O Instagram onde as trotinetas mal tratadas em Lisboa vêm parar

Há fotos de trotinetas abandonadas ou vandalizadas, mas também de usos criativos.

É impossível não reparar nelas. As trotinetas começaram a invadir as estradas e passeios de Lisboa no final do ano passado, existindo neste momento cinco empresas diferentes a operar: Lime, Hive, VOI, a Tier e a Bungo. Operadoras diferentes, dinâmicas iguais: as trotinetas estão disponíveis na rua para quem tiver a app e quiser usar, e podem ser largadas onde bem apetecer. Isso implica uma responsabilidade cívica, que nem sempre é levada a sério por utilizadores e não utilizadores.

O resultado: se há inúmeras trotinetas bem estacionadas e em bom estado (muito pela regularização das próprias empresas e da Câmara Municipal de Lisboa), também há veículos deixados ‘ao deus-dará’ e vandalizados. Foram estas situações que chamaram à atenção de um designer de produto, lisboeta de gema, que decidiu criar a @deadscooter – uma conta de Instagram onde documenta as trotinetas mal tratadas em Lisboa.

“Desde que apareceram em Lisboa e comecei a ver molhos de trotinetas que pareciam mortas e abandonadas no chão ou paradas em sítios estranhos – achava até meio artístico alguns cenários”, conta ao Shifter. “Tirava foto e partilhava com os meus amigos. Depois reparei que um pouco por todo o lado havia mais pessoas também a achar piada e a tirar fotografias. Achei que era boa ideia criar uma conta só para isso, até porque assim podia pedir para me enviarem fotos.”

A conta @deadscooter foi criada no início de Janeiro e, além de trotinetas tombadas ou vandalizadas, mostra alguns usos criativos, como os pequenos objectos pendurados em varandas ou a brincar com estátuas. O autor deste Instagram diz receber cerca de cinco fotos por dia de pessoas diferentes. “Também já recebi mensagens tristes, pessoas com trotinetas a tapar a porta de casa, ou o caminho onde passam. Se pensares em alguém de mobilidade reduzida (que não sei eram os casos), isto perde logo a piada e passa a ser um problema grave”, refere.

Trotinetas: problema ou evolução?

As trotinetas não são o único entrave à mobilidade em Lisboa. Diariamente a mobilidade pedonal em Lisboa é afectada também por automóveis em velocidade excessiva ou mal estacionados, ou pelo demasiado espaço público que os carros ocupam relativamente a outros modos de mobilidade. Má colocação de mobiliário urbano (esplanadas, postes, bancos…), infra-estrutura ciclável mal desenhada, a própria calçada lisboeta esburacada, escorregadia ou inexistente, e até caixotes do lixo no meio dos passeios são outros entraves de quem diariamente circula em Lisboa a pé.

Certo é que os problemas que a invasão de trotinetas parecem levantar não são exclusivos de Lisboa, e as trotinetas que empresas como a Lime disponibilizam são relativamente baratas de serem produzidas. Isto levanta sérias questões relacionadas com o desperdício industrial que já foram levantadas noutros países e noutros contextos. “O que me intrigou no caso das trotinetas é que parece que não há ninguém responsável por perto, ao contrário da GIRA. São objectos que andam por aí espalhados pela cidade mas ninguém é responsável por eles. Se está a arder, num caixote do lixo ou a boiar no rio Tejo – que se lixe, ninguém quer saber”, desabafa o criador da @deadscooter.

“Está a ser extremamente interessante observar a evolução da mobilidade urbana em Lisboa, a forma como estas empresas escalam e os problemas que isso gera, a adopção das pessoas e o seu comportamento. Importa também observar como é que a Câmara lida com este novo tipo lixo electrónico feito por empresas que parecem não se importar muito com o fim de vida do produto que vendem.”