Ninguém resiste a uma boa conversa: o papel dos podcasts na construção de uma comunidade digital

Não será abusivo dizer que a "finest hour" da rádio corresponde hoje aos podcasts, ou seja, aos programas gravados sobre uma qualquer temática à disposição do ouvinte na mais variadas aplicações.

João Ribeiro / Shifter

“When we grow tired of all this visual, you had your time, you had the power, you’ve yet to have your finest hour, radio.” Quando Roger Taylor, baterista dos Queen, escreveu Radio Ga Ga jamais pensaria que estes versos pudessem ilustrar tão bem a vitalidade da rádio na era digital e a relação desta com os podcasts. Não será abusivo dizer que a “finest hour” da rádio corresponde hoje aos podcasts, ou seja, aos programas gravados sobre uma qualquer temática à disposição do ouvinte na mais variadas aplicações.

A massificação e popularidade do podcast, enquanto conceito, forneceu a ideia que este existe há relativamente pouco tempo. Este sentimento pode ser mais ou menos verídico, dependendo de considerarmos a disponibilização de programas de rádio/televisão on demand, a forma mais primitiva de podcast. Prova Oral e Governo Sombra são exemplos perfeitos de programas em meios tradicionais que ganharam dimensão de podcast e possuem um sucesso assinalável ao longo dos últimos anos.

A ideia por trás do podcast nasceu das mãos de um ex-VJ da MTV, Adam Curry, em colaboração com o engenheiro de software Dave Winer. A primeira versão chamava-se iPodder e permitia fazer o download de ficheiros de áudio directamente para o iPod. Assim surgia um movimento que, vendo bem as coisas, tem o seu quê de rádio pirata e jamais viria a parar. Já lá vão 14 anos.

2018 foi o boom dos podcasts independentes em Portugal. Sem o “chapéu de chuva” de um media tradicional, qualquer utilizador com acesso à internet, material de gravação relativamente básico e um pouco de edição, pode colocar um programa de áudio no ar. Como em qualquer tendência, as pessoas aderem em massa na criação de podcasts e a qualidade, regularidade e popularidade tratam de filtrar quem tem sucesso e quem passa de criador a ouvinte.

É curioso que na era do afastamento social e íntimo entre familiares, amigos e conhecidos, as pessoas procurem a simples ideia de pessoas a conversar sobre um assunto. Apenas e só isto. Esta definição básica demonstra que apesar de tudo o que gravita à nossa volta, voltamos sempre à génese humana de interacção social.

Dentro da dinâmica de um podcast há nuances e características que podem condicionar a felicidade do projecto. A regularidade de programas ou a sonoplastia e as condições técnicas podem variar drasticamente, todavia parece indiscutível que os conteúdos e a riqueza destes são o elemento crucial. Um podcast sobre legumes pode ter um som pouco harmonioso e uma regularidade mensal, porém se demonstrar uma programação vasta e relevante para quem ouve, estará inevitavelmente mais perto do sucesso. Naturalmente o inverso não se proporciona. É definitivamente mais complexo substituir substância por formas técnicas.

A receita de um bom podcast não é infalível, muito menos uma verdade absoluta. O target de um certo podcast pode valorizar umas características em detrimento de outras. Quem escuta a Beleza das Pequenas Coisas de Bernardo Mendonça irá encontrar entrevistas densas e profundas a um determinado convidado enquanto que quem ouve o Ask.tm do Pedro Teixeira da Mota dá por garantida meia hora de humor sobre o quotidiano. Quem ouve um, poderá perfeitamente ouvir o outro, contudo o público-alvo e as expectativas que cada pessoa detém quando carrega no play são naturalmente diferentes.

Se já aqui abordámos a questão do inicio de um podcast, importa falar no fim. À partida ninguém parte para a criação de um programa de áudio com a ideia de terminar daqui a um tempo, excepto quando se pretende cumprir um propósito datado no tempo. Pausar ou terminar um projecto assume uma relevância fundamental, nomeadamente para evitar a inevitável decadência ou esquecimento.

Como em diversos paralelos sociais, é importante decidir o próprio destino de um podcast, já que do outro lado estão ouvintes e admiradores que esperam essa decisão. O Linha Lateral, fundado por Luis Cristovão e Tiago Estevão, cumpriu um propósito tremendo acerca da forma como os adeptos de futebol olham para o jogo. Os seus episódios não têm prazo de validade e o programa continuará a servir a causa que ambos partilham. O Linha Lateral terminou há umas semanas com a certeza que a missão estava completa e que contribuíram para os projectos que se seguirão.

