Rosalía: o símbolo do novo normal?

Quem é, afinal, Rosalía, a sensação-musical de que todos falam e que é um dos nomes em destaque no cartaz do Primavera Sound?

Foto de Sony Music Spain/DR

Se viveste debaixo de uma pedra nos últimos meses e ainda não te deparaste com a música de Rosalía, este artigo é para ti. Não que a espanhola de 25 anos seja um fenómeno recente – na verdade, já desde Setembro de 2017 que podias ter conhecido a sua nova abordagem ao flamenco com Los Ángeles, álbum que gravou em dueto com o guitarrista e um dos mais reputados produtores da cena alternativa espanhola, Raül “Refree” Miró. Desde aí que Rosalía anda a mostrar porque é que veio ao mundo.

Questionar o que significa ser jovem e espanhola, num país dividido entre a identidade regional e encantado com a canção da sereia da globalização. E é mesmo essa a língua que a sua música fala, a do flamenco tradicional com o sotaque moderno do R&B e do hip-hop e umas pitadas de electrónica, que, não só a colocam no espectro largo da pop, como fazem de si uma das mais frescas e visionárias – e tão necessárias – vozes do género na actualidade.

E ainda que a proposta de levar o flamenco para o mainstream seja algo audaciosa, e que, talvez por isso, Rosalía tenha entrado de mansinho no panorama musical internacional, a cantora viu a sua intenção tornar-se ainda mais bem sucedida com o lançamento de El Mal Querer. Co-produzido por El Guincho, músico espanhol também distinguido pela crítica nos últimos anos, o seu mais recente álbum veio solidificar o seu nome na cena pop global, com publicações como a Rolling Stone e a Pitchfork a elegê-la como artista revelação em 2018, falando do seu trabalho quase semanalmente.

Uma revelação deste ano

O single “Malamente” ajudou de certeza. É musicalmente ousado mas consensualmente harmonioso ao ponto de ter sido um sucesso instantâneo, chegando até aos ouvidos daqueles mais cépticos. Junta à guitarra flamenca as palmas também tão características dessa sonoridade hispânica, que aqui acabam por se tornar aquele hook mega pop do qual a pop nunca se tinha lembrado. Mas o casamento entre o antigo e o moderno não se fica por aqui. Todo o projecto de Rosalía o evidencia, sendo a cantora a epítome dessa personificação.

O videoclipe também ajudou a que isso se percebesse. Foi com ele que grande parte do público tomou consciência da imagem da espanhola que parece só mais uma jovem instagrammer hypebeast que usa casacos felpudos amarelos fluorescentes e ténis brancos da Fila, mas cuja performance nos faz viajar algures para o sul de Espanha mais folclórica que conhecemos, com a presença da dança flamenca, das touradas ou dos santos. É de referir também a qualidade do vídeo em todas as suas vertentes – para a Pitchfork foi o melhor de 2018.

O videoclipe consolida também o conceito de El Mal Querer, que podia até então ter passado despercebido. O disco fala da história de uma mulher que se vai libertando da prisão em que vive por causa dos ciúmes do marido, mais do que de emancipação, fala do poder feminino. Cada vídeo até agora estreado é associado a um capítulo dessa história, tal como as canções que, à medida que avançam, mostram como a mulher se solta do homem controlador e controla ela a sua própria vida: “a ningún hombre consiento que dicte mi sentencia”.

O sucesso corajoso

A premissa a que Rosalía se propõe é corajosa e tem-lhe valido críticas em Espanha por parte de uma comunidade mais conservadora que a acusa de estar a aproveitar-se da tradição e do património do país para ter fama fora dele. Mas se pensarmos bem, não será Rosalía só mais um exemplo de como o tradicional — poder-se-à dizer, subvertido — é o novo popular? Veja-se Conan Osíris, por exemplo. Ou a forma como vários rappers têm usado samples de géneros mais clássicos para os fazerem renascer – o último álbum de Mike El Nite, Inter-Missão, junta fado ao trap, rap e pop.

