Messias Bolsonaro é o primeiro presságio de 2019

Para alguns uma verdadeira profecia

Quase todos os anos começam da mesma maneira. Uma volta ao globo em fogo de artifício e outra em tempos de antena e discursos de boas festas dos principais líderes mundiais dão o mote para o que aí vem e marcam as primeiras horas do novo ano. A normalidade só se quebra em caso de grandes acontecimentos, políticos ou naturais, como é o caso da tomada de posse do Presidente e dos Governantes brasileiros. A data não surpreende, o 1 de Janeiro é por tradição o dia da tomada de posse no Brasil mas há já 8 anos, desde a primeira tomada de posse de Dilma Roussef, que o acontecimento não era marcante como foi o de ontem.

Depois de um ano em que Bolsonaro e a sua retórica populista foram protagonistas de alguns dos momentos mais mediáticos, 1 de Janeiro de 2019 marca o dia em que lhe são conferidos os poderes da presidência do Brasil, a partir dos quais poderá fazer das palavras actos. A faixa presidencial foi-lhe entregue por Michel Temer, o presidente não eleito que ocupava o cargo desde o impeachment do governo de Dilma Roussef, um momento político decisivo e que importa não esquecer na análise.

Dilma Roussef cumpriu um mandato e meio (de 2011 a 2016), dando seguimento ao trabalho de Lula da Silva, e completando 13 anos de Partido dos Trabalhadores à frente dos desígnios do país. A sua queda deu-se pelo meio de muitas polémicas e muita contestação social que acabara por ser explorada do ponto de vista político por novos actores no sistema como o partido jovem MBL, o próprio Bolsonaro que apesar dos seus 30 anos como político de profissão se apresenta como alguém de fora do sistema, e toda a gente descontente com as políticas tendencialmente socialistas do executivo. Com tantos anos de responsabilidade foi fácil fazer do PT/socialismo um papão e foi com essa retórica que Bolsonaro se escudou, escondendo até as suas próprias ideias, defendendo-as como uma espécie de ideologia neutra e maioritária — algo próprio dos líderes totalitários e que fica claro em algumas das frases que pontuaram a sua campanha como “vamos governo para a maioria”

Bolsonaro chega ao poder não como um simples político mas como alguém que pretende desafiar o próprio canone da política, mesmo que por trilhos anti-democráticos. De resto, toda a sua campanha ficou marcada por vários indícios desta discordância institucional. As suas palavras dizem-no há anos e os seus actos tornam-no indelével — recorde-se que Jair Messias chega à presidência sem ter enfrentado qualquer debate. Já na cerimónia de tomada de posse a conduta do agora presidente brasileiro prevaleceu. Numa atitude ambígua que mistura audácia política com incumprimento cerimonial grosseiro, Bolsonaro e os seus não têm problemas em fazer as coisas como acham que lhe dá mais jeito. É disso exemplo o discurso em língua gestual protagonizado pela sua mulher mesmo antes do seu. Nunca uma primeira dama tinha discursado, muito menos antes do eleito, e tudo o que ficará para a história do momento será o gesto inclusivo de Michelle. Curioso, não? 

Michelle Bolsonaro, a mulher de Jair Messias, já tinha demonstrado o apoio prático ao marido, e que não seria uma vulgar Primeira Dama, desde que assumiu a gestão de redes sociais da campanha. Agora, no primeiro momento, volta a mostrar a sua presença, esperteza política e vontade de protagonizar mesmo que fora das normas.

A cerimónia foi longa e mais protocolar do que propriamente política mas ainda assim os argumentos de Bolsonaro vieram a jogo. Os discursos foram mais do mesmo a que tinha habituado durante a campanha, embora neste caso num tom mais contido e com mais promessas de união. Acima de tudo e de todos os outros tópicos, voltaram as repetir-se as referências a deus, reveladoras da importância da igreja quer para o candidato, quer para a sua eleição. No mesmo plano e depois da referência a Deus, Bolsonaro também não deixou de fora aquele que personifica como diabo no seu discurso, o “socialismo”, vociferando os já habituais ataques simplistas a esta doutrina de esquerda. “O dia em que o povo começou a libertar-se do socialismo”, “Nossa bandeira não será vermelha” mesmo que seja preciso “derramar sangue” foram algumas das passagens que mostram que o Bolsonaro presidente não aprofundou muito as ideias do Bolsonaro candidato.

