Porque é que o ecrã do cinema aumentou?

Não é a indústria que se ajusta à arte. É a arte que se ajusta à indústria.

EUA, final dos anos 1940: o número de espectadores nas salas de cinema baixou substancialmente. Mas só nas duas décadas seguintes é que a televisão se tornou normal nas casas norte-americanas. Então, se não foi a TV que “matou” o cinema, o que levou ao seu declínio? Ir ver um filme era para os americanos um hábito, uma forma de ocupar os tempos livres. Contudo, depois da II Guerra Mundial, novas formas de lazer tornaram-se populares e acessíveis; e o cinema perdeu o seu espaço.

A indústria norte-americana ficou assustada e o advento da televisão só tornou o cenário futuro mais pessimista – era preciso fazer algo para trazer as pessoas de volta para o cinema. O quê? A resposta da indústria foi torná-lo numa experiência; em vez de as pessoas irem ao cinema ver qualquer filme, iriam ver um filme especial, que valesse a pena no grande ecrã – e, para isso, o formato widescreen foi crucial, como conta o Quartz no mini-doc da autoria de Adam Freelander, que podes aqui.

Em 1952, surgiu o Cinerama, um formato largo que só podia ser visto numa sala de cinema especial; a projecção era feita com três projectores, cada um com um filme em 4:3 – o formato do cinema, na altura. O Cinerama foi a primeira ideia de cinema enquanto experiência, mas uma ideia demasiado cara para poder ser escalável para todas as salas de cinema. No ano seguinte, o estúdio 21st Century Fox estreou o filme The Rope e um novo formato – o CinemaScope –, aproveitando uma invenção francesa que antes não tinha tido a atenção da indústria. O CinemaScope consistia em, usando lentes especiais nas câmaras e nos projectores das salas, “encaixar” uma imagem wide numa fita 4:3 normal, esticando-a depois na projecção.

O Cinerama usava 3 projecções diferentes

The Rope foi um êxito de bilheteiras e a ele seguiram-se mais filmes dentro do mesmo género histórico do primeiro; o widescreen ficou, assim, associado a algo épico – sentimento que ainda perdura nos dias de hoje. Outros estúdios criaram as suas próprias alternativas ao CinemaScope, com os seus próprios nomes: VistaVision, Technirama, PanaVision, etc.

O CinemaScope mudou o panorama do cinema

Adaptar estes formatos super widescreen à televisão – que entretanto surgira (ocupando o papel que o cinema tinha, de entretenimento casual, de ver o que estiver a dar) com com ecrãs 4:3 – foi um novo desafio. Uma das técnicas mais utilizadas, chamada ‘Panning And Scanning’, consiste em recortar e adaptar cada cena; outra forma, conhecida como ‘Open Matte’ ou ‘TV Safe Shooting’, é gravar o filme nos dois formatos: 4:3 e wide. Esta adaptação do cinema à televisão, aos DVDs e ao streaming, ainda é feita hoje em dia, pois muitos filmes são mais largos que o 16:9 da maioria dos ecrãs que temos em casa.

A técnica de Panning And Scanning
A técnica do Open Matte
Mesmo com a chegada do 16:9 à televisão, o cinema continuou a precisar de ser recortado

Se tiveres interesse em saber mais sobre esta história, que aqui resumimos a partir do vídeo do Quartz, podes pesquisar mais sobre o Cinerama ou o CinemaScope. Esta é uma história que nos lembra que o que move o cinema de um modo geral não é a arte em si — muitos artistas ainda continuam a rodar os seus filmes em formatos clássicos — mas a indústria, o dinheiro. Até ao declínio do número de espectadores da sala, a indústria estava confortável com o 4:3, pois seria caro mudar câmaras, lentes, projectores… Mas quando as bilheteiras caem, já compensa.