Tumblr anuncia fim da pornografia. E agora, será o fim do Tumblr?

O fim da pornografia coincide com o facto de a Apple ter removido muito recentemente, em Novembro passado, a aplicação do serviço de blogging da App Store por causa do conteúdo adulto.

Facebook, Twitter, Tumblr, YouTube, Instagram… são páginas vazias. O seu conteúdo, aquilo que preenche essas páginas em branco, é definido pelos utilizadores, mas em última instância são as empresas que gerem essas plataformas que definem as regras através de “termos e condições”. No Tumblr, ao contrário de outros sites, podia ser partilhado conteúdo sexualmente explícito. E dizemos já “podia” porque será já no próximo 17 de Dezembro que o Tumblr irá colocar um ponto final na pornografia.

A partir de dia 17, não vai ser possível partilhar conteúdo para adultos no Tumblr, com a plataforma a apostar em algoritmos para detectar possíveis infracções da nova regra e em dar opção aos utilizadores para denunciarem qualquer incidência não identificada e para recorrerem de decisões mal aplicadas. Conteúdo sexualmente explícito que já esteja publicado no Tumblr será tornado privado e só os utilizadores que fizeram essas publicações as poderão ver.

Quanto às excepções ou aos limites desta regra, o Tumblr diz que irá permitir “mamilos femininos em contexto de amamentação, parto ou pós-parto, e situações de saúde, como uma pós-mastectomia ou uma cirugia de redesignação sexual”. “Conteúdo escrito, como erotismo, nudez relacionada com discursos políticos ou de interesse público, e nudez em arte, como esculturas e ilustração, também poderão ser publicados livremente no Tumblr”, explicam os responsáveis pela plataforma.

Desde que foi criado em 2007, a política liberal do Tumblr levou a que este se tornasse numa casa para pornografia online e ganhasse fama por isso. Todavia, muita coisa mudou desde que David Karp, um jovem de 20 anos, idealizou uma plataforma à luz da sua juventude millenial, iniciando uma vibrante “cultura tumblr”, composta desde arte digital a comunidades feministas, queer e activismo político. O Tumblr agora pertence à Oath, a subsidiária que a Verizon criou depois de comprar o AOL e o Yahoo, proprietário da plataforma entre 2013 e 2017. A aquisição do Tumblr pela Yahoo não foi um episódio pacífico, com os objectivos de receitas publicitárias estabelecidos longe de ser atingidos atingidos; logo aquando do anúncio do negócio de 1,1 mil milhões de dólares, vários utilizadores opuseram-se – com uma das petições contra o negócio a reunir mais de 170 mil assinaturas.

Verizon quer vender publicidade

Já com a Verizon o Tumblr perdeu o seu fundador: David Karp deixou a empresa em Novembro de 2017 e foi substituído por Jeff D’Onofrio, actual director executivo. Com novos donos, o Tumblr tem procurado anular a “má fama” que ganhou com imagens sexualmente explícitas — apesar de só 22% dos utilizadores do Tumblr procurarem este tipo de conteúdo e de só 1% o publicar. Muitos destes 1% não eram sequer membros activos o Tumblr – eram ‘pornbots’ e contas automatizadas para gerar conteúdo NSFW, muitas vezes com o propósito de encaminhar os ‘tumblrers’ para outros sites.

Ao longo dos últimos dois anos, o Tumblr introduziu um filtro facultativo que permitia aos utilizadores esconder todo o conteúdo adulto do seu feed e dos resultados de pesquisa, que acabou por ser tornar mais tarde a definição padrão para todos os utilizadores do site; Para além disso foram estabelecidas novas regras que passaram a proibir desde a chamada pornografia de vingança (“revenge porn” em inglês) ao discurso de ódio. De acordo com um antigo engenheiro do Tumblr, que falou em anonimato com a Vox, a remoção de todo o tipo de conteúdo pornográfico da plataforma era algo que estava a ser trabalhado há pelo menos seis meses, debaixo do nome de código “Project X”. O ex-funcionário contou também que a Verizon apressou o deadline, pois o conteúdo sexualmente explícito não é bom para a exploração publicitária pela operadora norte-americana no Tumblr.

Safe Mode no Tumblr (imagem via Tumblr)

O fim da pornografia coincide também com o facto de a Apple ter removido muito recentemente, em Novembro passado, a aplicação do serviço de blogging da App Store por causa do conteúdo explícito, cortando o acesso de milhões de utilizadores de iPhone. Se a tomada de posição da Apple pesou ou não na decisão ou na precipitação do deadline, não sabemos. Sabemos sim que o assunto é complexo. Como referíamos no início do texto, as plataformas vazias como o Tumblr são definidas pelas empresas que as gerem e pelas pessoas que as usam. Ao “mudar as regras” do jogo de forma tão drástica como anunciado, a Oath/Verizon está a querer mudar os comportamentos e hábitos dos 10 milhões de utilizadores que usam o Tumblr diariamente. De um momento para o outro, 22% da comunidade ‘tumblriana’ terá de encontrar outra plataforma para ver imagens pornográficas ou de aceitar a nova forma de operar do Tumblr. Alguns utilizadores ouvidos e citados pela Vox referem que os seus blogues no Tumblr era importante para o seu trabalho ligado à nudez, nomeadamente entre a comunidade LGBT, e salientam que é mais uma plataforma a não permitir mamilos femininos.

O fim do Tumblr

O fim da pornografia pode não ser o fim do Tumblr. A plataforma poderá renascer e crescer sem esse conteúdo, favorecendo as múltiplas micro-comunidades que nela existem, que são apontadas neste outro artigo da Vox e que, através de memes, GIFs e outros tipos e formas de arte digital, fizeram surgir um cultura indisciplinada, sem restrições e movida pelo espírito alternativo da plataforma.

“Percebemos que, para continuar a cumprir nossa promessa e manter o nosso lugar na cultura, especialmente à medida que esta evolui, precisávamos de mudar”, publicou Jeff D’Onofrio, director executivo do Tumblr. “Não há escassez de sites na internet que apresentam conteúdo adulto. Vamos deixar isso para eles e focar os nossos esforços em criar o ambiente mais acolhedor possível para nossa comunidade.”