Jair Messias Bolsonaro fez grande parte da sua campanha recorrendo a chavões abstractos contra o socialismo e reduzindo toda a análise política a uma intriga maquiavélica que conquistou muitos milhões de votantes. Nesta fantasia ele é o Bom e livre de qualquer ideologia, enquanto aponta ao Socialismo (na sua interpretação absolutamente redutora) todos os males do mundo ou melhor dizendo, todos os medos do mundo. Bolsonaro vinga perante uma sociedade com incerteza no futuro e eleva-se projectando e cristalizando nos outros os medos e inseguranças da população, apresentando-se como o oposto ainda que seja só na teoria. Demonstra desprezo pelas minorias mas escolhe uma (os surdos) para o seu espectáculo; Quer combater a insegurança liberalizando ainda mais as armas; Defende que não é ideológico invocando deus a cada discurso; Diz que é de fora do sistema depois de 30 anos com político profissional; vocês percebem a ideia…

Ao redor do espaço cerimonial, a city política de Brasilia, milhares foram os que se juntaram para abençoar (sim, não há melhor termo) a sua tomada de posse. Como refere o Observador no seu artigo, o outro lado do populismo é a popularidade que ficou mais uma vez expressa. Entre alguns dos momentos mais insólitos protagonizados por esta multidão estão os cânticos “Facebook! Facebook! Whatsapp! Whatsapp”. Se por um lado existe a preocupação generalizada por estar factualmente provado que as redes sociais e de distribuição de informação estão falidas e altamente contaminadas, entre os apoiantes do mito há quem as louve sem pudor. Mais uma vez, curioso e sintomático sobre a crise de mediação no Brasil e no mundo.

Quanto às presenças internacionais, também elas um importante símbolo na tomada de posse de um presidente, não podiam ser mais determinantes. Para mencionar alguns, dos mais paradigmáticos, vejamos os casos de Marcelo Rebelo de Sousa, Viktor Órban ou Benjamin Netanyahu. O primeiro dispensa grandes comentários, está em todas e não deixaria de estar nesta apelando a Bolsonaro para que não rompa as importantes relações de base da CPLP. Já Órban e Netanyahu emprestam um pendor muito mais político à cerimónia. O pai da democracia não-liberal (ou pseudo-ditadura, vá) húngara foi dos poucos europeus presentes e leva a público o alinhamento político internacional de nacionalistas que já se vinha adivinhando. A presença de Netanyahu, presidente de Israel, tem um peso político ainda maior, especialmente se recordarmos a promiscuidade da igreja, quer num quer noutro país. Para além da mudança da embaixada brasileira para Jerusalém antecipada por Netanyahu, o perfil de relações entre estes dois países pode ser mais profundo. Israel é um dos países mais desenvolvidos no que toca a tecnologia de defesa e segurança — como drones para identificar pessoas, por exemplo — e poderá ser um parceiro estratégico de Bolsonaro na materialização das suas ideias.

O dia ficou igualmente marcado pela tomada de posse dos 21 ministros escolhidos por Bolsonaro. Sérgio Moro, o juiz que protagonizou a prisão de Lula da Silva, e agora ministro do Governo de Bolsonaro foi um dos mais ovacionados entre uma lista que inclui um Astronauta como Ministro da Ciência e uma pastora evangélica como ministra dos direitos humanos, para darmos alguns exemplos.

A tomada de posse de Bolsonaro é o primeiro presságio do ano, no sentido em que mais do que um momento político, se tratou de um momento simbólico onde a narrativa criada ao longo de todo o ano e que será explorada neste que se segue foi materializada quase ao pormenor. Não aconteceu nada, foi tudo “normal” e para alguns, provavelmente, indiferente, e essa é a chave da sua relevância — a forma como algo estranho se torna normal. A verdade é que pelas ruas de Brasília desfilaram as forças que protagonizarão os grandes debate do ano, ou não fosse este gigante país a 9ª maior economia do mundo, e portanto um actor com potencial para condicionar e alterar dinâmicas em todo o globo.