Senhoras e senhores, Patrick Watson contra todas as adversidades

"Se depois de 14 canções no set nos poderíamos achar contentes com o concerto, estaríamos errados se pensássemos que não haveria maneira de sermos surpreendidos. Não é que, a convite do próprio Patrick Watson, sobe a palco Ana Moura?"

É a um domingo à noite que se percebe que uma cidade não funciona. Os transportes públicos são escassos, a restauração é pouca e o trânsito instala-se quando a população se concentra num objectivo comum. Patrick Watson e respectiva banda instalaram esse pequeno caos na zona do Calvário, em Lisboa, mas felizmente foi por uma boa razão: o regresso de Patrick Watson a Portugal com 4 concertos, depois de tocar pela última vez em 2015 no então chamado Vodafone Mexefest. Lisboa teve a honra de receber o primeiro da tour nacional, sendo que as cidades de Coimbra, Guimarães e Porto hão de acolher a banda nos seguintes dias consecutivos (3, 4 e 5 de Dezembro respectivamente).

A noite começou com um curto concerto de abertura de La Force, aka Ariel Engle, dos Broken Social Scene. Servida das suas guitarras e loops em backtrack, fez-se ouvir a sua voz limpa, mas potente. Uma performance curta e morna, limitada pela dinâmica imposta pelo backtrack, embora munida de um humor inteligente e subtil.

Poucos instantes depois, o público cumprimentava a banda pela qual tinha pago para ir ver, com um ânimo ligeiramente contrastante com a actuação anterior. Um arranjo vocal bastante intimista da “Love Songs For Robots” dá início ao concerto, contando com a mesma La Force a fazer segundas vozes, e um outro membro adicional [cujo nome nos escapa], nos sintetizadores e trompa, juntamente com a banda habitual de Patrick Watson. Banda esta que, a partir de Love Songs For Robots, começou a contar com Joe Green, substituindo o anterior guitarrista Simon Angell.

Não conhecendo Patrick Watson, seria possível confundirmos os seus espasmos e gestos percussivos (que fazem lembrar os do Joe Cocker) por nervosismo. Assim que tira a boina, depois do calor com que é recebido depois de tocar a primeira canção, revela a experiência em alguns cabelos grisalhos. Por detrás, uma cenografia que remonta a estética do Love Songs For Robots, com umas lâmpadas envolvidas em painéis giratórios que ajudaram a criar o ambiente perfeito para passarmos na sua companhia. Num momento em que se junta ao centro com a banda para tocar “Melody Noir”, formando um semicírculo de instrumentos acústicos, Watson é acariciado no fim da canção com tanto aplauso e uivos que parece que fica sem saber reagir. E devolve-nos essa mesma sensação quando toca uma versão violentamente crua e despida de “Slip Into Your Skin”, de Close To Paradise. Expressando uma opinião pessoal, foi um dos melhores momentos da noite.

Depois do momento ao centro do palco, volta a tocar músicas como Drifters, Hearts e Grace com ligeiras alterações nos arranjos, como se vem tornado habitual no seu registo. “Adventures On Your Own Backyard” teve direito a uma outra atenção, com justiça a ser feita ao seu título, com uma cacofonia experimental no final. Entre canções vai beberricando do seu rum ao ponto de chamar pelo refill. Ao contrário do que tem sido o resto da noite, as luzes pintam “Turn Into The Noise” de uma forma elegante e eficaz, pondo um ponto final à primeira e maior parte do concerto. Já o espaço permitiu que o som tivesse uma qualidade constante. Fraca. É compreensível que se ache que um armazém com quatro paredes em alvenaria seja esteticamente agradável, e infeliz que se ignore que o mesmo espaço seja inversamente proporcional em termos de apreciação acústica.

Se depois de 14 canções no set nos poderíamos achar contentes com o concerto, estaríamos errados se pensássemos que não haveria maneira de sermos surpreendidos. Não é que, a convite do próprio Patrick Watson, sobe a palco Ana Moura para cantar um tema em espanhol com um arranjo apropriado e jogos de vozes entre os dois cantores? A sala foi obviamente ao rubro, e notava-se uma banda muito agradada com a experiência de tocar com a artista nacional. Depois do momento memorável, a banda volta ao centro e, a pedido do público, toca “Into Giants”. Ainda há espaço para “Broken”, um dos mais recentes singles da banda, cujo videoclipe foi realizado pelo português Pedro Pires, mas o momento mais incrível foi guardado para o fim.

Patrick Watson volta-se para o piano para tocar “Lighthouse” a solo, recebida com muito carinho. No que parecia a canção com mais adesão vocal do público, o sistema de luz falhou, deixando a sala completamente às escuras. Em reacção, e muito agilmente, Patrick resolve voltar-se para o megafone para cantar, enquanto que o público recorre à luz dos telemóveis para iluminar o palco. O gesto comoveu o artista, que não conseguiu esconder o sorriso envergonhado de tanto foco.

Com o problema a persistir, Joe Grass junta-se ao vocalista e começam a tocar uma versão de “Man Under The Sea”, habitual closer dos seus concertos. Num ápice, direccionam-se para a plateia, cantando o verso em loop “[it was] just me, the fish and the sea”, inserindo-se, redundantemente, no mar de gente que cantava em coro. Quando a luz voltou, o resto da banda tentou acompanhar, mas tocando ligeiramente atrás do tempo, dado que o duo passeava perdido pelo público, o que tornou o momento cómico. Watson volta para o palco e adia o fim do concerto com “we’re just gonna play two more songs because that was too weird”. Ana Moura é chamada de novo para participar num improviso rico em melodias fortes e uma lírica minimamente coesa, ao ponto de quase parecer ter sido ensaiado.

Depois deste momento, a banda volta a juntar-se ao centro do palco para fechar a noite com “Big Bird In A Small Cage”, quase como um trunfo guardado para o fim. Foi um concerto completo, mas ficaram a faltar outros clássicos, como “The Great Escape ou Beijing”, mas é simplesmente o fenómeno de se assistir uma banda a ficar grande.

Fotos de Teresa Lopes da Silva/Shifter