que faz mover a cidade e de responder às saídas, por exemplo de empresas de Wall Street.

Mais uma proposta

Contra o acordo surgem várias críticas e nuances quase caricaturais. Uma delas prende-se com a subversão do famoso logótipo I <3 NY que surge alterado para uma espécie de “I [Amazon] NY” na primeira página do acordo. Noutra das maquetes utilizadas para seduzir a empresa a este acordo, o famoso néon com o texto Watchtower, em Brooklyn, surge subvertido e com o texto Amazon, e até os renders de 3D dos World Trade Center desenhados pelo Bjarke Ingels Group aparecem com mensagens como “Amazon.com and you’re done”.

Outra das menções que está a ser alvo de críticas é à Governors Island, um dos espaços mais bem cotados de Nova Iorque e que surge na apresentação como estando para aluguer por parte da Amazon. Na proposta pode ler-se a tentativa de vender aquela zona como um “oásis urbano” para onde a “Amazon pode crescer para além do HQ2” incentivando a criação espaços como incubadoras, alojamento ou até mesmo espaços culturais com o respectivo branding.

O caso pode não parecer decisivo ou conclusivo e que é só mais uma empresa a mudar-se para uma nova cidade mas a verdade é que a forma como tudo isto é feito retrata na perfeição os nossos tempos – há alguns anos ninguém pensaria na hipótese de por exemplo um jardim poder vir a ser patrocinado por uma marca ou que uma empresa só pudesse provocar mudanças tão grandes num ecossistema como é uma cidade. A todas estas questões junta-se como agravante uma das que já foi mencionada, é que os cidadãos só foram ouvidos depois de bastante avançadas as negociações, com a maioria do processo a decorrer sob o segredo de Non-Disclosure Agreements (NDA).

Tal como Stallman defende no seu site, estas empresas têm o poder que outrora estados ou anteriormente impérios teriam para moldar a nossa sociedade; por isso, todo o escrutínio, crítica e observação não será uma crítica gratuita mas antes uma chamada de atenção para as forças invisíveis que moldam os nossos tempos.

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