Jacob Collier ao vivo, numa palavra: mágico

Um dos maiores promissores artistas a sair da metrópole londrina veio a Lisboa começar a Tour do seu segundo álbum, Djesse.

Jacob Collier - Teresa Lopes da Silva / Shifter

Um dos mais promissores artistas a sair da metrópole londrina veio a Lisboa começar a Tour do seu segundo álbum, Djesse, o primeiro volume de uma coletânea de quatro discos com o mesmo nome.

É inegável que vivemos uma era em que grande parte da música é feita digitalmente. Cada vez mais artistas se cingem ao seu próprio computador e, com ajuda de um teclado Midi, produzem sonoridades de grande qualidade. Daí haver uma necessidade dos instrumentistas de se reinventarem. Jacob Collier fá-lo de uma forma tão simples quanto arrojada. Nascido em 1994 desde cedo se começou a interessar pela produção musical e pelos mais variados instrumentos musicais. Intitula-se como autodidata. Tornou-se viral quando, na sua plataforma de Youtube, lançou vídeos de arranjos seus a tocar vários instrumentos e a cantar. Foi isso que o levou à produção do seu primeiro álbum, “In My Room”, inteiramente gravado e produzido no seu quarto por si. Com este disco conquistou um Grammy e prendeu a atenção de Quincy Jones, nome grande da produção musical.

Galardoado muito novo e tido como um dos maiores talentos da sua geração, decidimos ver o primeiro concerto ao vivo da sua Tour. Acompanhado por banda, temos o Capitólio apinhado com uma energia de grande expectativa no ar.

Pouco depois das dez da noite entram em palco. Aparece-nos um jovem cheio de energia, com cara de adolescente, t-shirt branca, calças de “yoga” e meias, a convidar a plateia a fazer parte do concerto apoiando nas “back vocals”. O início do concerto é explosivo, como uma tempestade marítima que de tão bela como poderosa, que nos prende, encanta e impõe respeito. Não veio dar um mero concerto, mas um espectáculo que engloba música, luzes e que se complementa com o apoio do público. Ao finalizar a primeira música a reacção é apoteótica, delira-se na maior sala de espectáculos do Parque Mayer.

O multi-instrumentalista procede a apresentação da banda numa conversa informal de genuinidade cativante mostrando a sua humildade. Entre sorrisos diz que a sua última digressão, “In My Room”, foi muito solitária, decidindo fazer esta segunda com banda. Começa pelo baixista, Robin Mullarkey, seguindo o próprio Collier, o seu preferido no mundo inteiro, que eleva as linhas de baixo a um patamar altíssimo. Poderoso e com grande “Swing” faz-nos dançar ao ritmo das suas melodias. O baterista, Christian Euman, com uma enorme versatilidade quanto a ritmos, tanto está a dar-nos um ritmo lento como de seguida rebenta, transformando a batida sempre com uma enorme precisão e naturalidade invejável. Por fim apresenta uma nossa conhecida dos palcos portugueses, a artista nacional Maro. Pelas palavras de Jacob, procuravam alguém que tocasse harmonizador, percussão, guitarra e tivesse uma voz distinta e, foi aí que descobriram a artista que despoleta em Portugal. Teve tempo para tocar um dos seus temas, sozinha, o que levou a um aplauso vibrante que encheu a sala. Os quatro músicos mostraram uma cumplicidade fantástica, o que ajudou a consolidar um espectáculo para mais tarde recordar.

Maro – Jacob Collier – Teresa Lopes da Silva / Shifter

Jacob foi Jacob, ele próprio, um pianista fantástico entre acompanhamentos para a voz ou solos que demonstram um talento especial para o Jazz. Guitarrista de acordes simples, bem colocados e milimetricamente tocados. Baixista de influências “funk”, usa o instrumento como uma guitarra, dedilhando as grossas cordas de metal como se de nylon se tratassem. Baterista experimentalista usa-a para marcar tempos, mudanças de tempo e ritmo. Inventor, a par de Ben Bloomberg, engenheiro do MIT, do seu próprio harmonizador. Modula a sua voz para se fundir com o som do instrumento digital criando um som caído dos céus com a sua voz limpa e angelical. E, claro, não se pode falar deste artista versátil sem falar na sua voz ao natural. Usa-a, não apenas para cantar, mas em toda a sua extensão. Faz dela um instrumento e, entre improvisos e canto, fascina-nos. Tanto está no seu registo vocal, grave e profundo, como, no segundo a seguir, está a dar-nos agudos de uma beleza reconfortante.

No final houve ainda tempo para um encore, tanto solicitado pelo público e a despedida não poderia ter sido melhor, com o “All Night Long”, a solo ajudado pela plateia faz-nos sentir fazer parte de um todo que existe ali dentro e, entre graves e agudos, dirige-nos como um maestro. Com um sorriso rasgado de orelha a orelha despede-se e recebe uma calorosa ovação.

Concluindo apenas podemos descrever o concerto numa palavra: mágico. E a capa do álbum que veio apresentar reflete na perfeição a sua música. Tanto é tempestuosa como o mar, quente e vibrante como o fogo, suave e reconfortante como a terra e a floresta, ou angelical e áurea com os seus vocais pensados em algum sítio transcendente ao nosso planeta.