Podcasts não fecham para balanço

O “Podcastismo” de 2018 tem gravado a letras de ouro alguns marcos históricos importantes. O podcast Perguntar Não Ofende contou com um rol de estrelas políticas e sociais entrevistadas por Daniel Oliveira. António Costa, Marcelo Rebelo Sousa, Rui Moreira ou Frederico Varandas aceitaram conversar com o comentador numa iniciativa inovadora dado o meio de difusão utilizado. No domínio do jornalismo, o Fumaça deixou cair o “É Apenas” e conseguiu materializar o sucesso de podcast independente, evoluindo para um projecto de media jornalístico com actuação em diversas áreas sociais. Ainda na lógica de temas da sociedade,  45 Graus, um podcast consolidado no éter das aplicações por José Maria Pimentel dita uma conversa ou uma entrevista informal com académicos e intelectuais sobre a área que dominam.

O ano que passou é indissociável da solidez apresentada pelos podcasts de desporto. O Podcast Dicas do Salgueiro, com regularidade bimensal, surgiu e afirmou-se em parceria com a versão audiovisual no Youtube, servindo o propósito de informar as pessoas sobre as áreas de fitness e ginásio. O Podcast Matraquilhos tornou-se o espaço de excelência na discussão sobre o jogo de futebol, a jornada, os protagonistas e as lendas. Utilizando metáforas náuticas, os podcasts de clubes estão de vento em popa numa velocidade cruzeiro e conseguem atrair hoje mais e melhores convidados, inclusivamente o ex-treinador da equipa A do Benfica, Rui Vitória, marco alcançado por Sergio Engrácia no Conversas à Benfica. O Sporting 160 bateu todos os recordes audições em 2018 por larga margem e A Culpa é do Cavani irá passar em Fevereiro do online para o offline, através de um encontro de ouvintes.

A esfera dos podcasts está recheada de conteúdos direccionados para conversas com um ou mais convidados. É impossível não indicar o Cada Um Sabe de Si de Diogo Beja e Joana Azevedo como um dos programas que melhor consegue criar harmonia entre criadores, convidados e ouvintes. De forma completamente informal, os locutores da Comercial asseguram que a “conversa de café” recheada de detalhes curiosos chega a quem está do outro lado. Num espectro diferente, Até Tenho Amigos Que São assegura conversas descomprometidas com homens e mulheres da cultura, não importando a popularidade ou fama destes.

A saúde e o bem-estar são temáticas que estão cada vez mais presentes na cabeça de todos nós. Cláudia Fonseca fundou o Officina, um podcast de lifestyle, onde aprofunda diversos temas como alimentação, motivação, meditação ou família. O ano que passou ficou marcado pelo sucesso do conceito e consequentemente pelo reconhecimento dos ouvintes relativamente ao trabalho da criadora.

Podcast em €

A vertente comercial de um podcast é um mundo novo a explorar. Cada criador está a desbravar o seu próprio caminho em busca de rentabilidade para o trabalho que faz. Neste momento há duas formas mainstream de retirar proveitos de um podcast. O Maluco Beleza de Rui Unas foi o primeiro grande programa audiovisual a conseguir financiamento através de patronos que mensalmente contribuem com a quantia que quiserem de forma a sustentar a equipa e a produção. O mecanismo de doação está intimamente ligado à identificação de cada ouvinte com o projeto.

O outro mecanismo de rentabilidade depreende-se com a venda de espaços publicitários em cada episódio. Como um podcast não tem componente material, o criador vende tempo de emissão a uma ou mais marcas. Com o Humor Não se Brinca de Fernando Alvim e Nelson Nunes estabeleceu em 2018 uma parceria com uma famosa marca de bebidas que patrocina o programa de forma regular.

Os últimos meses foram ricos em novas formas de retirar proveitos financeiros de um podcast. É precisamente nesta questão, que o podcast Ar Livre de Salvador Martinha estabeleceu uma dinâmica admirável em termos comerciais e de pertença. Na génese do programa está a relação próxima que o criador fundou com os ouvintes. Esta ligação de parte a parte foi materializada na concepção do genérico, nos jingles e na venda de merchadising (t-shirts, camisolas etc). A música de abertura do podcast e os jingles de cada rubrica foram compostos por quem ouve, os temas lançados para determinados segmentos surgem através de sugestões do público e o merchadising é vendido por ouvintes para ouvintes. A receita é fácil e perfeita: público, identificação, pertença, simbiose.

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New “jungle”

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Nestes anos de boom, os humoristas trabalharam muito bem a transição “onpodcast” para o “offpodcast”. De forma regular, os comediantes podem expor o seu trabalho em podcast e de forma involuntária estão a encher as salas e os teatros do país com esta lógica de contágio. É possível dizer que o trabalho em podcast que cada humorista faz semanalmente ajudará significativamente a vender bilhetes para cada solo de stand up.