E se parece que estamos só a adivinhar uma fórmula de sucesso para novos artistas – esta do experimentalismo histórico para o presente –, balançando tradição com uma espécie de iconoclastia, Rosalía reúne em si outras receitas de êxito mais que comprovado. O feminismo do seu último trabalho é um deles. O conceito está na moda e Rosalía ficou literalmente na moda quando se tornou, por exemplo, a cara de uma das novas colecções da Pull & Bear. Haverá mais comercial que isto? Ser featured numa das marcas mais vendidas do grupo Inditex? Numa espécie de bola de neve, Rosalía começou por ser tão diferente que se tornou a norma.

Mais do que um símbolo nacional, cara de uma das marcas de um dos maiores grupos empresariais espanhóis, Rosalía é um símbolo do mundo, mas até isso terá tido um empurrãozinho de um dos mais recentes fenómenos da cena musical: a sua latinização. Nomes como Ozuna (o artista mais ouvido no YouTube em 2018 com 1,7 mil milhões de visualizações só este ano), J Balvin (o número 2), Bad Bunny (o número 3), Anitta, Luis Fonsi, Nicky Jam ou Daddy Yankee estão nos tops de artistas mais ouvidos em 2018 em praticamente todas as plataformas. O trap latino e o reggaeton nos tops de géneros mais ouvidos. E até artistas que não eram propriamente associados aos estilos acabaram por entrar na cena: “I Like It” de Cardi B, a meias com Balvin e Bad Bunny, chegou a single nº 1 da tabela da Billboard, Camila Cabello tornou-se a nova coqueluche da MTV, Justin Bieber fez um cover de “Despacito”, Drake colaborou com Bad Bunny, Demi Lovato com Luis Fonsi e até Beyoncé fez um remix de “Mi Gente” de J Balvin. Mas o fenómeno não é exclusivo da pop. Nomes como as colombianas Kali Uchis ou Karol G, ou o produtor de 20 anos Cuco juntam-se a Rosalía para mostrar que a sonoridade latina chegou até aos gostos mais alternativos.

Do streaming para o Primavera

Essa latinização da cena musical está de forma intrínseca associada aos streamings. À medida que os números de streamings começaram a contar cada vez mais para os tops internacionais e que plataformas como o YouTube ou o Spotify começaram a influenciar o trabalho de artistas e editoras, géneros como estes saíram de trás da cortina do preconceito. Reggaeton pode até ter sido sempre um dos estilos musicais com mais audiências, mas só agora isso começava a vir a público – só no final de 2017 é que se deu início à discussão de como os dados de streaming passariam a ser contabilizados na elaboração das tabelas de Mais Ouvidos.

Tudo isto faz com que até festivais como o Primavera Sound, em Barcelona, estejam a apostar e muito na música latina. Sendo a casa do festival em Espanha, isso não é estranho e esta tendência pode apenas sublinhar aquela que referimos em cima, de que o tradicional é o novo normal. O Primavera em Barcelona pode assim estar a apostar em nomes espanhóis, como o do NOS Primavera no Porto apostará em nomes portugueses, mas a história vai mais além quando aquele que sempre se distinguiu por ser um dos festivais de música mais eclécticos do mundo tem J Balvin como um dos seus cabeças de cartaz, no mesmo dia em que tocam Rosalía e Kali Uchis, sim, mas também James Blake, Pusha T, Frank Carter ou Solange.

Se até o Primavera dá este push à musica latina, poderá abrir a verdadeira competição com a anglófona? Se nunca mergulhaste muito nessa cultura, Rosalía pode ser a melhor porta de entrada dos últimos tempos. Além de unir novas e velhas tradições espanholas, Rosalía é o bom gosto latino, um estonteante híbrido entre o flamenco, o pop, o hip-hop e o R&B, que funde o zeitgeist com as especificidades culturais da cantora de tal forma, que o seu projecto musical se transforma em algo completamente novo.