Como é chegar todos os dias ao trabalho de bicicleta

É mais divertido que ir dentro de um tubo. E não, as 7 colinas não são um problema. Nem chego todos os dias suado.

(Nesta rubrica #ShifterCulture mostramos-te os bastidores do Shifter na primeira pessoa.)

Algures em 2014 comecei a usar a bicicleta para me deslocar diariamente em Lisboa. O facto de poder, dessa forma, poupar todos os meses os 35 euros que me custava o passe de transportes públicos foi o principal peso na balança; quanto aos restantes benefícios do uso da bicicleta, fui-me apercebendo deles ao longo do tempo. E fui também riscando alguns preconceitos que tinha, como o receio de que dadas as inclinações de Lisboa fosse começar a chegar ao trabalho suado.

O primeiro trajecto regular que fiz foi entre Telheiras e a baixa; ainda não havia a ciclovia ao longo da Avenida da República e, entre o trânsito e semáforos daquela artéria, era bastante desconfortável fazê-la. Por isso, arranjei um caminho pela 5 de Outubro ou pela Estefânia, descendo pelo Martim Moniz. Depois, quando em meados de 2016 o Shifter se mudou para a Rua Braamcamp, foi um alívio deixar de ter de subir constantemente a Avenida da Liberdade; e, graças à nova ciclovia entre Entrecampos e o Marquês de Pombal, o meu ‘commute’ tornou-se super tranquilo e cada vez mais acompanhado (Lisboa parecia estar a ganhar novos ciclistas a cada dia). Demorava cerca de meia hora a ir para o trabalho e uma hora a voltar porque fazia um caminho mais longo e descontraído por Campolide, Monsanto e Benfica. Sabia super bem ao final do dia; aproveitava para relaxar e, muitas vezes, conhecer zonas novas na cidade.

Nessa altura já estava rendido à bicicleta. Os transportes públicos atravessam uma fase complicada, principalmente o metro, com greves e perturbações na circulação várias. O facto de não estar dependente de terceiros dava-me uma liberdade que fui aprendendo a valorizar. Também não apanhava trânsito algum e, de bicicleta, conseguia sentir a cidade: o ar fresco, o sol, os cheiros e os barulhos… Bem diferente de entrar para dentro de um túnel e só sair na outra ponta, começando e acabando o dia ao lado de uma multidão sonolenta e stressada.

A questão dos 10 mil euros: se suava? Não, porque escolhia ir de manhã cedinho e saía ao final do dia.

Actualmente o meu trajecto diário é bem mais curto e podes vê-no no vídeo em cima. Demoro uns 10-15 minutos de casa até ao Palácio Baldaya, em Benfica, onde agora está “instalado” o Shifter. Gosto que o trajecto seja rápido e praticamente plano. O esforço físico é, assim, pouco e seria ainda menos se existisse uma boa via segregada ao longo do mesmo – em vez disso, tenho de circular na estrada lado a lado com os automobilistas que às vezes se mostram pouco pacientes ou pressionam, mesmo que de forma não intencional, para pedalar mais rápido. Lidar com a pressão dos carros é, para mim, a principal desvantagem do ‘commute’ de bicicleta numa cidade como Lisboa, cuja infra-estrutura ciclável é ainda muito deficitária. Contudo, é algo que se vai aprendendo com o tempo – uma questão de confiança e de nos habituarmos a prever que os outros veículos podem não agir como esperávamos, ignorando, por exemplo, que numa passagem para velocípedes são estes que têm prioridade.

Apesar de tudo, a bicicleta continua a ser o meu modo preferencial de deslocação e actualmente já comecei a conjugá-la mais com os transportes públicos. Para descontrair dos mesmo percurso todos dias, de vez em quanto opto por uma volta diferente. Recomendo a bicicleta como meio de transporte; tenho plena noção de que não é adequado para toda a gente, mas estou convencido de que poderia ser o preferencial de muitos. Por experiência, sei que os preconceitos habituais são muitas vezes desculpas e nada melhor que experimentar uma semana ou duas, usando, por exemplo, as bicicletas partilhadas da GIRA. Depois de cinco anos a usar a bicicleta praticamente todos os dias em Lisboa, apercebi-me de que a cidade é mais plana do que pensava: ou consigo encontrar um trajecto que implique pouco esforço físico ou conjugo a bicicleta com os transportes públicos.

(A fechar, deixo uma nota sobre o vídeo: reparem na carrinha que me aparece à frente a seguir à rotunda e como ela me acompanha ao longo do percurso. Ou seja, às vezes o carro ser mais rápido que a bicicleta é uma ilusão dentro de uma cidade…)