A transição “offpodcast” para “onpodcast” é igualmente uma dinâmica existente. Conta-me Tudo de David Cristina começou por ser um espectáculo ao vivo onde pessoas iam a palco contar uma história inusitada. Passado pouco tempo, estas histórias ganhavam dimensão de podcast e automaticamente chegavam a mais pessoas do que inicialmente previsto.

A comunidade, o podcast e o twitterchat por Joana Rita Sousa

Motivada por questões profissionais dei por mim a participar em twitter chats. O que são? São espaços de conversa com dia e hora previamente agendados. Há um moderador e um tema que é lançado à comunidade, para servir de pontapé de saída para o diálogo. Nalguns twitter chats há um convidado a quem são dirigidas as perguntas. Ainda assim todos podem participar, bastando para isso seguir a hashtag do chat, bem como as regras da casa, partilhadas pelo moderador.

Um dos twitter chat que acompanho há mais tempo começou precisamente por ser um podcast: https://madalynsklar.com/podcast/  falo-vos do #twittersmarter da Madalyn Sklar. Foi com a Madalyn que aprendi muito sobre a moderação de um twitterchat, participando nos chat e também nos seus cursos disponíveis online.

O já citado podcast  #Sporting160 começou por ser um twitter chat, moderado pelo João Castro. Rapidamente a conversa passou para um registo áudio e é um dos podcast mais seguidos pela comunidade twitter e sportinguista, em Portugal.

Gostamos de conversa: às vezes ouvimos, outras vezes participamos

Se o podcast consegue a magia de captar a nossa atenção, pela voz, enquanto fazemos outras coisas, o twitter chat prende-nos pelo corropio de tweets com conteúdo pertinente, na nossa timeline. O facto de todos serem convidados a participar faz com que a grande valência do twitter, o facto cada um de nós valer por aquilo que diz,  seja ainda mais evidente durante o twitter chat. Não é exigido que o participante seja especialista na área: pode ser apenas um curioso, alguém com uma história para contar ou com uma pergunta para fazer. Cada um de nós pode acrescentar o seu ponto de vista sobre o assunto. Ainda que não tenha dados concretos ou estatísticas, suspeito que muitos dos participantes de um twitter chat começam como eu comecei: só a ler, a ver o que se passa. E um dia envolvem-se na conversa.

A nossa relação com o podcast acaba por ser um pouco mais passiva: ouvimos as conversas e, no limite dialogamos connosco próprios. Caso o podcaster abra canais de comunicação como o e-mail, a conta de twitter ou de instagram, temos assim uma hipótese de dar um feedback mais profundo do que o mero like ou a partilha do conteúdo, com a respectiva menção.  Foi precisamente em torno das dinâmicas de comunidade, twitter e podcasts que se debruçou o Twitterchat nº4 by Joana Rita Sousa.

A gestão da comunidade

Durante o #twitterchatpt #4  João Castro partilhou connosco a sua experiência de transição do twitter chat para o podcast. Apontou a necessidade de haver planeamento e de ter algumas questões técnicas asseguradas. “No fundo o essencial é ter um plano mas sobretudo uma equipa.” O plano inclui a comunicação, de forma clara e continuada, à comunidade do novo formato e da frequência do podcast.

Uma das chaves para que estes formatos mantenham a sua comunidade viva é a da consistência. Isso consegue-se por criar uma rotina de encontro, fixar dias da semana e horas e trazer para a conversa temas e/ou pessoas relevantes para a comunidade. A relevância pode justificar-se pelo facto de ser alguém conhecido ou pelo contrário ser um ilustre desconhecido, com histórias para contar. Também constitui uma mais valia para o fortalecimento deste espírito, lançar o convite aos membros da comunidade para assumir o papel de convidados do podcast.

“Na minha opinião, o Twitter não pode funcionar como ferramenta de geração de cliques para o podcast. Têm que ser complementares. A comunidade presente no twitter deve debater os temas e alimentar o podcast, e vice-versa.”

Durante esta conversa foi interessante ver alguns participantes a sublinhar a complementaridade entre conteúdos como o podcast e a rede social twitter, vendo esta como uma ferramenta de marketing e também um canal de word of mouth efectivo. Nada como ler uma recomendação de alguém para ouvir este ou aquele podcast para nos fazer clicar no play.

Podcasts, comunidade, conversa, dinâmicas. Foi este o mote dado por nós num artigo que esperamos que não se esgote aqui. É importante que pensemos que as relações sociais entre as pessoas estão longe de estar out of date. Os seres humanos continuam a querer as mesmas coisas, mas em formas e moldes diferentes. Os criadores de podcasts sabem que uma comunidade sólida, sobretudo nas redes sociais e particularmente no Twitter, os vai ajudar a crescer. E os tantos que ouvem valorizam o que escutam semana após semana porque no fundo são apenas pessoas a falar sobre aquilo que nós gostamos.

Este artigo foi escrito e trabalhado pela equipa Sousa. Joana Rita e Rui