Brasil 2018: a música como reação e protesto à política

Lista dos 10 melhores discos brasileiros

Em 2018, o Brasil foi notícia na política, no descontentamento, na crise. Houve um grande foco no conservadorismo e no retrógado. As terras tupiniquins estiveram no centro do mundo das especulações negativas mas a música esteve na vanguarda da liberdade, do feminismo e do activismo.

A música do Brasil de hoje segue tropical e assina a sua melhor década desde os anos 90. A maior parte dos álbuns foram escritos como narrativas e faz parecer que muita coisa precisava ser dita. Ecléticos, com temas fortes (dado o momento instável que o país atravessa), plurais e com batidas efervescentes.

Parece que essa efervescência vem de uma ressaca grande sentida nos anos 2000 e surge para aprofundar questões já tidas no passado e também para experimentar novas possibilidades artísticas. Em modo geral e superficial, a música “zuca” em 2018 aparece para afirmar vozes que exploram os timbres, fusão de géneros, sentimentalismo e posicionamento social.

Por trás de tudo isso, a música escalou por incentivos e agentes culturais espalhados por todos os cantos do Brasil. Afirmações pop e de sucesso internacional, como Anitta, são um contraste para lá de interessante e giro de ser analisado. Sobre como o otimismo do mercado musical contrasta com o pessimismo no presente do Brasil e a sensação de possível retrocesso a curto prazo.

A equipa Shifter apresenta-vos uma lista de 10 análises musicais do mercado brasileiro e o que de novo e interessante foi feito nesse ano de 2018 (com selo ou independente). A lista não apresenta qualquer ranking e tem como intuito apenas explicar e divulgar esse otimismo.

Pabllo Vittar
Não Para Não (2018, Sony Music)

Essa lista quer apresentar o que há de diferente e talentoso na música e Pabllo Vittar não poderia ficar de fora. O segundo álbum de estúdio da mais famosa drag queen brasileira, Não Para Não (2018, Sony Music) cresce como um bem-resolvido passeio pelo que há de mais colorido e quente na música pop brasileira actual. Uma engraçada mistura e colagem de ritmos, ideias e sentimentos que foram desenhados para colar na cabeça de quem ouve o álbum.

Inaugurado pelo ritmo criativo de Buzina, um misto de tecnomelody, forró, k-pop e trap, Não Para Não mantém o ritmo rápido e louco até a última faixa. São batidas e versos que se despem de qualquer traço de complexidade mas que convida qualquer um para o “dancing floor”.

Duda Beat
Sinto Muito (2018, Independente)

Os sentimentos de conflitos e desilusões de qualquer indivíduo apaixonado transbordam no álbum Sinto Muito (2018, Independente) da talentosa artista pernambucana Duda Beat. Do momento em que tem início, na confessional “Bédi Beat” (“E eu vivia à flor da pele nem percebia / Que das vezes que eu ria era vontade de chorar“), passando pela construção de músicas como “Back To Bad” (“Eu nunca fui tão humilhada nessa vida por você, meu amor / A vida toda eu quis me dar inteira / Mas você só queria a metade“).

Cada fragmento do trabalho de 11 faixas reflete um autobiografia dolorosa e romântica. O registo que conta com versos assinados pela própria Beat, parece jogar com os pequenos contrastes, se espalhando em meio a memórias recentes, relacionamentos fracassados e a permanente busca do eu lírico em encontrar um novo amor.

Rubel
Casas (2018, Dorileo / Natura Musical)

Rubel, por trás do cantor e compositor carioca Rubel Brisolla, de uma voz malandra, lenta e arrastada entrega o contemplador Casas (2018, Dorileo / Natura Musical). Cada verso das cansões acolhe um mundo de histórias tão particulares e nostálgicas, quanto íntimas. Um olhar para os dramas da infância e suas rotinas na faixa Colégio (“Toca / O sinal barulhento da escola / Onde dois sinos dobram“), outro olhar mais mais adulto (“Ó meu pai, se tu existes / Manda a tua força, a gente aqui precisa“) e também para questões do futuro em Passagem, composição que usa de trechos do curta-documentário de mesmo nome dirigido pelo próprio cantor em 2015 (“Se eu morresse amanhã, talvez eu morresse tranquilo“) .

Disco para ouvir em todas as ocasiões e introduzir o jeito maroto e malandro do carioca brasileiro de uma forma poética e reveladora.

Elza Soares
Deus É Mulher (2018, Deck Disc)

Elza Soares aparece esse ano com um album de título forte e quase provocativo, Deus é mulher entranha na poesia política, crua e personal. O trabalho de 11 faixas amplia significativamente parte do universo detalhado pela artista há três anos. Um desvendar da alma feminina, debates sobre religião, o florescer da sexualidade e violência urbana.

Dessa vez ela se entrega ao rock não apenas na estrutura musical montada por Guilherme Kastrup, produtor do disco, em parceria com Romulo Fróes, Kiko Dinucci, Marcelo Cabral e Rodrigo Campos, mas, principalmente, no discurso. Do início ao fim, Elza se projeta com ferocidade, revelando uma postura quase punk, anárquica.

