Sobre a nova forma de James Blake

Blake assume nova forma com mais auto-estima e novas colaborações.

Foto de Amanda Charchian/DR

Sempre que ouvimos um novo álbum do cantor e produtor britânico James Blake, temos a expectativa de estar a ouvir uma coisa completamente original e, de certo modo, inédita. Foi a isso que nos habituou com James Blake (disco homónimo), OvergrownThe Colour In Anything mas, no novo trabalho, Assume Form, fugiu ligeiramente à regraJames Blake assume, tal como revela o título e os versos introdutórios do disco uma nova forma, com optimismo e parcerias, sacrificando algumas das particularidades mais marcantes nos registos anteriores.

“I will assume form, I’ll leave the ether”

Assume Form é o reflexo de uma nova fase da vida de Blake, sem pudores nem elitismo. Desde The Colour in Anything que o músico britânico vive em Los Angeles, envolvendo-se ainda mais no mundo da música, colaborando em produções de diversos artistas de renome, sobretudo norte-americanos. Como conta numa entrevista à Apple Music, através deste intercâmbio, Blake ganhou uma perspectiva sobre o seu trabalho, que procurou explorar num disco menos críptico mas nem por isso menos denso.

Para além desse crescimento musical, Assume Form é simultaneamente um retrato do crescimento emocional do músico que fazia das suas depressões e ansiedades um tema comum. Se os registos anteriores eram uma espécie de desabafo dos estados de alma do músico britânico, Assume Form parece um confronto às emoções, um assumir do controlo da própria vida.

Se por um lado especialmente os seus dois últimos álbuns Overgrown e The Colour In Anything representam um Blake sensível, inseguro e emocionado, Assume Form parece diluir em criatividade o lado mais emocional, crescendo para uma dimensão mais pop.

“The plan is to become reachable, to assume material form, to leave my head and join the world”

A capa de Assume Form

O som de Blake é sempre tocante e visceral, chegando a provocar arrepios em reacção de repulsa ou de emoção. Há momentos de altos graves que reage quase como alguma claustrofobia mas inevitavelmente a sensação é aliviada quando Blake começa a cantar. A voz é esperançosa, confortante mas muito pensativa e sensível.

Em Assume Form, Blake parece estar apaixonado e confiante, e as músicas reflectem essa auto-estima. Parcerias com Rosalía, Travis Scott, Metro Boomin ou André 3000 demonstram total vontade de assumir novas formas mais relacionáveis com o grande público. Apesar de estar recheado de bons momentos, a música parece deixar de ser tão intensa e peculiar para se tornar mais simples e apelativa.

O conteúdo lírico de Assume Form é surpreendentemente franco e reflexivo sobre coexistência e contentamento. Algo que se ouve em “By all means, she can get ahead of herself, I’ll already be there” na faixa “Into The Red”, que credita sua namorada e actriz Jameela Jamil, presente em momentos sensíveis de sua vida. É claro para todos que Assume Form representa uma recém-descoberta imatura de James Blake de uma música mais impessoal e interactiva. Blake nunca se permitiu estar tão presente quanto ele faz no seu quarto álbum.

Em “Can’t Believe The Way We Flow”, encontramos que “Nothing makes a sound when you’re not around”. James Blake regista ocasionalmente um ar de insegurança que é libertada em momentos como na canção “I’ll Come Too”, na qual diz “I’ll go under your wing / I’ll slot right in”,  uma simples mas efectiva maneira de encontrar conforto em outra pessoa.

A sua relação com o mundo do hip hop é outro dos pontos incontornáveis deste disco. Cresceu muito rapidamente e com muito talento. Colaborações iniciais com RZA e Chance the Rapper deram trajectos a produções com Vince Staples, Beyoncé e Kendrik Lamar em pouquíssimos anos. Assume Form é o ápice dessa trajectória alternativa, uma confirmação do que Blake tem elaborado em seu próprio trabalho e no trabalho de outros desde o início. Está objectivamente no epicentro de artistas influentes, misturando hip hop, R&B e instrumentação clássica em estruturas de música electrónica indie e alternativa como poucos.

Quando se ouve com mais detalhes o seu novo registo nota-se que James Blake perdeu qualquer coisa ao longo do caminho de sua desafiante jornada para se juntar ao mundo. O fenómeno não é necessariamente mau ou digno de crítica, pelo contrário, reforça um sentimento muito próprio da música de Blake onde prevalece uma simplicidade e honestidade cativantes.

Assume Form é um primeiro registo de adulto do artista, e as suas diferenças face aos anteriores são puros reflexos da sua forma de lidar com uma nova fase em que já não é propriamente o jovem génio e hipster londrino, assumindo um papel de destaque no mundo da música.

(Artigo escrito em colaboração com João Ribeiro.)