Como Novembro pode servir de alerta sobre saúde masculina

#Movember nasce nos direitos dos animais e renasce em 2004, no mesmo país, agora virado para a sensibilização para o cancro da próstata e depressão nos homens.

No mês de Novembro do penúltimo ano do século XX, um grupo de jovens australianos tem a ideia de deixar crescer bigodes para fins de recolha de fundos para a proteção de animais. Movember nasce nos direitos dos animais e renasce em 2004, no mesmo país, agora virado para a sensibilização para o cancro da próstata e depressão nos homens. Desde então tornou-se um mantra mundial e a oportunidade de fazer campanha intensiva durante um mês em detrimento das efemeridades diárias que se multiplicam.

Os homens recorrem menos aos cuidados de saúde e é factual que têm mais necessidades de saúde que ficam por atender. A acrescentar a este componente, os comportamentos de risco são mais comuns, fazendo com que as mortes sejam mais comuns em idades mais jovens entre eles do que elas.

Por ser profissional de saúde, por ter história pessoal e familiar que quero evitar noutros, investi na sensibilização online desta temática do Movember. Foi um pequeno contributo. Revejo algumas das mensagens que optei por passar.

  1. O investimento em saúde mental dos homens não só terá impacto ao nível do seu bem-estar como no das famílias. Continuamos a ter dificuldades com a disposição de homens para se queixarem e a dificuldade de abertura de diálogo quando se sentem mais em baixo. Este tipo de bloqueios redunda em sofrimento prolongado e pode resultar também na procura de consumos para sublimação da dor;
  2. Em situações específicas como a dos cuidadores informais, a minha experiência é de menor resiliência por parte do sexo masculino mas sobretudo alguma negligência coletiva do bem-estar destes homens. A problemática não tem género mas os homens são amiúde retirados da equação do sofrimento dos cuidadores e os profissionais de saúde devem procurar aferir o bem-estar destes cuidadores com maior assertividade. Outro grupo específico são os homens no pós-operatório do cancro da próstata. Estes ficam, por vezes, sem o seguimento necessário no âmbito da saúde mental num contexto que se pode revelar particularmente difícil com quadros de incontinência e disfunção eréctil, ainda que com diferentes graus de gravidade. Não podemos limitar-nos ao acto cirúrgico e não salvaguardar esse acompanhamento.
  3. A questão da saúde sexual continua a ser um tabu para muitos. A própria necessidade de ter que pedir desculpa ao médico antes de falar no tema não deixa de ser comum no quotidiano. Não será incomum queixas apresentarem-se após anos de evolução, por vezes através das companheiras. Com raízes culturais evidentes, o paradigma pode-se alterar com a educação sexual nas escolas mas também com a discussão aberta de algumas temáticas em vez de nos remetermos ao conforto do pudor incondicional. Já são casos de sobra aqueles que podiam ter sido salvos se se tivessem queixado mais cedo.
  4. Situações clínicas mais simples por vezes carecem também de alguma atenção dado que, de acordo com o padrão de procura de cuidados, os homens também procuram menos ajuda e deixam agravar sintomas antes de recorrer aos serviços de profissionais. Parece que ainda vinga um certo paradigma de anti-vulnerabilidade que prolonga situações que não o deveriam ser.
  5. Histórias pessoais como a de Andrés Iniesta e Michael Phelps podem fazer toda a diferença na sensibilização e para desfazer a ideia de fragilidade associada a sintomas depressivos. Afinal se campeões (e já agora um injustiçado da bola de ouro) podem passar por isto, qualquer um pode ter um problema similar.

 

A OMS recomenda, no âmbito das intervenções consideradas mais ajustadas, a realização de campanhas de sensibilização no âmbito da saúde mental. Voltámos a perder a oportunidade neste novembro de 2018. Apesar do esforço recente de campanhas por parte do Serviço Nacional de Saúde em domínios fundamentais como a alimentação e o tabagismo, temos muito terreno para cobrir.

Alguns exemplos de anúncios:

Portanto, em jeito de desejos para novembro de 2019, poderíamos e deveríamos tirar partido de uma oferta diferenciada no sentido da promoção de saúde em horário nobre nos media assim como tirar maior partido do potencial das redes sociais. Podemos também reforçar a atenção à assimetria de procura de ajuda dos homens em diversos domínios clínicos, com destaque para a saúde mental. A sugestão que deixo, a serviços públicos e à sociedade, é um planeamento atempado do que poderemos fazer de diferente para o nosso Movember 2019, com a devida participação dos profissionais de saúde. Podemos também procurar apenas perguntar genuinamente como os nossos amigos e familiares estão. Nunca sabemos quando uma simples pergunta pode fazer a diferença.

Por fim, quero agradecer especificamente aos anónimos que partilharam as suas histórias na sequência da promoção da temática. Afinal, não estamos sozinhos e as histórias dos outros podem efetivamente melhorar a qualidade de vida de terceiros e mesmo ajudar a salvar a vida de alguém. Todos podemos fazer algo mais.

Cá estaremos para o ano. Pela saúde masculina, pela saúde de todos.

Links úteis: 

Resumo de dados sobre a saúde masculina.

Um conjunto de recomendações simples da OMS para a saúde masculina.

Bernardo Gomes (@BLMG), Médico de Saúde Pública.