Arte demasiado bela pode deixar-te doente. A sério

Chama-se síndrome de Stendhal e acredita-se que aconteça especialmente em Florença, Itália. A história mais recente envolve "O Nascimento de Vénus" e um ataque cardíaco.

Um homem teve um ataque cardíaco enquanto observava “O Nascimento de Vénus” de Sandro Botticelli, na Galeria Uffizi, em Florença, Itália, e este artigo não podia começar de outra forma, de tão insólito que o caso nos soou quando o lemos numa manchete qualquer.

Aconteceu ontem e o italiano de 70 anos acabou por ser socorrido por dois cardiologistas que também estavam a visitar o museu. Foi levado para o hospital mais próximo e, apesar da idade e do turismo exaustivo numa cidade como Florença, entre a típica e nada leve comida italiana e as gincanas entre museus, os médicos não tardaram a perceber a origem das suas palpitações. Tratava-se de mais um caso de síndrome de Stendhal, uma condição que pode parecer rara de tão caricata, mas é bem mais normal do que pensávamos.

Dizem que é uma condição médica causada por uma “intensa experiência artística” e até agora é associada especificamente a Florença, cidade do Renascimento. Como Jonathan Jones diz no seu artigo sobre o tema no The Guardian, a ideia de que a beleza extrema pode matar tem de estar associada ao oculto. Estará a arte dessa época associada a um qualquer tipo de magia negra, tornando este um fenómeno exclusivo da cidade toscana? O reconhecimento do nosso trabalho é sempre bom, a arte provocar emoções será o sonho de qualquer artista, mas Botticelli não havia de querer matar ninguém, nem nunca terá pensado que a contemplação da sua obra-prima ia deixar alguém com arritmias. Se percorrermos os livros de história, Florença não está tão longe assim de rituais obscuros e até David de Michelangelo, outro florentino imperdível, foi acusado no início de 1500 de lançar mau-olhado sobre a cidade.

O nome Stendhal vem do pseudónimo do escritor francês do século XIX Henri Beyle, que descreveu um “tipo de êxtase”, medo de cair e palpitações depois de ver a “beleza sublime” da igreja da Basílica de Santa Croce em Florença. Foi uma psiquiatra italiana que trabalhava num hospital da cidade quem nomeou a condição, depois de ter tratado 106 casos como emergências entre 1977 e 1986. Muitos desses pacientes foram levados por ambulâncias das galerias e museus da cidade depois de sofrerem tonturas, palpitações, alucinações, exaustão e até situações de perda de identidade.

A psiquiatra Graziella Magherini descreveu os fatores de risco para a síndrome como “uma personalidade impressionável, o stress do turismo e das viagens e o encontro com uma cidade como Florença, assombrada por fantasmas dos Grandes, da morte e da perspectiva da história”.

Falando sobre o incidente, o diretor da Galeria Uffizi, Eike Schmidt, disse que esta não era a primeira vez que as pessoas adoeciam no local, “acontece especialmente em frente a grandes obras como as de Botticelli ou a ‘Medusa’ de Caravaggio.”. Schmidt afirma que um visitante desmaiou em frente a “Medusa” no início deste ano, e outro teve um ataque epiléptico enquanto olhava para “Primavera” de Botticelli em 2016.

“Esta é a prova: a arte influencia a realidade”, disse aos jornalistas, mas sublinhou que nunca viu nada parecido enquanto trabalhava nos EUA.

Ainda que já tenham sido registados casos de síndrome de Stendhal fora de Florença, Magherini acreditava que a cidade italiana seria palco da maioria destas situações, devido à sua enorme quantidade de arte renascentista, que é bonita e perturbadora ao mesmo tempo, e “pode provocar memórias angustiantes.”