Filmes que passaram despercebidos em 2018

O ritmo de produção é tal que para além dos óbvios de cada ano, há material para fazer mais uma série de listas, por interesse, gosto e acessibilidade, de filmes que valem a pena ver quando para tal surgir oportunidade.

Com a proliferação dos serviços de streaming, o cinema tem sido uma das áreas que tem evoluído mais rapidamente. Novas plataformas, novos mercados e novos produtores têm feito uma autêntica revolução no mundo da 7ª arte. Se antigamente dependíamos do ritmo das salas para ir acompanhando os lançamentos, hoje em dia a nossa sala de estar pode muito bem albergar uma estreia mesmo antes de esta chegar ao grande ecrã. O filme Roma, de Alfonso Cuaron é disso um exemplo paradigmático mas não é o único. O ritmo de produção é tal que para além dos óbvios de cada ano, há material para fazer mais uma série de listas, por interesse, gosto e acessibilidade, de filmes que valem a pena ver quando para tal surgir oportunidade.

Foi mais ou menos isso que fizemos nesta lista que reúne alguns dos filmes que não tiveram (tantas) honras no mainstream mas merecem uma oportunidade — até porque, em parte, ainda não chegaram aos cinemas nacionais.

Green Book

Protagonizado por dois actores nomeados para os Óscares em 2017, nomeadamente Mahershala Ali (Moonlight) e Viggo Mortensen (Captain Fantastic), o filme retrata acontecimentos reais, seguindo o Pianista de Jazz Don Shirley (Ali) e o seu segurança e motorista Tony Vallelonga numa tour pelo “Deep South”, ou seja, os estados mais a Sul dos Estados Unidos da América.

Escrito e realizado por Peter Farrely, com a ajuda do próprio filho de Vallelonga, baseado ainda em entrevistas a ambos os protagonistas e cartas que Vallelonga enviava à sua mulher, o filme estreou no Toronto Film Festival, onde foi bem recebido com um People’s Choice Award. O título do filme encontra-se relacionado com o livro The Negro Motorist Green Book, um livro destinado a motoristas negros, com hotéis, motéis e restaurantes onde estes fossem aceites.

O filme estreia em Portugal no dia 24 de Janeiro.

Beautiful Boy

Beautiful Boy é outro filme com nomes bem conhecidos mas que acabou por ser sobreposto por outros filmes, mantendo-se “under the radar”. Protagonizado pelo novo galã da cena jovem de Hollywood Timothée Chalamet (Call Me By Your Name) ao lado do veterano Steve Carrell (The Office, The Big Short), retrata uma relação intensa entre pai e filho. Após desaparecer durante dois dias, Nicholas (Chalamet) aparece em casa, visivelmente intoxicado, pelo que o seu pai David (Carrell) o leva para uma clínica de reabilitação.

Uma história complicada, cheia de recuperações e percalços, baseada no ponto de vista verídico de David Sheff, através dos seus memoirs Beautiful Boy: A Father’s Journey Through His Son’s Addiction e Tweak: Growing Up On Methamphetamines.

Realizado por Felix Van Groeningen, o filme estreou no Toronto Film Festival, tendo Chalamet já sido nomeado para os Globos de Ouro e os Screen Actors Guild.

Private War

Private War vê Rosamund Pike (Gone Girl) numa transformação exigente, de forma a honrar de forma respeitosa a mulher que dá vida ao filme. Pike é Marie Colvin, uma consagrada jornalista americana cujo trabalho consistia maioritariamente em correspondência no estrangeiro, nomeadamente em países em conflito ou guerra. Colvin esteve na Chechenya, Kosovo, Zimbabwe, Sri Lanka, entre outros, acabando por morrer na Síria. Era conhecida pela sua grande coragem e por estar constantemente a arriscar a sua própria vida, o que a levou a perder visão no olho esquerdo numa explosão.

O filme estreou no Toronto Film Festival e Pike já se encontra nomeada para os Globos de Ouro na categoria de Melhor Actriz.