Carne Doce
Tônus (2018, Independente)

Em Tônus (2018, Independente) a vulnerabilidade da banda Carne Doce é generalisada. Do momento em que tem início, em Comida Amarga (“Eu cato as sobras / Dos teus sinais / Eu sou a sobra / Junto com as sobras“), passando pela alteração de faixas como Nova Nova (“Te deixando apaixonado / Te deixando só a dor / E aí você vai entender / E aí, enfim, se vê em mim“), cada fragmento do registro reflete com naturalidade a entrega e melancólica exposição da banda com arranjos complexos e bonitos.

As canções estão muito bem compostas e apresentadas com um minimalismo pontual e sintetizadores cósmicos. Esse minimalismo projecta uma forma contida mas muito completa. Movimentos sempre calculados revelam a delicada instrumental que protege e cerca os poemas assinados pela vocalista Salma Jô.

Um álbum simples mas completo e que mostra um grande talento da banda. Com certeza algo para se lembrar nesse ano.

Silva
Brasileiro (2018, Slap)

Quarto e mais recente álbum de inéditas do caontor brasieliro que conquistou Paredes de Coura esse ano, Silva, surge como um delicado refúgio poético.

O álbum vai um pouco na contramão do discurso político e oferece o que de melhor a voz brasileira pode oferecer. São versos de amor, delírios melancólicos e pequenas confissões românticas que se entregam ao samba, bossa nova e outros ritmos locais, como uma auto-afirmação da identidade brasileira por parte do próprio artista.

Marcelo D2
Amar É Para Os Fortes (2018, Pupila Dilatada)

Duas décadas após o lançamento do primeiro álbum de estúdio em carreira solo, Eu Tiro É Onda(1998), Artista já conhecido no público portugues, Marcelo D2, continua a se reinventar criativamente.

Em Amar É Para Os Fortes (2018, Pupila Dilatada), batidas, rima e provocações se entrelaçam em uma “ópera-rap” que passeia pelo actual Rio de Janeiro. Canções que se renovam, a discutir os mesmos temas mas de forma actual: criminalidade, uso de drogas, o poder transformador da arte, repressão policial e as pequenas conquistas do povo negro.

O album é mais uma vez marcado pela boa mistura de ritmos – rap, soul, samba, blues – e ainda conta com colaboração fortes como Gilberto Gil, Alice Caymmi, Rodrigo Amarante, Marcelo Jeneci, Seu Jorge e Rincon Sapiência.

Anelis Assumpção
Taurina (2018, Pomm_elo / Scubidu)

Anelis Assumpção é a brasileira que sempre encarou a si mesma como a protagonista da própria obra. A particularidade dos versos, o exoterismo, o cuidadoso catálogo de ritmos reflete toda a sua personalidade desde dos álbuns anteriores. Dessa vez ela cresceu com a fina exposição poética e sentimental detalhada no terceiro álbum, Taurina (2018, Direto / Scubidu Music).

Inspirado pelas vivências, reflexões e histórias acumuladas por Assumpção nos três últimos anos, Taurina nasce como um curioso exercício da cantora em traduzir musicalmente a própria alma. Para além do campo astrológico detalhado no título e imagem de capa do trabalho — projeto assinada pela artista visual Camile Sproesse —, canções que refletem o poder do feminino, a sexualidade e vulnerabilidade da mulher, estímulo para cada uma das 13 composições que movimentam o disco.

Maria Beraldo
Cavala (2018, Risco)

A cantora paulistana, compositora e clarinetista Maria Beraldo lançou seu primeiro álbum de inéditas em carreira solo: Cavala (2018). Mas já colaborou em diferentes projetos musicais no Brasil, caso do recente Deus é Mulher (Elza Soares, 2018) e fazer parte da banda de apoio do veterano Arrigo Barnabé.

É um disco forte, autobiográfico e experimental, com dez composições que gritam a liberdade de uma mulher lésbica. Conceito bem registado e explorado na faixa Tenso, música que chega acompanhada de um belo videoclipe assinado por Laura Diniz. O trabalho ainda conta com uma reinterpretação de Chico Buarque de Eu Te Amo (1980).

Baco Exu do Blues
Bluesman (2018, Independente)

Baco Exu do Blues é um dos grandes achados e exemplares do rap brasileiro desse ano, o trabalho Bluesman (2018, Independente) inaugurado em meio a samples de Mannish Boy, do norte-americano Muddy Waters, costura passado e presente da música negra de forma essencialmente provocativa. “Eles querem um preto com arma pra cima / Num clipe na favela gritando: ‘cocaína’ / Querem que nossa pele seja a pele do crime / Que Pantera Negra só seja um filme / Eu sou a porra do Mississipi em chamas“, rima com ferocidade, apontando a direção que orienta a experiência de quem ouve durante toda a execução da obra.

Dividido entre atos de evidente fúria e temas contemplativos, Baco joga com os instantes a cada novo disparo das rimas. Exemplo disso ecoa com naturalidade na melancolia fina de Queima Minha Pele, música que transparece a essência triste do blues sem necessariamente parecer um produto do género. Resultado do encontro com o cantor e compositor Tim Bernardes, a canção amplia de forma significativa o teor confessional de músicas como Te Amo Disgraça e Banho de Sol. “Amor, você é como o Sol / Ilumina meu dia, mas queima minha pele“, rima enquanto resgata memórias de um passado ainda recente (“Eu engoli minha vaidade pra dizer: ‘volta pra mim’ / Mesmo sabendo que você me faz tão mal“).