Os Pontos Negros: 10 anos transformados num instante intemporal

Voltar a tocar Magnífico Material Inútil foi como uma oportunidade para relembrar alguns dos statements, reforçar outros e, sobretudo, mostrar que o seu espírito continua vivo.

Voltar atrás no tempo e olhar para aquilo que fizemos no passado nem sempre é um exercício fácil e menos vezes ainda é um motivo de orgulho – costuma até dizer-se que a prova do nosso crescimento é a vergonha do que fizemos no passado. Para Os Pontos Negros a lógica é diferente. A explicação para o fenómeno é-nos dada pela sua música, e o disco Magnífico Material Inútil é o melhor documento para o percebermos. Passados dez anos a banda decidiu levá-lo a palco num concerto único e efémero e mostrar como envelheceu um dos ícones do movimento (para além da editora) Flor Caveira.

A banda acabou depois de um dos momentos mais simbólicos de reconhecimento — gravar um disco em Abbey Road, Soba Lobi — e a vida de cada um dos músicos há-de ser bem diferente, mas a forma como se entregam ao disco mostra como o espírito do que ali foi dito continua a fazer total sentido. Mais do que um apelo puramente nostálgico ou revivalista, o espírito foi de renovação de votos. Como se o pretexto de voltar a tocar Magnífico Material Inútil fosse uma oportunidade para relembrar alguns dos statements, reforçar outros e, sobretudo, mostrar que o seu espírito continua vivo.

O disco que, tal como a banda, se caracteriza por uma série de saudáveis extravagâncias e soa a rock feito “como bem lhes apetece”, corria o risco de soar coisa de adolescentes mas a audição passado uma década prova que envelheceu como poucos. Apesar de transportar algumas referências próprias do seu tempo e características do seu espaço que, cá está, por vezes reforçam essa ideia quase DIY, Magnífico Material Inútil serve agora como prova da passagem do tempo para mostrar que muito tempo passou mas tudo continua igual nos detalhes. A estética e o som de Os Pontos Negros pode muitas vezes ter-lhes valido comparações com outras bandas mas o que é certo é que as suas letras são distintas, específicas e muito ligadas à sua realidade, e a sua atitude performativa acrescenta uma camada forte de personalidade.

Era sobretudo sobre a capacidade de manter essa atitude passado tanto tempo que surgiam as dúvidas em torno do regresso da banda que rapidamente foram dissipadas nas duas primeiras faixas do concerto que começou seguindo o alinhamento do disco. A segunda, o single homónimo, foi o primeiro ponto alto de um concerto que foi a aquecer até ao fim — nos primeiros momentos o público transportava o semblante de homenagem mas rapidamente percebeu que a ideia era pôr o modo rave e não faltou mosh nem crowdsurfing. Da formação original faltou apenas o baterista, David Pires, substituído por Tiago Ramos que se juntou ao trio de Queluz, Jonatas Pires, Silas Ferreira e Philip Sousa, sem deixar que se sentisse a diferença.

Depois da ronda pelo MMI, ainda houve tempo para repescar alguns clássicos escondidos. Desde temas dos primeiros ep’s e do tempo das mixtapes da Flor Caveira até ao disco que marcou o final da sua carreira, Soba Lobi. A energia com que tudo isto foi feito, a forma como atravessou uma década sem se tornar datado ou minimamente aborrecido foi a grande certeza da noite e serviu para nos lembrar da falta que esta banda faz no rock nacional. Já em 2015, falávamos das saudades que sentíamos da banda, agora podemos reforçá-las com a nota de que “tudo está igual ou melhor”. Jónatas com a sua forma de cantar visceral, Silas com o seu ar blasé, uma inesquecível camisa de pandas e uma ou duas piadas secas e Philip de camisa de manga curta e gola levantada formam um trio heterogéneo — em aparência e em abordagem — que se cruza na simplicidade e boa fé da sua música.

A noite prosseguiu com 90 minutos de música dançante comandada por Pedro Ramos num dj set que serviu para nos voltar a trazer espiritualmente até ao presente, com a difícil missão de fazer calar por minutos a troca de impressões efervescente sobre o regresso destes rapazes que não subiam a palco juntos há 2 anos e não editam um disco há quase 10.

Fotografias de Teresa Lopes da Silva/Shifter