Boy Erased

Boy Erased revela-se como a estreia de Joel Edgerton (Loving) como realizador, tendo na mesma um papel significativo no filme. A este juntam-se Lucas Hedges (Lady Bird), Russel Crowe (The Nice Guys, Gladiator) e Nicole Kidman (The Hours, The Beguilded). Jared (Hedges) é o filho de Marshall (Crowe) e Nancy (Kidman), que foi mandado para um campo de terapia e conversão Love In Action, chefiada por Victor Sykes (Edgerton). Duas aparições surpreendentes são as de Xavier Dolan e Troye Sivan, como dois dos “colegas” de Jared no campo.

Baseado numa história real contada num memoir do mesmo nome por Garrad Conley, o filme estreou no Telluride Film Festival e conta já com uma nomeação para os Globos de Ouro para Hedges.

O filme estreia em Portugal a 28 de Março.

Lean On Pete

Lean On Pete é o mais recente filme de Andrew Haigh, realizador do filme 45 Years, de 2015. Produzido por uma das mais conceituadas produtoras do Séc. XXI, A24, o filme conta com Charlie Plummer, Travis Fimmel e Chloe Sevigny. Plummer é Charley Thompson, um rapaz de 15 anos que se muda com o seu pai para Portland, à procura de um novo começo. Mais tarde, num hipódromo, Charley afeiçoa-se a um cavalo, chamado Lean On Pete. Após se aperceber que o cavalo seria abatido, Charley e o seu novo amigo partem para o desconhecido, à procura de uma nova casa.

O filme é baseado numa obra literária do mesmo nome, escrita por Willy Vlautin. Ao contrário dos filmes acima referenciados, Lean On Pete estreou-se em terreno europeu, no Venice International Film Festival.

Sorry To Bother You

Sorry To Bother You é a estreia de Boots Riley na realização depois de uma carreira musical como rapper. Produzido pela produtora Annapurna Pictures, o filme conta com Lakeith Stanfield, Tessa Thompson, Patty Oswalt, Terry Crews, e Armie Hammer. Lakeith é Cassius Green, um jovem afro-americano com dificuldade em pagar as despesas. No filme, Cassius acaba por conseguir uma posição numa empresa de televendas, mas não estava a ter grande sucesso a angariar clientes, até que um colega o ensinou a fórmula para um maior sucesso: falar como uma pessoa branca. Essa aprendizagem revela-se como uma bizarra descoberta para uma vida de luxo, mas mais tarde as coisas começam a descarrilar.

Apesar de ser a estreia de Riley na realização, o filme revela-se como um bom exemplo de escrita, direcção de elenco e realização tendo como bónus o conceito, uma sátira disfarçada de crítica social, ao estilo de Jordan Peele.

O filme estreou no Sundance Film Festival, onde foi recebido com críticas sólidas e positivas.

The Ballad of Buster Scruggs

Depois de ter passado por alguns festivais de cinema, saltou directamente para o streaming – sem passar pelas salas. The Ballad of Buster Scruggs é o mais recente trabalho dos irmãos Cohen e, talvez por não ter respeitado o circuito tradicional, passou algo despercebido em 2018.

O filme é composto por seis histórias diferentes que têm o faroeste norte-americano como pano de fundo. Inicialmente a ideia era produzir uma mini-série de seis episódios em formato antologia, mas os realizadores e argumentistas – Ethan Coen e Joel Coen – decidiram na recta final compilar tudo num único filme de 132 minutos, que estreou globalmente no Netflix em Novembro. No elenco, encontramos desde o actor James Franco ao actor-músico Tom Waits.

The Kindergarten Teacher

Ao contrário do que se poderia esperar, este filme é um remake, ou uma adaptação americana, de um filme israelita de 2014, com o mesmo nome. Maggie Gyllenhaal não só é a protagonista deste filme, mas também vestiu o chapéu de produtora executiva. Segundo um artigo da Deadline, Gyllenhall aliou-se a uma das produtoras, de forma a estrear-se na realização com a adaptação da obra literária The Lost Daughter.

Neste filme, Gyllenhall interpreta uma educadora de infância, Lisa Spinelli, insatisfeita com o rumo que a sua vida tomou. Com um bichinho pela poesia, Spinelli faz parte de um clube semanal de poesia, mas a opinião dos seus colegas é que a sua poesia é influenciada por outros autores. Um dia, ouve um dos seus estudantes a recitar um poema que ele próprio escreveu e leva-o para o clube; O poema acaba por ser recebido e a professora assume que o aluno tem um dom.

Enquanto esta encoraja a nutrição do talento de Jimmy, o seu pai prefere que este viva a vida normal de um miúdo. Num acto de pura loucura, após este ter mudado de creche, Lisa convence Jimmy a ir com ela. O que ele não sabe, é que esta tem um plano de se mudar com ele para o Canadá.

O filme estreou no Sundance Film Festival e foi adquirido pela Netflix para distribuição na plataforma. Em Portugal, The Kindergarten Teacher encontra-se atualmente nos cinemas, tendo estreado a 3 de Janeiro.

Shoplifters

O único filme estrangeiro desta lista, dado que Roma e Una Mujer Fantástica foram reconhecidos em melhor volume, é Shoplifters, um filme japonês de nome original 万引き家族. É um filme com um orçamento reduzido, tendo sido editado e realizado por Hirokazu Kore-eda, realizador de Like Father, Like Son. No elenco estão presentes Lily Franky e Sakura Ando, entre outros. Shoplifters segue uma família que está a passar grandes dificuldades monetárias e que utiliza o furto como meio de sobrevivência.

O filme estreou no Festival de Cannes, onde ganhou o prestigiado Palme d’Or e foi também nomeado para os Golden Globes na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.

Don’t Worry He Won’t Get Far On Foot

A filmografia do Gus Van Sant é feita de personagens peculiares, em nada banais; sejam elas fictícias (Good Will Hunting), históricas (Milk) ou uma mistura das duas (Last Days). Este filme é mais um exemplo disso. Encontramos em Don’t Worry He Won’t Get Far On Foot e John Callahan, o cartoonista lendário, interpretado por Joaquin Phoenix, o filme que Gus não fazia há anos.

O filme conta-nos a história verídica da vida de Callahan: o alcoolismo, o acidente de carro que o deixa tetraplégico aos 21 anos, os seus fantasmas, a sua amizade com o seu sponsor (Jonah Hill) dos Alcoólicos Anónimos, a sua vida amorosa (Rooney Mara), os seus cartoons, a sua carreira. Callahan é interpretado por um Joaquin Phoenix despenteado, rabugento, sincero, complexado, mas sobretudo com um sentido de humor irreverente e ousado.

Tudo junto dá-nos um filme que abraça sem medos o ‘politicamente incorrecto’, oscilando entre sentimentos de raiva, impotência, auto-piedade e remorso como só o Gus sabe.

You Were Never Really Here

Baseado no livro de Jonathan Ames do mesmo nome, retrata um ex-marine nova iorquino, Joe (Joaquin Phoenix), que trabalha para um detective privado como hired gun — embora a sua arma predileta seja o martelo, que nos garante inúmeras cenas à la Old Boy — com a missão de resgatar a filha de um senador de uma rede de pedofilia.

Lynne Ramsay enraíza tanto o filme no ponto de vista de Joe que às vezes ele aparece completamente ausente do ecrã. Nós somos desconfortavelmente Joe. Estamos dentro da cabeça dele, onde não há silêncio, não há razão. É uma história intensa, assombrada e brutal com uma vibe uma beca de Taxi Driver que nos ‘sufoca’ no trauma de Joe, em flashbacks enigmáticos e de violência delirante, da sua experiência de guerra e da sua infância abusiva.

Artigo com colaboração de Daniel Hoesen, João Ribeiro e Mário Rui André.